Eles não voam, não são visíveis a olho nu e raramente deixam sinais claros de sua presença, mas os nematoides estão entre os agentes mais destrutivos da agricultura brasileira.
Estimativas do setor apontam perdas anuais superiores a R$ 35 bilhões nas principais culturas do país, com a soja respondendo pela maior fatia desse prejuízo.
O problema é amplificado por um fator estrutural: o Brasil cultiva em solos tropicais quentes e úmidos, condições que favorecem a multiplicação desses organismos ao longo de todo o ano.
Diferente de pragas aéreas, que podem ser monitoradas com armadilhas e observação visual, os nematoides vivem e se alimentam abaixo da superfície, tornando o diagnóstico tardio e o manejo mais complexo.
Entender quais espécies causam mais dano, como elas afetam a produtividade e quais alternativas de controle estão disponíveis é o ponto de partida para qualquer produtor que queira proteger seus resultados.
É exatamente isso que este artigo cobre. Continue acompanhando.
O que são nematoides e por que eles são tão difíceis de combater?
Nematoides são vermes microscópicos que habitam o solo e se alimentam de raízes, células vegetais e outros organismos do ambiente. Existem milhares de espécies descritas, mas apenas uma parcela delas é parasita de plantas. Essas espécies fitoparasitas são as responsáveis pelos prejuízos agrícolas.
O ciclo de vida da maioria das espécies problemáticas é relativamente curto, entre 20 e 40 dias dependendo da temperatura do solo, o que permite múltiplas gerações por safra.
Essa capacidade de multiplicação rápida, combinada com a ausência de sintomas visíveis nas fases iniciais de infestação, faz com que o produtor frequentemente só perceba o problema quando a população já está em níveis altos no solo.
Outro fator que dificulta o manejo é a persistência: os ovos de algumas espécies, como os de Heterodera glycines, podem permanecer viáveis no solo por anos, mesmo na ausência de hospedeiro. Isso significa que uma área infestada carrega o problema por muito tempo, independentemente da rotação de culturas adotada.

As espécies que mais afetam as lavouras brasileiras
Nem todos os nematoides causam o mesmo tipo de dano. Conhecer as espécies predominantes em cada região e cultura é essencial para definir a estratégia de manejo mais adequada.
As três espécies de maior impacto econômico no Brasil são:
| Espécie | Nome comum | Culturas mais afetadas | Tipo de dano |
|---|---|---|---|
| Heterodera glycines | Nematoide de cisto da soja | Soja | Forma cistos nas raízes, interrompe absorção de nutrientes |
| Pratylenchus brachyurus | Nematoide das lesões radiculares | Soja, milho, algodão, cana | Lesiona o córtex radicular, facilita entrada de fungos |
| Meloidogyne javanica e M. incognita | Nematoide das galhas | Soja, café, hortifruti, cana | Forma galhas nas raízes, deforma o sistema radicular |
A Heterodera glycines é considerada a espécie mais limitante para a soja no Brasil.
Pesquisadores da Embrapa Soja identificaram que em solos com alta infestação, as perdas de produtividade podem chegar a 80% em cultivares suscetíveis, mesmo sem sintomas visíveis na parte aérea da planta.
Já o Pratylenchus brachyurus se destaca pela amplitude de hospedeiros, o que complica qualquer estratégia de rotação.
Como os nematoides afetam a produtividade na prática?
O dano causado pelos nematoides vai além da lesão direta às raízes. Há um conjunto de efeitos secundários que amplificam o impacto sobre a lavoura:
- Redução na absorção de água e nutrientes: raízes danificadas perdem eficiência na captação de fósforo, nitrogênio e potássio, comprometendo o desenvolvimento da planta mesmo em solos bem adubados.
- Abertura de porta para patógenos: lesões causadas por Pratylenchus e outros nematoides funcionam como porta de entrada para fungos de solo como Fusarium e Rhizoctonia, agravando o quadro sanitário da lavoura.
- Supressão da nodulação: em soja, o dano às raízes interfere na simbiose com bactérias fixadoras de nitrogênio, reduzindo a eficiência da adubação biológica.
- Efeito “reboleira”: a distribuição dos nematoides no solo raramente é uniforme, o que gera manchas de baixa produtividade dentro do talhão, muitas vezes confundidas com problemas de fertilidade ou compactação.
Esse conjunto de efeitos explica por que lavouras infestadas frequentemente não respondem bem à adubação, mesmo quando os demais fatores de produção estão ajustados.
Estratégias de manejo: o que funciona e o que tem limitações?
Não existe uma solução única para o problema dos nematoides. O manejo eficiente depende da combinação de práticas culturais, uso de cultivares resistentes e, quando necessário, produtos nematicidas. Cada ferramenta tem seu papel e suas limitações.
Rotação e sucessão de culturas
A rotação com culturas não hospedeiras é uma das estratégias mais antigas e ainda recomendadas. O milho, por exemplo, não é bom hospedeiro de Heterodera glycines, o que faz da rotação soja-milho uma prática eficaz para reduzir a população desse nematoide ao longo das safras.
O problema está no Pratylenchus brachyurus, que tem uma lista extensa de hospedeiros. Gramíneas como braquiária, muito utilizadas como cobertura no cerrado, são hospedeiras dessa espécie, o que pode manter ou até aumentar a população no solo durante o período de entressafra.
Cultivares resistentes
O uso de cultivares com resistência ou tolerância a nematoides é uma das formas mais eficientes de conviver com infestações já estabelecidas.
Para Heterodera glycines, existe uma gama razoável de cultivares de soja com resistência disponível no mercado brasileiro. Para Meloidogyne, a oferta é menor e a durabilidade da resistência pode ser comprometida pela variabilidade genética dos nematoides.
A escolha da cultivar deve considerar o histórico da área e, idealmente, a análise do solo para identificar as espécies presentes antes do plantio.
Nematicidas biológicos: a fronteira que mais cresce
O mercado de nematicidas biológicos cresceu de forma expressiva no Brasil nos últimos anos, impulsionado tanto pela demanda por alternativas mais sustentáveis quanto pelos limites dos produtos químicos registrados.
Entre as soluções biológicas disponíveis, os produtos à base de bactérias do gênero Bacillus e fungos como Purpureocillium lilacinum têm mostrado resultados consistentes em condições de campo.
O mecanismo de ação varia conforme o organismo utilizado: algumas bactérias produzem compostos que repelem ou paralisam os nematoides, enquanto fungos entomopatogênicos parasitam diretamente os ovos e juvenis.
Para entender melhor como essas bactérias atuam no controle de nematoides e em quais situações seu uso é mais indicado, vale conferir este conteúdo sobre o uso de bactérias no controle de nematoides.
Uma visão mais ampla sobre o funcionamento dos nematicidas biológicos, incluindo os diferentes grupos de organismos utilizados e seus modos de ação, está detalhada neste material sobre como funcionam os nematicidas biológicos.
Diagnóstico
Antes de qualquer decisão de manejo, o diagnóstico correto é indispensável. A análise nematológica do solo, feita por laboratórios especializados, permite identificar as espécies presentes e quantificar a população por volume de solo. Esse dado orienta tanto a escolha das cultivares quanto a necessidade de uso de nematicidas.
A coleta deve ser feita na zona radicular das plantas, preferencialmente em áreas com sintomas de reboleira ou histórico de infestação. Uma única amostra por talhão raramente é suficiente: a distribuição irregular dos nematoides no solo recomenda a coleta em vários pontos para um diagnóstico mais preciso.
O custo da análise é baixo em relação ao impacto potencial de uma infestação não diagnosticada. Mesmo assim, a prática ainda não está difundida entre a maioria dos produtores brasileiros, o que contribui para que o problema avance de forma silenciosa de safra para safra.
Um problema que exige visão de longo prazo
Os nematoides não são um desafio que se resolve em uma única safra. A gestão eficiente exige planejamento de médio e longo prazo, com rotação de culturas bem estruturada, monitoramento regular do solo e integração entre diferentes ferramentas de controle.
O avanço dos biológicos representa uma mudança importante nesse cenário, ampliando as opções disponíveis e abrindo caminho para um manejo mais sustentável.
Mas a base continua sendo a mesma: conhecer o solo, identificar o problema antes que ele se agrave e tomar decisões baseadas em diagnóstico, não em suposição.
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