Mais do que justificada a presença do “tio Paiva” -, no mural de personalidades de Bauru.

Um samaritano na verdadeira acepção do termo, que nasceu para servir, sem esperar recompensa alguma, a vida toda e de todas as formas, inspirado por Jesus.

Sebastião Paiva nasceu em Bebedouro-SP, em 8 de abril de 1909, filho de Andalecio Paiva e Rita Godoy Paiva. Ficou órfão aos seis anos de idade com outros seis irmãos, vivendo a infância na zona rural, onde passou por grandes privações.

Mudando-se para a cidade, trabalhou em farmácia, fábrica de macarrão e, em 1921, começou a praticar telégrafo na estação de Viradouro-SP, onde iniciou a carreira de ferroviário, na qual se aposentaria em Bauru.

De família católica, conheceu o Espiritismo em 1928, depois de ler o livro “Do Calvário ao Infinito”. Estudioso e compenetrado, desde a juventude se preocupou em minimizar o sofrimento de seu próximo e acabou por se transformar em um dos mais pródigos filantropos da cidade de Bauru, onde dirigiu um grande complexo assistencial, que envolveu, dentre outras atividades, hospital psiquiátrico, asilo, orfanato e casas para desabrigados.

A Folha Espírita, interessada em difundir a vida e a obra de seareiros que sirvam de inspiração ao trabalho edificante, visitou as obras assistenciais iniciadas e dirigidas por Sebastião Paiva, respeitado vulto do movimento espírita de Bauru-SP, que concedeu a entrevista abaixo, falando um pouco do trabalho admirável que o faz referência em nossa cidade. Tal entrevista data de 2.003, quando Seu Paiva tinha 91 anos.

ENTREVISTA
FE- Sr. Paiva, como foi sua infância e a vida profissional?
SP- “Minha infância foi muito difícil; enfrentei muitas privações, até fome e frio. Órfão aos seis anos,morei com meu avô, que era assediado por espíritos obsessores, que lhe provocavam crises obsessivas violentas, tendo muitas vezes de ser amarrado. Os familiares, que eram todos católicos e desconheciam o assunto, atribuíam à loucura aqueles fenômenos que lhe aconteciam. E eu, nos meus sete a oito anos, ia observando tudo aquilo, em meio à vida penosa da roça, onde não havia nenhuma das facilidades que temos nos dias de hoje. Com doze anos de idade, comecei a praticar telégrafo na estação da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, em Viradouro-SP. Passei nos exames da ferrovia e ali iniciei a minha carreira de ferroviário, na função de telegrafista, trabalhando durante o dia e fazendo o primário, que não cheguei a concluir regularmente, no período noturno. Depois de trinta anos de serviço na empresa, me aposentei, em Bauru, na função de Controlador de Tráfego. ”

FE- Como conheceu o Espiritismo?
SP- “Tornei-me espírita em 1928, quando me deram para ler o livro “Do Calvário ao Infinito”, de Vitor Hugo, psicografado pela médium Zilda Gama, cujo conteúdo achei de uma lógica fascinante que correspondeu plenamente às minhas mais íntimas expectativas. Com a Doutrina Espírita, vim a compreender de forma convincente o porquê das dores, dos sofrimentos e das desigualdades com os quais o ser humano convive em sua trajetória reencarnacionista e por ela enxerguei com mais clareza a necessidade que tinha de fazer alguma coisa pelos meus semelhantes.”

FE- De onde vem essa sua obstinação por socorrer ao próximo?
SP- “Ainda com meus quinze, dezesseis anos de idade, já ficava a observar as pessoas que passavam pelas privações e ia idealizando uma maneira de ajudá-las. Por força do meu trabalho, convivendo diariamente nas plataformas das estações com aquele quadro, vendo crianças e famílias inteiras relegadas ao completo abandono, sem pão e sem teto, resolvi tomar uma posição. Assim foi que, no ano de 1935, na cidade de Dois Córregos-SP, fundamos com outros companheiros a Sociedade Beneficente Espírita, um asilo para os pobres itinerantes que perambulavam pelas ruas da cidade.”

FE- Como começou o trabalho em Bauru?
SP- “No ano de 1942, vim para Bauru, uma cidade de entroncamento ferroviário que recebia gente de todas as partes do Brasil. Dava pena ver aquelas pessoas, que chegavam em plena madrugada, no trem noturno, e não tinham para onde ir. Na ocasião, comecei a fazer parte do Centro Espírita “Amor e Caridade”, procurando trabalhar no campo assistencial. A convite de Homero Escobar, também ajudava no Lar dos Desamparados, entidade que mantinha um asilo para idosos em fazenda situada entre Bauru e Agudos. Foi da vivência como Diretor de Assistência do C.E. “Amor e Caridade”, na companhia de Silvio de Mello, indo às vilas para fazer as necessárias sindicâncias e presenciando a miséria total em que viviam aquelas pessoas sem emprego e sem casa, que tive a idéia de construir um asilo e uma casa de criança. Tinha vontade de dar aos pequeninos órfãos tudo aquilo que não tive para mim, quando criança, porque lá onde eu morava não existia essa espécie de socorro. Então, eu procurei alguns Centros Espíritas e de cada um deles convidei um elemento para que organizássemos a Sociedade Espírita de Assistência Social. Infelizmente, após um ano e meio da formação daquela sociedade, verifiquei que não tínhamos feito nada; o grupo se mostrou muito heterogêneo; a turma parecia que não se interessava, não sentiam o problema da forma como eu enxergava todos os dias. ”

FE- E aí o senhor resolveu tomar a frente do projeto…
SP- “Quando se pretende fazer um empreendimento desses o melhor é escolher companheiros que se afinizem com a causa e não simplesmente formar um grupo com um elemento de cada Centro Espírita.
Quando constatamos o desentrosamento do grupo, eu fiz um Estatuto para dar início à Sociedade Beneficente Cristã, que se iniciou efetivamente no dia 1º de janeiro de 1946. Consegui um certo número de sócios nos Centros Espíritas e na Estrada de Ferro, fazendo eu mesmo as cobranças para arrecadação dos fundos. Comprei oito lotes de terra aqui no Bairro da Bela Vista, que, à época, estava começando. Com as contribuições que arrecadava ia pagando as prestações. Aos poucos, construí alguns quartos grandes e uma cozinha e ali colocava as mães com seus filhos. Depois de dois anos nessa atividade e sentindo que o número de assistidos estava aumentando, procurei um “sócio”. Busquei nos Centros Espíritas alguém que quisesse trabalhar. No ano de 1947, fui ao Banco do Brasil e conversei com o contador do banco – posteriormente, seria o gerente -, que era espírita, e se interessou em conhecer a instituição. Entusiasmado com a obra, aquele companheiro, Roberto Previdello, passou a nos ajudar de forma decidida, como ocorre até hoje, permanecendo ao nosso lado e prestando seu inestimável concurso. A obra foi crescendo, compramos o resto da quadra, depois mais duas quadras aqui nesta vila, que é próxima da cidade, depois uma chácara de dez alqueires para dar serviço ao pessoal e posteriormente uma fazenda de cento e quatro alqueires nas proximidades de Bauru.”

FE- E de onde vinham recursos para tantos empreendimentos?
“As coisas não foram fáceis, mas tivemos um momento oportuno. Tudo isso foi possível quando o governador Laudo Natel resolveu distribuir os doentes mentais pelo interior, e nós recebemos quinhentos pacientes no hospital psiquiátrico que construímos, hoje ocupando uma quadra inteira. Posteriormente, edificamos outro hospital na fazenda e para lá transferimos os doentes mentais do sexo masculino, permanecendo as mulheres na cidade. Em 1990, com a crise e a inflação galopante, o governo não nos repassava, no prazo, os pagamentos das diárias dos pacientes, então tivemos dificuldades e fomos obrigados a centralizar o atendimento aos quinhentos doentes de ambos os sexos, na cidade. Hoje, temos cerca de duzentos e sessenta pacientes crônicos internados; os demais, em número variável que atinge cerca de cento e sessenta, são atendidos em regime de hospital-dia, ou passam por curtos internamentos de dez a quinze dias para receberem tratamento médico. O hospital foi e é um meio importante para dar sustentação a outras atividades desenvolvidas pela instituição que não contam com subvenções públicas. ”

FE- Como é feito o atendimento às crianças?
SP- Essa atividade foi iniciada em 1950, e hoje estamos atendendo cento e sessenta crianças e jovens de ambos os sexos. Muitas ainda estão em idade de berçário. Aqui, elas recebem toda a assistência material e espiritual. Temos sala de lazer, dentista, psicóloga e assistente social. Vão à escola e têm a evangelização infantil espírita, que é ministrada aos sábados por evangelizadores da cidade. As crianças que recebemos são encaminhados pelo Poder Judiciário, que é quem direciona os processos de adoção. O internamento é rotativo, a criança fica por um determinado tempo até o juiz decidir o seu encaminhamento. O trabalho com a criança, que anteriormente era feito de forma comunitária, agora é individualizado: cada uma tem o seu próprio armário, guarda para si os presentes que recebe, etc. Quando a criança não tem pai ou mãe e já passa dos 8 a 9 anos, se não existir casais para esse tipo de adoção, ela acaba ficando sob nossa guarda como se fosse filha da casa, permanecendo aqui até os seus 18 anos, recebendo apoio e orientação. Presentemente, temos cinco meninas com 18 anos que vivem em uma residência da Sociedade, com uma pessoa da casa que lhes acompanham. Hoje, elas são nossas funcionárias; uma trabalha no escritório, outra no telefone, outra no hospital, outra trabalha com a assistente social, enfim, estão bem encaminhadas. Com relação à manutenção, recebemos auxílio para apenas quarenta internas, correndo as despesas com as demais crianças por conta exclusiva da casa. Graças a Deus, recebemos muitas doações de roupas, calçados e brinquedos, o que nos tem permitido levar avante essa tarefa. Tudo é muito controlado; agora guardamos as roupas de frio e soltamos as de calor; depois guarda-se a de calor e se utiliza as de frio…

FE- Quantas obras assistenciais o Sr. está dirigindo presentemente?
SP- “Além do hospital e do orfanato, temos um asilo para velhos e velhas. As velhinhas são atendidas aqui na cidade, onde temos capacidade para até cem abrigadas e os velhos, atualmente em número de 147, ficam na fazenda da instituição. Com as receitas que iam sobrando, começamos a construir casas para as famílias pobres que chegavam a Bauru. Quando as atendíamos, providenciávamos emprego para o homem na fazenda e colocávamos a mulher e crianças no asilo e na creche, até que se arrumasse uma casa com todos os apetrechos. Hoje, temos cento e vinte casas espalhadas pela cidade, a maioria construídas em madeira, para servirem de moradia aos pobres, que pagam um aluguel módico, quase simbólico, quando podem. Ao iniciarmos esse trabalho, raciocinamos em termos de que se o indivíduo tivesse um teto, a sua sobrevivência se tornaria mais fácil, porque um prato de comida, um pão, um agasalho, quase ninguém se nega a oferecer. Temos incentivado outras atividades assistenciais que a instituição ajuda e que são administradas por outros companheiros. É o caso de assistência aos aidéticos. Há cinco anos atrás, me chamaram à noite para ver um homem que estava deitado à nossa porta. Fui vê-lo e ele me disse: “Eu sou aidético, e ninguém quer me socorrer”. Fiquei pensando que se muitas vezes recolhemos um cão, porque não atender esses seres humanos em tamanho sofrimento? No outro dia, expliquei o caso para o amigo Previdello, fomos até a Vila Jaraguá, escolhemos uma casa de alvenaria, contactamos uma enfermeira do Posto de Saúde e propusemos-lhe fornecer a casa e o apoio que se fizesse necessário, desde que ela se incumbisse de assumir o trabalho de assistência aos aidéticos, o que ela prontamente aceitou e faz até hoje. Também em trabalho de parceria com outros companheiros, promovemos a distribuição de leite”.

FE- Que tipo de assistência espiritual os assistidos recebem?
SP – “A Instituição tem um Centro Espírita que abriga diversas atividades desenvolvidas por vários grupos. A evangelização infantil é ministrada aos sábados, no período da tarde. Às quintas-feiras, uma equipe do Centro Espírita “Nova Luz”, com aproximadamente vinte pessoas, aplicam passes individuais nos doentes. Temos um trabalho de desobsessão realizado a cada quinze dias. Na segunda-feira, temos trabalho pela manhã e à noite; na quinta-feira pela manhã; e, às terças-feiras, nos períodos da tarde e da noite”.

FE- No trabalho assistencial o senhor tem algum caso que lhe marcou?
SP – “Me lembro que, certa feita, encontrei uma mulher que vivia sob um viaduto, na companhia da filha, ainda muito criança, ambas pedindo ajuda aos transeuntes que passavam pela via pública. Fiquei penalizado com aquela cena, a criança exposta ao perigo, sem assistência, em ambiente completamente inadequado à sua educação. Por diversas vezes, consultamos a mãe da menina para que ela nos encaminhasse a menor para receber assistência material, escola e evangelização. A mãe relutou e disse que a menina lhe era indispensável na tarefa de levar as pessoas que passavam pela rua a se condoerem com a situação de ambas e oferecerem os seus óbolos. Como aquela mãe não acedesse ao nosso desejo de tirar a menina daquela vida, fizemos uma proposta: “Caso você nos permitir levá-la para o orfanato, dar-lhe-emos, também, a assistência ao longo do tempo. A mãe da menina aceitou a proposta e, com isso, conseguimos tirá-la da rua e pudemos dar-lhe assistência e salutar encaminhamento.”

103 anos de Sebastião Paiva

Dia 13 de abril deste ano (2.012), o jornal Bom Dia Bauru publicou a seguinte matéria:

Sebastião Paiva faz 103 anos e conta o segredo.

Ele afirma que o melhor é sempre perdoar e conta que gostaria de ter feito ainda mais

Por CRISTINA CAMARGO
cristina.camargo@bomdiabauru.com.br
Juliana Lobato/Agência BOM DIA

Fundador de várias entidades sociais diz que não esperava chegar tão longe
Quando chega ao trabalho, a cuidadora Maria José Araújo Rodrigues, a Zezé, 44, imediatamente sente que está em paz. A explicação é o homem de quem cuida, Sebastião Paiva, que acaba de completar 103 anos e, diariamente, tem lições para passar às pessoas com quem convive.

“Ele é sábio nas palavras. Fala para a gente não guardar rancor no coração. Esses dias disse que vive há tantos anos por saber perdoar”, conta Zezé.

O fundador da Sociedade Beneficente Cristã mora na casa que serve de escritório para a entidade. É cercado por paredes com fotos que resumem a sua trajetória de trabalho social.

Numa delas, dezenas de crianças aparecem sentadas em torno de uma mesa. Em outra, a imagem mostra a antiga fazenda que abrigava um hospital psiquiátrico para homens e um orfanato para meninos.

Paiva dedicou a vida a ajudar as pessoas que mais precisam: crianças órfãs ou abandonadas pelos pais, idosos sem família, doentes mentais e pessoas sem condições financeiras.

“Estou satisfeito. Mas queria fazer mais, as exigências eram maiores”, disse nesta sexta-feira à tarde.

Paiva é hoje uma figura simbólica à frente das entidades ainda mantidas pela Sociedade Beneficente: a Casa da Criança, com 30 abrigados de zero a sete anos, o abrigo com 160 idosos e a Fundação Sebastião Paiva, que ajuda 150 famílias cadastradas. A direção que ele mesmo montou ao longo dos anos cuida de tudo, mas sempre tem um tempinho para ouvir o criador de toda a rede.

Paiva completou 103 anos há uma semana e recebeu os pequenos da Casa da Criança para cortar um bolo. Hoje tem mais uma festa, promovida pelo grupo Voluntários em Ação.

Ele agora tem dificuldades para ouvir e a memória às vezes falha. A lucidez, no entanto, segue firme, com direito a frases espirituosas. Um exemplo foi a resposta dada à pergunta sobre as festas que comemoram seu aniversário.

“Tenho que aprovar, não é? Você não vai publicar isso no jornal?”, disse.

Na verdade, Paiva não gosta muito delas. Acredita que não trazem benefício nenhum para a humanidade.

Mas ele merece muitas comemorações. Até porque é um sobrevivente, pois enfrentou doenças na época em que trabalhava na ferrovia, como telegrafista, e vem de uma família sem recursos financeiros.

“Achei que não chegaria a essa idade. Tive vida sofrida”, afirmou.

Ele tem uma irmã de 99 anos e 20 sobrinhos. Fora os filhos, netos e bisnetos postiços, que ajudou a criar com seu trabalho social. No casarão, sempre recebe a visita de um deles.

“É um exemplo de vida para todo mundo”, diz a cuidadora Zezé, com lágrimas nos olhos.

Pacientes e abrigados criaram laços afetivos
O hospital psiquiátrico que funcionava no Jardim Bela Vista foi fechado há sete anos. A despedida dos pacientes foi dramática.

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É o número de entidades que ainda fazem parte da Sociedade Beneficente Cristã

Entidade na área rural não existe mais
A fazenda onde ficava o hospital psiquiátrico masculino e o orfanato para meninos foi vendida pela instituição para sediar um centro esportivo particular que ainda não saiu do papel.

Paiva gosta de visitar lugares do passado

Duas cuidadoras se revezam na casa de Sebastião Paiva, que mantém o hábito de ficar por dentro das notícias publicadas em jornais e gosta de assistir programas de TV que falam de política.

A conversa com diretores das entidades sociais e caminhadas nas redondezas também fazem parte da rotina.

Quem está sempre por perto é o sobrinho Laudemir Celso Bolonha, que cresceu ao lado de Paiva e desde pequeno recebe tarefas para ajudar no trabalho assistencial.

Segundo Laudemir, o homem centenário às vezes pede para passar por lugares que marcaram sua vida, como a estação ferroviária e a fazenda onde manteve parte de suas instituições.

“Ele é tudo, pai, exemplo de vida. Só nos ensinou coisas boas”, diz o sobrinho.

Às vezes, fala para os mais próximos que não sabe porque ainda está vivo. Acha que não tem mais utilidade.

Ninguém concorda, mas a hora da partida não é um tema tabu no casarão.

Laudemir afirma que a intenção é que as instituições continuem funcionando, como Paiva sempre quis.

Foto em desta que Juliana Lobato/Agência BOM DIA

Sebastião Paiva: “Sonho em contribuir para o desaparecimento da fome e do desemprego

Welington Balbo publicou o seguinte nem seu portal:

Sebastião Paiva: “Sonho em contribuir para o desaparecimento da fome e do desemprego”
O grande missionário da caridade pede que nos lembremos de que a existência física é efêmera e, por causa disso, procuremos levar uma vida comedida e regrada, sem apego demasiado à matéria e trabalhando sempre por nosso semelhante.

Sebastião Paiva, conhecido carinhosamente por todos como “Seo Paiva”, completa no próximo dia 8 de abril 100 anos de existência física. Espírita, praticou em sua vida, com extrema excelência, a máxima cunhada por Allan Kardec: “Fora da caridade não há salvação”, pois foi, e ainda é na cidade de Bauru e região um baluarte do auxílio ao próximo.

Nascido em família humilde e na zona rural de Bebedouro, ficou órfão de pai ainda criança. Filho mais velho, começou a ajudar a mãe na tiragem de água do poço e no transporte de roupas sujas e limpas. Aos 12 anos, já residindo com a família na cidade de Viladouro, conseguiu emprego na estrada de ferro São Paulo-Goiás como praticante de telégrafo. Em 1921 já trabalhava na Companhia Paulista de Estrada de Ferro, aposentando-se no ano de 1953. Desembarcou em Bauru em 1942 e passou a colaborar com o Centro Espírita Amor e Caridade, onde conheceu a dificuldade pelas quais passavam as famílias carentes. Em 1946 fundou a Sociedade Beneficente Cristã, hoje Fundação Espírita Sebastião Paiva que desenvolve largo trabalho em prol do semelhante. Em 1948 juntou-se ao “Seo Paiva” o Sr. Roberto Previdello, que se tornou seu grande amigo e colaborador. Em 1960 compraram 100 alqueires de terra da fazenda Val de Palmas e construíram uma casa para abrigar 120 meninos, um prédio para escola e praça de esportes, além de piscina.

A lista de benfeitorias à sociedade prestadas por Sebastião Paiva e Roberto Previdello é, como se vê, extensa, e para ser narrada com fidelidade seria preciso escrever um livro. As realizações tomaram proporções enormes e hoje são 89 funcionários e voluntários que se desdobram em desvelo para atender crianças e idosos que ainda vivem na instituição.

Foi para falar sobre sua história de vida que “Seo Paiva” nos recebeu gentilmente e concedeu esta entrevista comemorativa de seus 100 anos bem vividos de amor ao próximo.

O Consolador: Atualmente quantas pessoas são atendidas na Fundação Espírita Sebastião Paiva?

No momento temos 30 crianças e 160 idosos internos.

O Consolador: Nos quadros da Fundação Espírita Sebastião Paiva há muitos colaboradores?

Temos 89 funcionários e vários voluntários.

O Consolador: Podemos ter ideia do investimento que vocês fazem aqui nas crianças e idosos?

Em media investimos R$ 600,00 por mês em cada criança e R$ 800,00 nos adultos. Quando falamos em investimento queremos dizer das necessidades que crianças e idosos têm e que temos de suprir, como, por exemplo, roupas, alimentação, remédios etc.

O Consolador: Quando começou esse trabalho em favor do semelhante?

Começamos nossas atividades em 1º de janeiro de 1946, e desde então trabalhamos ininterruptamente.

O Consolador: Quais são as recordações do senhor dessa época?

Lembro que antigamente eu ia à padaria e sempre que via alguém necessitado recolhia e o encaminhava à nossa instituição. Havia muitas pessoas que chegavam de fora e necessitavam de emprego, não só das fazendas, mas pessoas que vinham do Norte do país. Então nós as ajudávamos a conseguir emprego. Era muita gente, crianças, jovens, adultos…

O Consolador: O senhor também fundou na cidade de Dois Córregos o Lar Tito e Paiva. É isso mesmo?

Sim, eu e meu companheiro Ângelo Rico – seu apelido é Tito – fundamos em 1936 a Sociedade Espírita de Assistência Social, cuja finalidade era distribuir alimentos às famílias necessitadas. Nos dias de hoje a entidade ainda funciona e tem o nome de Lar Tito e Paiva.

O Consolador: Nesses 100 anos de proveitosa existência física o senhor deve ter visto muitas coisas. Por isso, a pergunta é: Há algo ainda hoje que o deixa indignado?

Sim, a injustiça social.

O Consolador: O senhor é espírita?

Sim.

O Consolador: Como se deu seu contato com a doutrina codificada por Allan Kardec?

Ainda bem jovem, li um livro chamado “Do Calvário ao Infinito” (obra psicografada pela médium Zilda Gama, de autoria do Espírito de Victor Hugo). Achei a doutrina espírita lógica e, a partir de então, isso mudou minha mentalidade, pois encontrei nela – Doutrina Espírita – uma forma prática de prestar solidariedade às pessoas.

O Consolador: Na época em que começou seu trabalho o Espiritismo não tinha a aceitação social que tem nos dias de hoje. O senhor percebeu ou sentiu na pele algum tipo de preconceito por ser espírita?

Não, nunca.

O Consolador: E a sociedade bauruense, sempre respondeu bem à Sociedade Beneficente Cristã, hoje denominada Fundação Sebastião Paiva?

Sim, a sociedade bauruense sempre nos respondeu positivamente. Tive um grande amigo que muito colaborou com nossas obras: Roberto Previdello (desencarnado no ano de 2003) que muito nos auxiliava aqui. Realizamos muitas coisas juntos.

O Consolador: Vocês tiveram e têm grande amizade…

Sim, como já disse, trabalhamos muito tempo juntos.

O Consolador: Algum fato curioso envolvendo vocês?

Sim, vários, mas há um de que não me esqueço. Certa vez eu sentia muitas dores no peito e fui tomar passe. Foi então que uma entidade espiritual, por intermédio da médium, disse: “Você vai continuar na Terra, quem vem para a espiritualidade é o seu amigo”. E foi justamente isso que ocorreu, pois logo depois Roberto Previdello ficou doente e desencarnou.

O Consolador: Ficamos sabendo que muitas moças que cresceram aqui se casaram.

Sim, casamos 25 moças.

O Consolador: Elas retornam para visita?

Sim, sempre vêm nos visitar.

O Consolador: Acredito ser isso uma das grandes alegrias suas.

Sim, são grandes as alegrias, mas também o que me alegra é o fato de ser útil e poder contribuir com o semelhante.

O Consolador: O senhor tem algum sonho?

Sonho em contribuir para o desaparecimento da fome e do desemprego, o que nossa instituição já vem realizando há tantos anos. Sonho para que a política melhore a vida do povo. Há muito desperdício, e quando isso ocorre o povo sofre.

O Consolador: Sua mensagem final aos nossos leitores.

Desejo que se lembrem de que a existência física é efêmera, por isso procurem levar vida comedida e regrada, sem os apegos demasiados à matéria e, também, pensem no futuro e trabalhem pelo semelhante.

Entrevista publicada:-
http://www.oconsolador.com.br/ano2/101/entrevista.html