Um fato escondido na história de Piratininga e Bauru

Olhando para a foto da casa (em destaque), hoje em completo abandono, claro que nos remetemos à sede da Fazenda Veado, hoje Fazenda São Pedro e à época de propriedade do Sr. Elias Miguel Maluf. Muitos irão olhar com saudade, porque na varanda que vemos, ocorriam saudáveis saraus e com artistas de Piratininga se misturando a outros, vindos de Santos (os Haddads – sobrinhos diretos de Dona Jamille Haddad Maluf) e de Capivari, os Malufs.
 
Isso de finais da década de 60 do século passado até 1.973, lembro-me bem. De Piratininga os melhores “seresteiros”, com destaque a Murilo Cocito, Osnir e Jair Campos, com presença constante de Thadeu Toledo Soares, Osni Machado Neves e mais alguns. Uma sólida amizade marcou e marca por conta também da música, que foi determinante para estabelecer elo entre as sobrinhas do “Seu Elias” e as assíduas, como Dalva e Hebe Machado Neves, Vera Dotto, Sônia Soares e todo aquele time unido que se reunia com freqüência para cantar.
Mas um fato até aqui escondido na história de Piratininga, tem como cenário a mesma casa, a mesma fazenda, aquele velho alambique e aquele eucalipto que fazia sombra na estrada de acesso.
 
A princípio poderão entender como um fato negativo e ocupando espaço tão significativo para muitos, por conta da alegria ali vivida e pelos momentos que podemos nos remeter ao “rei” Roberto Carlos: “velhos tempos, belos dias”. Mas, ao final, poderão concluir que nossa Piratininga ficou marcada na história política do País como a cidade palco de um fato de extrema importância, conforme passo a narrar e infelizmente na primeira pessoa (perdoem a falta de ética).
 
Por acaso, naqueles anos de chumbo, em tempos hoje chamados de “ditadura” era delegado da polícia federal em Bauru, o conterrâneo Amir Neves Ferreira da Silva, o Dr. Amir, com vários de nossa cidade a fazer parte de seu quadro de investigadores (prefiro omitir os nomes).
 
Quis o destino político brasileiro que outros dois de Piratininga viessem a fazer parte de fato tão marcante e determinante para o fim daquele movimento então chamado de “terrorismo”. A referência vai em direção de Amir Farha e esse que vos escreve, pois eramos presidentes de dois importantes diretórios acadêmicos das faculdades de Economia e Administração (Amir) e de Direito (o autor), ambos da Instituição Toledo de Ensino.
 
O movimento revolucionário já havia passado por todas as fases, com registro de muitas mortes, inúmeras prisões, tortura de todos os tipos de resultados negativos e sem que algo determinante ocorresse para que, em especial os jovens, desistissem da causa, que até ali ceifara muitas vidas e colocava nosso País em absoluto estado de perigo e desestabilização.
 
Os “reacionários” mais antigos decidiram rumar para o Chile, a exemplo de Fernando Henrique Cardoso, José Serra e outros, enquanto Márcio Toledo, filho do reitor da I.T.E., ao regressar de Cuba, onde fizera treinamento de guerrilha, estava a propor a mesma decisão e por aí findar com o movimento que criava corpo de grande dimensão. Sua proposta foi tão mal recebida por parte dos revolucionários que os próprios companheiros acabaram com sua vida, pois queriam a todo custo lutar por um Brasil diferente daquele, então sob comando dos militares.
 
O melhor caminho encontrado se deu pelo chamado “arrependimento” de alguns dos revolucionários que, quando presos, “negociaram” suas liberdades, em troca de uma declaração pública de que era chegado o momento de se colocar um fim naquilo tudo. Depois de todos os acertos, a entrevista coletiva foi dada por três do movimento: Marcos Vinício Fernandes dos Santos, Rômulo Fontes e Massafumi Yoshinaga, levada ao ar pela então poderosa emissora de televisão Tupi, com reprodução em telejornais do Brasil todo.
Isso no dia 1º de agosto de 1970, chegando ao mundo com o título “Terroristas do Brasil ouvi-me”.
 
A cópia em VHS do programa, cujo título atribuído é “Três subversivos arrependidos”, foi encontrada no acervo da Presidência da República, e hoje compõe o acervo do Arquivo Nacional, com sede no Rio de Janeiro.
 
Mas a entrevista, embora levada ao ar por emissoras de todo o País e com manchetes nos principais jornais, ainda não fora suficiente para que o público alvo (os ainda no movimento) se aquietasse e abandonasse a luta armada. Era preciso um contato direto com estudantes e foi quando os três de Piratininga, não por acaso, foram convocados a promover um “encontro” dos três com estudantes da I.T.E., imprensa e população em geral.
 
A convite e por insistência do Dr. Amir, houve a concordância e tal evento veio a acontecer no auditório da faculdade. De tanta gente interessada, por duas sessões, com jornalistas de importantes veículos de comunicação a dar divulgação.
Muitas idas ao DOPS, muitas orientações e muita cautela, pois dois jovens, embora bem orientados, tinham ali a missão de bem conduzir um momento que pode ser considerado histórico, pois ocorrera de forma tão natural e organizada, que aí sim os efeitos foram produzidos e aquele movimento chegando ao seu final tão desejado.
 
Durante uma semana os “três arrependidos” ficaram hospedados na sede da Fazenda Veado (foto em destaque) e contando com presença dos dois jovens estudantes e é claro, sob vigilância de muitos policiais.
 
O assunto foi por diversas vezes comentado junto a Amir Farha, que definiu-o assim: “foi o que de mais significativo fiz em minha vida. O ato mais importante sob a ótica patriótica que pratiquei”.
Querendo ouvir o “outro lado”, indo a amigos de hoje que lutaram luta armada, ouvi de um deles que, durante tal evento, no Bar do Cunha, ao lado da faculdade, estava o ator e autor de peças teatrais, Plínio Marcos a “beber todas”, dizendo aos companheiros: agora chegamos ao fim.
 
Antonio Pedro Júnior, autor de diversos livros que até ajudam os reacionários em suas aposentadorias, quase sempre conta o outro lado, informando que as estradas de acesso a Bauru estavam que estavam com exército e toda forças armadas a dar proteção e prevenir reações.
 
O fato começa dando ênfase a Piratininga (irei publicar no grupo de lá), mas foi um marcante na história do brasil, especialmente porque, a partir de então, jovens deixaram de morrer e confronto chegou ao final, para prazer e satisfação de uns e o contrário para outros, mas aí é questão de ponto de vista, de visão política.

(*) Renato Cardoso, o autor, é jornalista.

* Mais pelo Vivendo Bauru.