O começo romântico da TV Bauru Canal 2

Existe um momento histórico em nossas vidas e que é marcante para a Bela Vista: a inauguração da Rede de Televisão de Bauru, a TV Bauru, Canal 2. Houve uma intensa propaganda municipal sobre essa efeméride fantástica, o primeiro canal de televisão do Interior do Estado de São Paulo.
joaosimonettiAntigamente falava-se ‘interlã paulista’ e ainda ouço a voz do Silvio Carlos a emitir, em meus ouvidos, esse som da propaganda da TV 2, na Bauru Rádio Clube. Essa propaganda estendeu-se a todo o comércio bauruense, pois havia a necessidade de se obter um número mínimo de telespectadores e de televisores, é lógico, exigência da famosa Rebratel.

Viam-se estampados nas vitrines de inúmeras lojas – eu tenho recordação de uma dessas, a Tipografia Brasil – os diversos modelos de televisão para serem vendidos aos futuros telespectadores. Aquelas televisões que a gente precisava dar umas vassouradas no cocuruto delas para que funcionassem.

E José dos Santos, pai do Zezo, adquiriu uma dessas. ZeCaolho arrendara o Bar Santo Antônio, do senhor Rios, cujas atividades iam de um simples joguinho de bilhar, muitas vezes a dinheiro, onde se jogava a “vida”, a uma sorveteria, para amenizar o forte calor da Bela Vista. O bar ficava na esquina da rua Santo Antônio com a Carlos Marques. Foi um perereco para instalar a antena direcional para a Torre, não mais gêmea, da central da Bauru Canal 2, dentro do quadrante onde estava instalada a PRG8.

canal2antigaMas acertou-se tudo. Dava prá ver alguma coisa na tela, onde os chuviscos, riscos horizontais, fantasmas, colibris e beija-flores povoavam a pintura de vidro, emoldurada por um marfim amarelado, que apresentava, na sua parte lateral, uma quantidade enorme de botões, que quanto mais se mexia neles, menos imagem aparecia e que, muitas vezes, a tela, se aquecendo em demasia, explodia, para perigo das donas de casa, que já começavam a substituir as rezas e novenas diárias pelos programas de televisão. Mas vamos a esse momento histórico de minha memória.

Tais acontecimentos remontam o ano de 1.960, antes da inauguração oficial do Canal 2, que seria no dia primeiro de agosto e, ainda, era dia 05 de junho de 1.960, uma tarde de domingo. E a TV Bauru, Canal 2, transmitiu “ao vivo”, mas “não em cores”, o verdíssimo do gramado e o jogo colorido do alvirrubro Noroeste de Bauru, versus o alviverde Palmeiras da capital, na inauguração do novo estádio de futebol, em Bauru, na Vila Pacífico. “Assim, das cinzas, melancólicas e inquietadoras, do antigo ‘Alfredo de Castilho’, surgiu o colosso de concreto armado ‘Ubaldo Medeiros’…” (Gazeta Esportiva).

Foi uma festa sem igual, ali, na casa do meu amigo Zerroberto. Todos os amigos estavam em uma saletinha de dois por dois (dois metros de largura por dois de comprimento), totalizando, afirmativamente, umas 47 pessoas, dentre as quais as da fotografia do apêndice deste livro.

Ademarzinho Aldemar, Nelsinho Saes, Osmério ‘Carijó’, Paulo ‘Cabeça’ Borro, José Navarro, Paulo Navarro, ‘Julinho’, Joel de Araújo ‘Evans’, Edson ‘Coreia’ Zadra, Remagno Mariano, João e Pedro Siniciato e uma série infindável de gente que frequentava o Bar Santo Antônio. Não houve lugar nem para o Zezo e nem para mim, ficando nós dois e mais uns 17, dentre os quais Janey, Paxá, Salgado, Fabron, Lobo e Fernando Branco, na escadinha de acesso, pela rua Carlos Marques, àquela saletinha dois por dois, ali, na esquina, por onde dobrava uma das musas do São José, nessa época, já no Ernesto.

Havia gente também em cima das mesas de bilhar, mais de 27, como Nivaldo, Vinicius, Pila, João Fumaça, Bacana e Pardal, pois essas davam para uma antessala, por uma passagem que tinha como divisória uma cortina de pano, surrada, dos tempos do senhor Luís. A antessala também estava lotadíssima, apinhada de gente, umas 37 pessoas, entre eles Garça, Kutcharone, Sebinho, Vancine, Guaru e Mauro Pauluci.

A Eletrola de Zezo, instalada numa cômoda da antessala, estava com um disco do cantor Francisco Carlos, que o Joel Evans havia me dado após ter sido sorteado, ganho num sorteio de quermesse, daqueles anunciados nos alto-falantes instalados lá no Salão paroquial, onde Joel era o sonoplasta principal e eu, seu auxiliar de “pegar discos”.
565656565Nesse dia, 05 de junho, mês em que as festividades da Paróquia já estavam em andamento, a eletrola foi totalmente destruída, como se uma bomba V2 dos alemães tivesse sido lançada a ela ou uma horda de alemães invadisse a antessala, como invadiram a Polônia. Entretanto, o disco perene permaneceu por muito tempo ainda no meu guarda-roupas famoso, até que, com o passar dos anos, deixou de ser perene. Francisco Carlos era um cantor de São Paulo, que gravava como os outros, mas como ele era fraquinho de voz, teve vida curta como cantante e apenas as emotivas sirigaitas de auditório gostavam dele. Ele, como o disco, também desapareceu.

676767676Se considerarmos que a televisão media um metro por um metro, e que o sofazinho, do tamanho da saleta, era daqueles tecidos puídos, feito com pano estampado, vendido nas bancas de retalhos das Casas Pernambucanas, teremos aqui demonstrado uma lei indemonstrável da física, de que não seria possível dois corpos ocuparem o mesmo lugar no espaço.

Na saletinha havia sete corpos de gente para cada espaço de lugar. Joel Evans, amicíssimo de Zezo e de ZeCaolho, não perdeu por esperar, dormiu no sofá tracejado, na noite anterior e não arredou pé do seu estático lugar, durante o dia todo, até a hora do grande jogo. ZeCaolho e seu pai, ‘seu’ Aristides, não conseguiram transpor a antessala e permaneceram na cozinha de fogão à lenha, ele acendendo um Fulgor e Aristides, um famoso cigarrinho de palha.

Estavam felizes, aliás, nós todos estávamos. Joel Evans foi o encarregado de dar vassouradas na TV, quando esta saía do ar, nos gols do Palmeiras. Não saberia precisar o resultado desse jogo, talvez tenha sido 3 a 2, com vitória para o Noroeste, mas a vitória mesmo foi de João Simonetti, o Pioneiro, um homem à frente de seu tempo. Também pudera, italiano da Calábria, nascera falsificado, em Dois Córregos, como eu. Velhos e magníficos tempos imemoriais da Bela Vista.

Cito, a seguir, um trechinho de uma carta que Zezo me enviou, logo após se formar no ginásio, já estando em São Paulo:
tvbaurucanal2As francas realizações transformam as pequenas ações nas mais nobres, desde que matem uma nostalgia ou acalentem o debate de uma saudade”.

Diz ele que era sem autor, mas achei que era sua nostalgia na cidade grande e saudade da nossa Bela Vista;
“Em São Paulo, achei tudo (ele só tinha 17 anos) de dinheiro a mulheres, mas só não consegui encontrar o que de mais interessante na vida: ela mesma.

Aqui não existe amizade, amor, sinto-me pertíssimo do mundo (os homens) mas longe ao extremo da vida (as almas). Longe daí, torno-me um filósofo nostálgico. Mas o termo da distância há de alinhar-se à recompensa final, há de haver a doçura da vida no fim desta caminhada”.
Diz que continua escrevendo e fazendo poesias : já nem ocupo-me com o amor poético, mas com a sociedade nihilmente pobre”,

Continuando mais à frente:

“Os pássaros estão voando, mas a saudade está tão perto que nem a beleza dos gestos distantes consegue abater a afinidade da equidistante nostalgia à desambientação. Prefiro as pulgas do Cine São Paulo, aos tapetes do Windsor; prefiro ir lanchar nas toalhas sujas do Francano (e ficar duro) a ter dinheiro pra lanchar na Salada Paulista; prefiro sentar na esquina do bar do Pio, num belo domingo, a que passá-lo em ElDorado, Santo Amaro ou mesmo Santos. Definitivamente, não gosto de São Paulo.

Lembranças a meu avô, à toda turma (Roberto Guarantan, Pios, Oacir) and demais. Dêmá… guardarei a sua missiva como uma lembrança que tenho desta vida; guarde a estima da estima que lhe devoto.
José Roberto”

“Os amigos ficaram tão longe,
Que o tudo que me faz a vida
É nada, perto da querida
Existência, que ficou tão longe.

Tchau Dêmá… que já passam dois minutos da eternidade!”

(*) Artigo escrito por Mariano de Mariano.

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