Aserá é uma figura mencionada na Bíblia associada à idolatria praticada por alguns povos vizinhos de Israel na Antiguidade. Seu nome aparece em diversos textos do Antigo Testamento, geralmente relacionado ao culto de deuses estrangeiros e à adoração pagã em Canaã.
Na cultura semita, Aserá (também chamada de Asherah em hebraico) era considerada uma divindade feminina, cultuada como deusa da fertilidade, da maternidade e da natureza. Ela era vista por muitos povos como a companheira do deus El ou, em algumas tradições posteriores, como a esposa de Baal, o principal deus cananeu.
O nome de Aserá aparece tanto em referência à própria deusa quanto aos postes sagrados (asherim) que representavam sua figura e eram usados em rituais idolátricos. Esses postes eram erguidos em colinas, florestas e altares, marcando locais de culto proibidos pela lei mosaica.
O culto a Aserá em Canaã
O culto a Aserá era amplamente difundido entre os cananeus antes da chegada dos israelitas à Terra Prometida. As práticas incluíam oferendas, sacrifícios e rituais ligados à fertilidade, muitas vezes realizados em templos ou sob árvores consideradas sagradas.
A deusa era representada como uma figura materna e era vista como a protetora das colheitas e das famílias. Sua adoração, porém, foi condenada repetidamente pelos profetas e líderes de Israel, pois contrariava o primeiro mandamento — “Não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo 20:3).
Apesar das advertências, o povo de Israel, em vários momentos da história, acabou adotando práticas religiosas cananeias, incluindo o culto a Aserá. Essa influência foi especialmente forte nos períodos de apostasia, quando reis e comunidades se afastavam da adoração ao Deus de Israel.
Aserá e os reis de Israel
Os livros históricos do Antigo Testamento mostram que o culto a Aserá se espalhou por Israel e Judá durante o reinado de alguns monarcas que toleraram ou incentivaram a idolatria.
- O rei Acabe, por exemplo, é mencionado em 1 Reis 18:19 como um dos governantes que promoveu o culto a Baal e a Aserá, influenciado por sua esposa Jezabel, princesa fenícia devota dessas divindades.
- O rei Manassés, em 2 Reis 21:7, chegou a colocar uma imagem de Aserá dentro do templo de Jerusalém, o que foi considerado um ato de grave profanação.
Essas atitudes provocaram a ira dos profetas, especialmente Elias, Eliseu e Isaías, que denunciaram a idolatria como uma traição ao pacto de Israel com o Senhor. A luta contra os cultos de Baal e Aserá se tornou um símbolo da fidelidade à aliança com Deus.
A reforma religiosa e a destruição dos postes de Aserá
Ao longo da história bíblica, alguns reis se destacaram por promover reformas religiosas que buscavam restaurar o verdadeiro culto a Deus e eliminar os símbolos de idolatria.
- Ezequias (2 Reis 18:4) foi um dos primeiros a destruir os altares e os postes de Aserá, buscando purificar a adoração em Jerusalém.
- Josias (2 Reis 23:4–7) deu continuidade a essa reforma, removendo todos os objetos dedicados a Baal, Aserá e outros deuses, além de expulsar sacerdotes idólatras e derrubar os santuários pagãos.
Essas ações marcaram momentos importantes de retorno à fé monoteísta, mostrando que a presença de Aserá representava mais do que simples idolatria — era um símbolo da ruptura entre o povo e o Deus de Israel.
Aserá na arqueologia e nos estudos históricos
Além do relato bíblico, Aserá é citada em inscrições e artefatos arqueológicos encontrados em regiões como Ugarite, Samaria e Judá. Textos ugaríticos do século XIII a.C. descrevem Aserá como “a mãe dos deuses”, confirmando que sua adoração era comum entre os povos cananeus antes e durante o período israelita.
Algumas descobertas arqueológicas sugerem que, em certas comunidades antigas, Aserá chegou a ser sincretizada com o culto a Javé, o Deus de Israel, o que indicaria que parte do povo via nela uma espécie de consorte divina. No entanto, a teologia bíblica rejeitou completamente essa ideia, reforçando a exclusividade de Javé como o único Deus verdadeiro.
Essas evidências históricas ajudam a compreender por que os profetas e sacerdotes hebreus lutaram tão intensamente contra a influência do paganismo cananeu e do culto a Aserá.
O significado espiritual de Aserá na Bíblia
Do ponto de vista teológico, Aserá representa tudo o que se opõe à adoração pura e fiel ao Deus de Israel. Sua presença nas Escrituras é um lembrete das tentações que o povo enfrentou ao conviver com culturas vizinhas e da constante necessidade de permanecer fiel à aliança divina.
A destruição dos postes de Aserá, relatada diversas vezes, simboliza a purificação espiritual e o rompimento com práticas que desviavam o coração do povo. A idolatria era vista não apenas como um erro religioso, mas como uma infidelidade espiritual comparável à traição dentro de um casamento — uma das metáforas mais usadas pelos profetas.
Assim, a menção de Aserá na Bíblia tem valor pedagógico: alerta sobre os perigos da assimilação cultural e da substituição do verdadeiro Deus por crenças humanas.
Aserá e o papel das mulheres nos cultos antigos
O culto a Aserá também tem uma dimensão social importante. Como deusa da fertilidade, era comum que mulheres participassem ativamente de suas cerimônias, muitas vezes envolvendo oferendas relacionadas à maternidade e à agricultura.
Alguns estudiosos interpretam essa prática como uma tentativa das antigas sociedades de valorizar o feminino no contexto religioso. Contudo, dentro da visão bíblica, o culto a Aserá era proibido, pois desviava o foco da adoração a Deus e se misturava a rituais pagãos que incluíam práticas imorais, como prostituição cultual.
Isso explica por que o tema de Aserá é recorrente nas advertências dos profetas, que viam nesses cultos uma ameaça à integridade moral e espiritual de Israel.
Conclusão
A história de Aserá na Bíblia é um retrato da luta constante entre a fé monoteísta e as influências pagãs que cercavam o povo de Israel. Deusa cananeia da fertilidade e mãe dos deuses, ela simbolizava os valores e crenças das nações vizinhas — crenças que, em diversos momentos, tentaram se misturar à fé israelita.
Os líderes e profetas que combateram seu culto deixaram um legado de fidelidade à aliança com Deus e de rejeição à idolatria. A narrativa sobre Aserá ensina que a verdadeira adoração exige exclusividade, pureza e compromisso.
Assim, mais do que uma personagem histórica, Aserá representa o contraste entre o divino revelado nas Escrituras e as tentações espirituais que acompanham a humanidade desde os tempos antigos.
