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Tio Gastão
Como o dentista que vendia cães para ajudar pacientes montou e mantém o maior hospital universitário público especializado em anomalias congênitas da América Latina.
Batismo
O tratamento “tio” a Gastão foi dado pelas crianças.
“Tudo o que pode ser amado, ele ama”. O “ele” em questão é o superintendente do hospital Centrinho da USP (Universidade de São Paulo) de Bauru, professor José Alberto de Souza Freitas (“Tio Gastão”), 68 anos.
O autor da sentimental definição é um amigo de quarenta anos: também docente uspiano Luís Casati Alvarez. Ele conta que, em 1965, quando assumiu a cadeira de radiologia da FOB (Faculdade de Odontologia de Bauru) – campus local da USP –, sentiu necessidade de compor um grupo de auxiliares e, imediatamente, lembrou-se do colega novato. “Gastão havia se destacado como aluno de radiologia e convidei-o para trabalhar comigo”.
Casati lembra que cerca de um ano depois, o jovem Souza Freitas ganhou um Fusca zero quilômetro num concurso chamado “talão da fortuna”. Mas ele esclarece: “Quem ganhou o carro pelo carnê do Silvio Santos foi minha sogra, que decidiu me presentear”.
O episódio, que poderia não passar de um golpe de sorte isolado, serviu para reforçar a fama de predestinado que Souza Freitas já mantinha entre amigos desde os tempos de Lindóia, sua terra natal. O fato foi, portanto, decisivo para consolidar o apelido que o acompanha até hoje, inclusive na assinatura de documentos: “Gastão” – uma alusão ao bem-aventurado personagem de Walt Disney, primo do Pato Donald, que sempre tem sorte em tudo o que faz.
A sorte de “Tio Gastão” (o tratamento “tio” seria dado ainda nos anos 60 pelas primeiras crianças pacientes do Centrinho) estava mesmo para mudar – e isso foi lá atrás, em 1967. “Fazer algo” O emblemático ano foi repleto de surpresas em praticamente todos os segmentos da sociedade ocidental.
Foi, aliás, em 1967 que o então senador norte-americano Robert Kennedy defendeu, publicamente, pela primeira vez, a obrigatoriedade de advertência em toda publicidade de cigarros. “Fumar é perigoso para a saúde e pode causar a morte por câncer e outras doenças”.
No mesmo ano, a I Conferência Mundial sobre Fumo e Saúde, realizada em Washington, justificou a necessidade do alerta – só recentemente adotado no Brasil. Foi também em 67 que, na Faculdade de Farmácia de Bioquímica da Universidade de São Paulo – hoje Faculdade de Ciências Farmacêuticas – surgiu a primeira ideia de se criar uma entidade capaz de produzir remédios para a população carente. Era, na prática, o primeiro passo para a criação da Furp (Fundação para o Remédio Popular) – reativada há pouco tempo e em plena atividade até hoje.
Ao mesmo tempo em que o governo estadual colocava nas ruas o primeiro grande programa intensivo de erradicação da varíola, o paulista de Lindóia com apelido de personagem infantil estava prestes a participar de um projeto que beneficiaria milhares de crianças do Brasil e do exterior. É impossível, portanto, dissociar o professor José Alberto de Souza Freitas do centro interdepartamental da FOB-USP – “embrião” do Centrinho – que ajudou a fundar em 24 de junho de 1967 para estudar a incidência de fissuras (fendas) congênitas de lábio e palato.
Não por acaso o ex-reitor da USP e ex-secretário estadual de Ciência e Tecnologia, José Goldenberg, diz: “Tio Gastão” é um ‘visionário’ que “sempre ousou sonhar sem deixar de realizar”. Na avaliação do também ex-reitor da USP, jurista Miguel Reale, “Tio Gastão” é um “cidadão que sabe imaginar e empreender”.
Bonito, só hoje
O desejo de “fazer algo” por fissurados ganhou impulso real ainda nos anos 60, num trabalho conjunto com o cirurgião Ricardo Baruti durante cinco dias nos hospitais Vera Cruz e Santa Casa de Campinas. “Fiquei impressionado com a felicidade de uma mãe que teve o filho fissurado operado, mas o doutor Baruti abriu meus olhos ao dizer: ‘Gastão, o que está bonito hoje não o será no amanhã’”.
O que o especialista queria dizer é que sem um acompanhamento odontológico, fonético e estético no período pós-cirúrgico, o paciente chegaria à idade escolar com estreitamento da maxila e com o terço médio da face achatado, além de apresentar a fala nasalizada.
Baruti então fez um pedido: “Abrace essa causa para evitar que tenhamos milhares de brasileiros seqüelados por causa de um tratamento incompleto”. De volta a Bauru, “Gastão” e seis professores da FOB-USP criaram o centro interdepartamental da FOB em 1967. O resto é história – e de sucesso.
Melhor amigo do paciente
Logo que o Centrinho começou a prestar seus serviços de reabilitação, “Gastão” – recém- casado – passou abrigar pacientes na própria casa. Para custear parte dos medicamentos, criava e vendia cães da raça dálmatas. “Desde aquela época eu sabia que teríamos muitas barreiras para transpor, mas nunca duvidei da determinação do meu marido e sempre procurei apoiá-lo”, conta a esposa, Sueli Zambonatto Freitas, também cirurgiã-dentista.
Aos poucos, “Tio Gastão” foi se especializando também em sensibilizar as autoridades para a importância de se investir no Centrinho da USP.
Nos anos 90, emocionou o então ministro da Saúde, José Serra, ao lhe apresentar uma idosa que havia sido beneficiada com a instalação de aparelhos auditivos (também especialidade do Centrinho).
Até então, o procedimento não constava da tabela do SUS (Sistema Único de Saúde). A mulher chorou ao relatar como voltou a ouvir. “O que é essa emoção toda, Gastão?”, quis saber Serra. “Isso se chama agradecimento”.
Pouco tempo depois, idosos de todo o Brasil passaram a receber aparelhos auditivos pelo SUS – programa apenas adotado em sete países, inclusive Brasil.
Conga igual à Nike
“Tio Gastão” também teve o reconhecimento de seu trabalho à frente do Centrinho-USP prestado pela comunidade científica internacional. Em 2001, recebeu, em Gotemburgo, Suécia, um certificado e uma escultura (“homem longilíneo” – aquele que “vê além”) da Organização Mundial da Saúde (OMS). A premiação – uma das vinte de sua carreira – foi concedida durante o 9.o Congresso Internacional de Fissuras Palatais e Anomalias Craniofaciais.
Doutor em diagnóstico bucal com especialização em radiologia e administração hospitalar, tornou-se membro-fundador e diretor científico da APCD (Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas), consultor e assessor da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo), prefeito do campus da USP de Bauru e coordenador da comissão para implantação do curso de fonoaudiologia no mesmo campus. Orientou dezenas de projetos de graduação, dissertações de mestrado e teses de doutorado, além de coordenar encontros nacionais e internacionais nas áreas de odontologia, fonoaudiologia, fissura labiopalatal e audiologia. Sua maior realização, contudo, é ver o hospital funcionando – e bem. O envolvimento é tão intenso que, nos finais de semana, “Tio Gastão” aproveita para lanchar, no próprio Centrinho, com cozinheiras e mães que estão sempre ao lado dos seus filhos nos períodos pré e pós-operatório. “Aqui todo mundo é igual porque qualquer pessoa deve exercer sua cidadania com plenitude”, frisa “Tio Gastão”. “A sorte é nossa em conhecê-lo”, rebate a mãe de paciente Silvia Lara, de Carmo da Mata, interior de Minas. Ou como diz o filósofo e escritor Rubem Alves, pai de paciente: “No Centrinho, o Conga é rigorosamente igual à Nike”.
O que é o Centrinho
Hospital público que realiza mais de oito mil cirurgias por ano via SUS nas áreas de anomalias do crânio e da face. Já instalou mais de 50 mil aparelhos auditivos e beneficiou mais de 800 crianças com “ouvido biônico” (implante coclear). Quase 50 mil fissurados do Brasil fizeram ou ainda fazem tratamento no hospital universitário de Bauru. Ao todo, são quase 80 mil pacientes – 300 por dia.



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