Luciano Dias Pires Filho nasceu em Bauru, em 1927. É um escritor, jornalista, memorialista e cartunista bauruense.

Ele é muito conhecido como o contador de histórias de Bauru.

Na verdade, ele conta história de quase toda existência de Bauru, mesmo de tempos antes de nascer e isto há 85 anos, completados hoje, dia 15 de maio de 2.012.

Luciano Dias Pires é memorialista, jornalista e relações públicas.

“Se precisasse, começaria tudo de novo, com a maior alegria”, disse Luciano Dias Pires, ao Jornal da Cidade, em data de aniversário de seus 85 anos.

Com muita disposição para a vida, mesmo aos 85 anos, o jornalista, relações públicas, contabilista e memorialista Luciano Dias Pires, continua no mesmo ritmo de trabalho e com dedicação plena ao suplemento do JC, Bauru Ilustrado.

A história, Luciano vive em seu dia-a-dia e é compartilhada com um grande número de pessoas que há 38 anos acompanham o suplemento Bauru Ilustrado, ao final de cada mês.

No JC de hoje foi publicado o que segue sobre Luciano Dias Pires:

“Apesar de tantas profissões e variadas atividades exercidas ao longo desses anos, ‘seo’ Luciano pode ser definido como um grande contador de histórias, sejam as que rememoram os grandes acontecimentos da cidade ou as que retratam a vida das pessoas. E ele faz questão de dizer que não são apenas aquelas com destaque nos meios sociais e políticos de Bauru. “Eu queria contar a história de gente mais simples, que ajudou a construir a cidade”, comenta.

O memorialista lembra, com emoção, de alguns dos personagens de suas histórias, como a vendedora de pamonha que trabalhava para frequentar a universidade. Ou o funcionário da farmácia, que visitava de bicicleta os doentes para aplicar injeções. Após sua história tornar-se conhecida, ela ganhou uma bicicleta nova como presente de uma empresa.

A mais emocionante, porém, foi o reencontro de uma professora com seus ex-alunos, anos depois de ela ter ido embora de Bauru após a morte de suas duas filhas por uma doença que devastou a cidade. “Ela foi para São Paulo, mas voltou para uma visita. Fizemos uma surpresa e reunimos quatro ex-alunos, já adultos. Foi muito comovente. Todos choraram, inclusive o fotógrafo do jornal e eu”, conta.

Um dos principais motivos de orgulho de Luciano Dias Pires era a seção do Bauru Ilustrado que trazia fotos e informações sobre as famílias que viviam em Bauru. “Ao longo dos anos, foram mais de 300 (fotos). Acredito que tenhamos o maior acervo do tipo no País”, ressalta o memorialista.

Em 1996, ele organizou o primeiro almoço que reunia as famílias que tinham suas histórias retratadas no suplemento. O encontro aconteceu por outros 10 anos e atraía pessoas que viveram na cidade, mas se espalharam pelo mundo.

Acervo

Ao longo dos anos, Luciano Dias Pires foi responsável pela formação de um enorme e rico acervo de objetos e documentos, sem contar as fotografias, que já somam 12 mil.

“Tenho todas separadas por categorias, guardadas em caixas identificadas. Não estão catalogadas individualmente, mas eu acho tudo o que quero lá”, brinca o memorialista.

Bauru Epopeia?

Foi em 1974 que Luciano Dias Pires decidiu dar início ao Bauru Ilustrado. O jornal, até então independente, teria, porém, outro nome. A ideia do jornalista era de que a publicação fosse chamada Bauru Epopeia. A mudança aconteceu após uma conversa com o então prefeito Edmundo Coube. “Ele me deu um toque e disse que o nome poderia levar as pessoas a entender certa dose de presunção”, conta.

A escolha do nome definitivo se deu, no entanto, por conta da proposta inicial de publicar grande quantidade de fotografias, tendência que permanece até hoje.

Mas não foi fácil colocar nas ruas os 5 mil exemplares iniciais, pois os anunciantes não confiavam muito no projeto e, diante da dificuldade persistente, em 1977 Luciano propôs ao diretor do Jornal da Cidade na época, Nilson Cosa, que o “Ilustrado” fosse distribuído junto com a publicação.

“Mas só deu certo quando falei diretamente com o Alcides Franciscato. Ele ligou e determinou na mesma hora que, a partir do mês seguinte, o Bauru Ilustrado saísse com o JC, que se responsabilizou pelas vendas dos espaços publicitários, depois de combinarmos um cachê”, lembra.

Vida em família

Dos 85 anos de vida de Luciano Dias Pires, 83 foram vividos em Bauru. Nascido em Botucatu, veio ainda pequeno para a cidade com os pais Francisco Xavier Pires e Lázara Dias Pires. Também tinha dois irmãos mais velhos: João Batista Dias Pires e Jack Dias Pires, que foi um dos expedicionários bauruenses na Segunda Guerra Mundial.

Por aqui, constituiu sua própria família, fruto do casamento de 57 anos com a doce Helena da Silva, que conheceu no curso Normal do colégio Guedes de Azevedo.

O memorialista é pai de Luciano, jornalista e chargista, Luiz Antônio, diretor do Zoológico de Bauru, e da professora Lúcia Helena. Pires tem ainda seis netos – Fernanda, Bárbara, a cantora Luciana, Daniel, Gabriela e Mathias – e aguarda, ansiosamente, pelos bisnetos…

Tudo começou com a ferrovia…

Apesar da dedicação paralela aos veículos de comunicação impressos, radiofônicos e televisivos, a trajetória profissional de Luciano Dias Pires se deu na Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), onde ingressou em 1945. Alguns anos depois, largou o emprego e tentou a vida em São Paulo como radialista. Sem sucesso, retornou e atuou como relações públicas da empresa por muito tempo, inclusive na capital do Estado, até se aposentar em 1982.

O memorialista é um apaixonado pela ferrovia, e foi a partir dela que iniciou seu interesse pela história da cidade. “Em 1965, estava na Europa e tive contato com a indústria do turismo ferroviário existente lá. Fiquei fascinado por tentar implantar aquilo em Bauru, já que nossos trens chegavam ao Paraguai e a Bolívia”, explica.

Conhecendo a fundo a história da Noroeste, Luciano se deu conta de como ela se confundia com a história e o desenvolvimento da cidade. “Fui lendo artigos, buscando, fuçando, conversando com as pessoas… Hoje, posso dizer que sou considerado um expert”, brinca Pires.

Paixão pelo rádio começou aos 8 anos de idade

“É o meu xará? Quem sabe você, em um futuro que vai chegar logo, será também um locutor de rádio!”. Se Luciano Dias Pires já era vidrado nas ondas do rádio, depois de ouvir este comentário de um locutor recém-contratado da Bauru Rádio Clube, Luciano Santoro, trabalhar diante do microfone se tornou uma obsessão. Mesmo aos 8 anos de idade.

Fã do então locutor esportivo Aurélio Campos, Pires tentou a sorte na Rádio Tupi, em São Paulo. Seu primeiro teste, porém, foi frustrado. “Fui sabatinado pelo Homero Silva, que era um nome influente do rádio naquela época. Mas ele foi muito indiferente. Me mandou ler um texto, sem que eu tivesse ensaiado, e falou, ao final, que eu tinha a voz grave, mas que deveria voltar seis meses depois de treinar muito. Claro que, se ele estivesse vivo, estaria me esperando até hoje”, ri, Luciano.

Foi em Bauru, porém, que ele teve sua primeira oportunidade. Apaixonado pelo Noroeste, começou a ler mensagens comerciais e informar os resultados de jogos de todo o Brasil a partir da criação do serviço de som no velho estádio do Alvirrubro.

Por conta disso, surgiu o convite para assumir a locução do período noturno, das 20h às 23h, na Bauru Rádio Clube.

Daí em diante, foi só sucesso! Em 1954, quando o time do Noroeste chegou pela primeira vez à elite do futebol de São Paulo, criou o programa “Pra Frente Noroeste”, um dos maiores sucessos do rádio na época. No ano seguinte lançou o Grande Jornal Falado G-8, o primeiro programa do gênero jornalístico da cidade.

Dois anos depois foi para a Rádio Terra Branca, mas concluiu seu ciclo no rádio na década de 1960, quando partiu de vez para a comunicação impressa.

Veja a página que o portal de Miltom Neves dedica a Luciano Dias Pires.

O Jornal da Cidade publicou quando Bauru completou 106 anos:

Memórias prodigiosas

Quando o assunto é história da cidade, Gabriel Pelegrina, Luciano Dias Pires, Nadyr Serra e Irineu Bastos são referências obrigatórias

Daniela Bochembuzo

Mês de aniversário da emancipação político-administrativa de Bauru, agosto é repleto de compromissos para o jornalista Gabriel Ruiz Pelegrina. Dono de memória prodigiosa, capaz de lembrar com fluidez datas – incluindo dia, mês e ano – e fatos diversos do município, esse ex-ferroviário é freqüentemente requisitado para falar do que mais gosta: a história de Bauru.

“Tenho compromissos em todas as semanas de agosto”, afirma Pelegrina, que conserva a memória por meio de muitos exercícios mentais e medicina ortomolecular.

Assim como ele, os jornalistas Luciano Dias Pires e Nadyr Serra e o advogado Irineu Azevedo Bastos também são bastante requisitados para relatar fatos históricos da cidade. A memórias privilegiadas, eles e Pelegrina adicionam o aguçado interesse pela pesquisa documental, que os permitiu reverem e corrigirem inúmeros pontos da história local.

Por tudo isso, acabam por atiçar a curiosidade das pessoas em conhecer um pouco mais sobre o passado de Bauru. “Recebo de quatro a cinco telefonemas por dia. As consultas são sobre os mais diversos assuntos”, garante Nadyr Serra, que aos 84 anos continua ativo na imprensa como jornalista responsável pelo Jornal da Cidade, onde está há 27 anos.

Serra ingressou na imprensa em 1942, depois de trabalhar 18 meses como tipógrafo. Nesses 62 anos de atividade jornalística, passou por inúmeros jornais, além de acumular a chefia da agência local do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Até hoje, chamam a atenção sua facilidade em guardar nomes e a capacidade de observar a vida da cidade e seus moradores.

Em razão disso, não tem vergonha em relatar seu engajamento em inúmeras campanhas que beneficiaram o município, como a que visava à instalação da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB), em conjunto com o dentista José Simões Barroso. “Orgulho-me muito disso. Naquela época, nos uníamos para construir sonhos”, relembra Serra, que se intitula um “privilegiado personagem da história”.

Outro espectador que teve a chance de acompanhar de perto o que viriam a ser fatos históricos foi Luciano Dias Pires, inicialmente como locutor da Bauru Rádio Clube e, atualmente, responsável pelo suplemento Bauru Ilustrado, veiculado mensalmente pelo JC.

Nesse ínterim, trabalhou em outras emissoras de rádio e jornais, sendo responsável pelo primeiro programa jornalístico no rádio bauruense, o “Grande Jornal Falado G8”, que inovou por trazer reportagens gravadas.

Mas foi em 1955 que a verve histórica aflorou, quando começou a escrever reportagens sobre o passado de Bauru. “Avaliava que faltavam textos sobre histórias das pessoas da cidade. Comecei a escrever sobre isso, houve aceitação e o trabalho se solidificou”, relata Pires.

Desse trabalho de investigação, o jornalista acumula atualmente acervo de 10 mil fotografias, 400 postais de Bauru antigo, além de inúmeros livros, documentos, depoimentos em áudio e objetos. Desse total, além das aquisições pessoais, encontram-se doações de famílias bauruenses preocupadas com a preservação da história.

“Sou um imperioso defensor da história de Bauru, cidade que aprendi a amar há 75 anos, dois anos depois de ter nascido em Botucatu”, sustenta Pires, cujas pesquisas resultaram na alteração da definição de 1 de Agosto de aniversário de fundação para comemoração da emancipação político-administrativa da cidade, além da data do padroeiro.

“Há muita coisa a se corrigir na história de Bauru”, diz o jornalista. Concorda com ele o advogado Irineu Azevedo Bastos, consultor financeiro-administrativo da Câmara Municipal de Bauru e que atualmente se debruça sobre a pesquisa do significado original do nome da cidade.

“O que mais me fascina na pesquisa histórica é a possibilidade de mudar crenças, de ajudar a compreender outros assuntos por meio da contextualização. A história é fundamental para se entender o presente”, sentencia Bastos, autor de três livros sobre contextos históricos locais.

É por desfragmentar o conhecimento que a história sempre fascinou Irineu Azevedo Bastos. “É nessa área que me realizo plenamente”, atesta ele, que foi estimulado a ingressar nesse mundo por Gabriel Ruiz Pelegrina, inicialmente para pesquisar a árvore genealógica da família e, posteriormente, para complementar pesquisas realizadas pelo jornalista. “Nos completamos”, comenta.

Apaixonado pelas atividades de pesquisa, escrita e leitura, Bastos está feliz em perceber número crescente de pessoas interessadas no resgate do passado local. “Há pesquisas de assuntos que nem se imagina. É um cenário notável, que enriquece demais a cidade”, afirma.

Esse fascínio, Gabriel Ruiz Pelegrina percebe no dia-a-dia do Núcleo de Documentação e Pesquisa Histórica de Bauru e Região (Nuphis), órgão ligado à Universidade do Sagrado Coração a quem o jornalista empresta o nome e coordena. Além disso, também ocupa o cargo de diretor do Departamento de Proteção ao Patrimônio Cultural da Secretaria Municipal de Cultura de Bauru.

“Independente do estado de espírito e da personalidade, todos se entusiasmam com a história quando visitam os museus”, sustenta Pelegrina, que desde a década de 40 dedica os tempos de folga para coletar depoimentos e objetos que ajudem a contar e a compreender a vida da cidade. “É um trabalho fascinante”, garante, com brilho nos olhos.

Acervo em perigo

Proprietário de um acervo composto por mais de 10 mil fotografias, 400 postais de Bauru antigo, documentos originais e 185 painéis fotográficos relatando 90% do passado local, o jornalista Luciano Dias Pires continua à procura de um local em que possa armazenar adequadamente esse material e realizar exposições abertas à visitação pública.

Em maio deste ano, o material teve de ser recolhido do Instituto Histórico Antônio Eufrásio de Toledo, onde ficava exposto sob coordenação de Pires, em razão da reestruturação da unidade pela sua mantenedora, a Instituição Toledo de Ensino (ITE).

Temendo pelo acervo, Pires recolheu-o a sua chácara, mas o local não é adequado, já que não conta com equipamentos para garantir temperatura e umidade ideais à sua conservação nem possibilita a visitação pública. “Temo pelo futuro do acervo, que dispõe de documentos raros, como um manuscrito de 1911 assinado por pioneiros, além de fotografias e postais originais das primeiras décadas de Bauru”, afirma Pires.

O apelo já foi lançado pelo jornalista em matérias no jornal, emissoras de rádio e televisão, mas até o momento ninguém se dispôs a ajudá-lo.

“Faço isso para garantir a continuação desse trabalho de divulgação da história da cidade. É preciso mostrar as coisas boas e ruins de Bauru, o que os pioneiros passaram e o que fizeram para chegarmos onde estamos hoje. Não podemos perder nossas referências. Por isso, preservar a história é uma necessidade imperiosa”, defende Pires.