Waldyr Janson – O mentor dos mestres da F.O.B. – U.S.P.

Waldyr Janson influenciou toda uma geração de cirurgiões-dentistas, destacando-se como professor zeloso e introdutor de inovadoras concepções na Odontologia brasileira.
Poucos contribuíram tanto para a Odontologia brasileira quanto Waldyr Antonio Janson. Carismático e excelente orador, ele cativou toda uma geração de protesistas, periodontistas e implantodontistas. Considerado um mestre, no sentido mais nobre da palavra, contribuiu decisivamente para a formação de muitos dos bons professores que hoje estão na ativa. Seus alunos sempre foram seus maiores admiradores.

“Meu pai era muito carismático, tranquilo e generoso no ensinar. Por isso os alunos gostavam dele”, lembra Guilherme Janson, o mais velho dos filhos que também seguiu a carreira do pai. “Era um homem que motivava e instigava os alunos, mostrando sempre a maneira mais simples de fazer os procedimentos, sem esconder ou sonegar informações. Era totalmente dedicado ao ensino prático”, acrescenta.

Marcos Janson, o quarto dos filhos e também cirurgião-dentista, lembra que a contribuição do pai para a Odontologia deve ser avaliada além do prisma de professor a de sua didática inigualável: “como clínico, era uma pessoa fantástica, buscando sempre a perfeição ao ouvir o paciente para resolver os seus anseios. Cordial e bem-humorado, era adorado pelos seus pacientes”, afirma.

Nascido em Espírito Santo do Pinhal, cidade do interior de São Paulo, Waldyr Janson mudou-se ainda criança para Bauru, município onde viveu até seu falecimento, no início deste ano, aos 82 anos.

Filho de um cirurgião-dentista, Emilio Janzon, um dos primeiros profissionais de Odontologia de Bauru, Waldyr ingressou naturalmente na profissão, estimulado pelo pai. Como na época não havia faculdade de Odontologia na cidade, Janson, acompanhado pelo amigo Paulo Amarante de Araújo, deslocou-se para a cidade mineira de Uberaba, onde cursaram a Faculdade de Odontologia do Triângulo Mineiro, hoje Uniube – Universidade de Uberaba, formando-se em 1953.

E foi naquela cidade que Waldyr e Paulo conheceram suas futuras esposas, as irmãs Deborah e Lúcia, com as quais casaram, respectivamente, logo após terem-se formado.Com Déborah, Janson teve cinco fi lhos: Guilherme, Reinaldo, Suzana, Marcos e Vinicius. (Foto do casal Waldir Janson e esposa Deborah).

Passagem por Boston

Em Bauru, Waldyr começou a trabalhar no consultório do pai, instalado em sua casa, atuando na clínica geral e, anos depois, em um consultório próprio no centro da cidade, especializando-se em Prótese e, em seguida, em Periodontia.

No início dos anos de 1960, Waldyr trabalhou para a instalação da Faculdade de Odontologia no campus da Universidade de São Paulo, em Bauru. Ao lado de Paulo Amarante e de outros cirurgiões-dentistas, foi integrante ativo da Comissão Bauruense para a criação da faculdade, cuja implantação aconteceu no ano de 1962, mesclando sua história com a história da instituição.

Na faculdade, ele começou como professor assistente do Departamento de Materiais Dentários; em 1965, tornou-se professor responsável da Disciplina Autônoma de Periodontia. A distinção possibilitou-lhe realizar o Programa de Pós-graduação “Master of Science in Periodontology”, pela Boston University, nos Estados Unidos.
Waldyr teve aulas na Boston University com o doutor Morton Amsterdam, que já tinha 25 anos de casuística na integração Prótese-Periodontia. Foram dois anos de intenso aprendizado, sendo sua tese selecionada para representar a Pós-graduação da Boston University na avaliação do Prêmio Balint Orban, que congrega todos os cursos de Pós-graduação dos Estados Unidos. “A tese conquistou o segundo lugar”, orgulha-se Guilherme que, junto com a mãe e os irmãos Reinaldo, Suzana e Marcos (o caçula Vinicius nasceria depois), moravam em Boston nessa época.

No auge da carreira, entre os colegas José Mondelli, Waldyr e Ernesto Pilotto.De volta ao Brasil, Janson assumiu o Departamento de Prótese da Faculdade de Odontologia da FOB/USP, que também agregou a disciplina de Periodontia, exercendo a chefia de 1969 até 1988, quando se aposentou. Nesse período, influenciou decisivamente o ensino das duas disciplinas, não só na FOB como também em outras universidades. “Como periodontista e um dos pioneiros na reabilitação oral, o doutor Waldyr foi meu professor. Quando fiz a minha graduação na FOB, em 1970, eu já tinha aulas de integração, conceitos de aumento de coroa clínica e distâncias biológicas”, diz Paulo Martins Ferreira, especialista em Periodontia e doutor em Prótese Dentária.
Paulo Martins lembra que, na época, a pesquisa era relativamente nova na Faculdade de Bauru. “Trabalhávamos muito com oclusão e dor, e ajuste oclusal. Janson fez uma transição, agregando o conhecimento biológico à fase mecanicista. Os articuladores foram dissecados, os conceitos em relação cêntrica e dimensão vertical, e a Periodontia vieram nesse compasso pouco tempo depois”, destaca.

“A conduta básica era fazer os preparos, colocar as coroas provisórias e esperar a cicatrização dos tecidos moles. Nós aproveitávamos todas as raízes dentárias”, recorda Wellington Bonachela, doutor em Reabilitação Oral e professor associado – USP. “Entretanto, quando o doutor Waldyr retornou, a fi losofi a da prótese periodontal, de Amsterdam, foi efetivamente aplicada: os primeiros casos clínicos com encaixes, os cantiléveres para distal, os efeitos destas distribuições de forças no periodonto, o tratamento das lesões de furca e outras tantas modifi cações significativas”, descreve.
Pioneirismo

Totalmente dedicado ao trabalho, Janson participou também da criação dos cursos de pós-graduação, tendo introduzido, pioneiramente, os programas de pós-graduação em Prótese e Periodontia da FOB/USP. Ainda nos anos de 1980, Janson motivou e formou diversos professores em Prótese e Periodontia, contribuindo para o ensino da Odontologia em todo o País. Ele também foi o precursor dos cursos de atualizações em módulos que ministrava em seu consultório, módulos de oclusão, preparos e também de intervenções periodontais. “Era um profi ssional realmente muito habilidoso com o bisturi, um grande cirurgião e um grande líder”, avalia Bonachela.

Segundo Paulo Martins, o professor Waldyr era movido pela curiosidade: “lembro que muitas vezes ele fazia reuniões rápidas para implantar ou mudar o direcionamento na clínica, por exemplo, sobre o uso dos casquetes, materiais de moldagem, moldeiras. Obviamente, ele gostava de quem gostava de trabalhar, quem o acompanhava no pensamento, quem colaborava, quem discutia os conceitos. Os nossos seminários eram feitos assim. Integrar filosofias e fazer a correspondência entre os diversos aspectos biológicos em Periodontia e Prótese era uma marca registrada do professor”, afirma.
Euloir Passanezi, professor doutor da FOB/USP e que trabalhou durante muitos anos ao lado de Waldyr Janson, afirma que o colega instituiu inúmeras e profundas modificações na ciência da Odontologia, destacando a inter-relação da Periodontia com todas as especialidades clínicas e básicas da Odontologia, dentro de concepções que permitiram ampliar os conhecimentos do comportamento dos tecidos periodontais mediante a aplicação de reconstruções terapêuticas e protéticas, oclusão, lesão endoperio, Ortodontia, medicina periodontal, patologia, fisiologia, anatomia e outras tantas mais.

“Ele tinha uma capacidade de assimilação e divulgação muito forte dos conhecimentos que, aliados à sua dinâmica didática, despreendimento e simplicidade em suas injunções profissionais, permitiram que a USP lhe outorgasse um dos títulos mais cobiçados e difíceis de serem alcançados: Professor de Notório Saber em Odontologia. A sua contribuição para o ensino, pesquisa e capacitação clínica em Prótese, Periodontia, Oclusão e Implante é inigualável, tornando-o ícone da Odontologia brasileira e internacional”, assegura Passanezi.

A aposentadoria chegou em 1988, mas Janson permaneceu trabalhando no consultório até 2009. Ainda assim, continuou ministrando, a convites, aulas em Cursos de Especialização e Aperfeiçoamento.
Influência

Waldyr Janson viveu em uma família de cirurgiões-dentistas. Além do pai, Emílio Janzon, e da irmã, Hilda Janson, quatro dos cinco filhos que teve com Déborah são profissionais da Odontologia: Guilherme e Marcos são especialistas em Ortodontia, e Reinaldo e Vinicius se especializaram na área de Prótese. Já a filha Suzana escolheu outra profissão, mas também dentro da área da Saúde: Nutrição.

“Quando um filho observa em seu pai tanto entusiasmo e alegria no exercício da profissão, é natural que ele se sinta propenso a seguir o mesmo caminho”, explica Marcos. “A influência foi forte porque, além do meu pai e da família de cirurgiões-dentistas, temos a Faculdade de Odontologia da USP, fatores estes que colaboraram para a nossa escolha”, confirma Guilherme.

Embora vivesse a Odontologia em boa parte do seu tempo, Waldyr Janson gostava de praticar tênis em suas horas de lazer, atividade que manteve até 2007, quando foi diagnosticado com DPOC – doença pulmonar obstrutiva crônica. “Pela dificuldade em correr, passou a só fazer caminhadas e, às vezes, ia ao estádio da cidade, assistir aos jogos de futebol. Era palmeirense, mas não fanático”, lembra Guilherme.

Socialmente, participava do Lions Club da cidade, onde chegou a ser presidente da entidade. Mas, em virtude dos deveres para com o consultório e a faculdade, contava com o auxílio da esposa para conduzir as atividades inerentes ao mandato no clube.

Na vida familiar, Waldyr era bastante tranquilo e sempre procurava participar da vida dos filhos. “Meu pai era muito amoroso e 100% bem-humorado. Não era totalmente presente, mas quando estava perto preenchia todas as lacunas. Posso dizer que tive a experiência de ter um pai na sua plenitude. Uma pessoa que gostava de paz e tranquilidade, avesso a intrigas de qualquer ordem”, declara Marcos. E acrescenta: “qualquer pessoa que conheceu meu pai sempre dirá o mesmo, e minhas lembranças podem ser descritas por palavras: amor, bom humor, dedicação e um ótimo dançarino.

Profissionalmente, tenho minhas lembranças de quando comecei a ministrar aulas e ia à noite na casa dele, quando repassava toda a minha aula e ele ia me dizendo o que era importante falar em cada tópico que eu iria apresentar. Isso não tem preço e está muito presente em minha vida”.

Em 2008, Déborah, sua grande companheira começou a apresentar sintomas de uma doença que a faria perder a função motora: paralisia supranuclear progressiva. Janson procurava auxiliar a esposa, mas no mesmo ano fraturou o cotovelo e, em 2010, o fêmur. Ainda assim prosseguia bem, tanto que em 2011 foi patrono do IN 2011 – Latin American Osseointegration Congress, ocasião em que recebeu todas as homenagens, esbanjou carisma e foi reverenciado. Pelos corredores do congresso, sempre era visto rodeado por uma pequena multidão de amigos, ex-alunos e admiradores. Foi a cena que muitos guardaram como memória de Waldyr Janson.

Depois de sofrer um acidente doméstico e passar um período internado, o mestre se despediu em fevereiro de 2014, deixando mulher, filhos, netos e uma verdadeira legião de discípulos saudosos.
Reportagem: Cecilia Felippe Nery com ilustração de Lézio Custódio Júnior, publicada no link http://www.inpn.com.br/ProteseNews/Materia/Index/111787

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