Itacolomy Carvalho nasceu em São Simão, na região de Ribeirão Preto e mudou-se para Bauru quando tinha apenas seis meses de vida.

Foi o único dos seis irmãos que não aprendeu a arte da alfaiataria e, segundo ele, porque não teve tempo. “Quando meu pai morreu, eu tinha 17 anos.” Entretanto, isso não o impediu de ajudar o pai e os irmãos a consolidar o nome da Casa Carvalho, uma das lojas mais tradicionais de Bauru.

Sempre muito ativo, Itacolomy foi proprietário de uma fábrica de enfeites de Natal, mas não demorou para perceber que o negócio não tinha futuro. “Eu ficava o ano inteiro trabalhando, fabricando e armazenando para começar a vender em novembro. Eu cheguei à conclusão de que era um péssimo negócio”, conta.

Trabalhou também como vendedor de calçados e foi um dos fundadores da Sorri, além de ter tido participação direta na captação dos primeiros sinais de TV e na conquista do telefone automático para a cidade.

Itacolomy Carvalho, comerciante e benemérito, além de fazer parte da segunda geração da tradicional Casa Carvalho, fundou a Sorri Bauru e foi governador do Lions, ajudando ainda a fundar 10 clubes na região . Presidiu a Associação Comercial de Bauru, teve
fábrica de camisas e bolas de Natal, loja de calçados, vendeu rádios e discos e rompeu fronteiras ao conduzir movimentos
da Igreja Católica. Tudo isso desde a década de 40 e até setembro de 2008, quando morreu, por insuficiência cardíaca. O pai de ideias grandiosas era visto pelos filhos – Livette , Itacolomy Júnior e Cássio como uma pessoa culta, alegre e preocupada com
o mundo. Itacolomy também gostava muito de ler e montar quebra-cabeças.

Mas o seu xodó era a Casa Carvalho, onde começou como funcionário do irmão Jaguaribe, em meados de 1950 e depois virou sócio.

Por oito anos, foi presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib).

Apesar de sua liderança na comunidade, nunca teve pretensões políticas. Nem mesmo quando foi representante do então governador Paulo Maluf, na época, membro da Arena.

Acompanhou até final de sua vida, de perto, os passos que o filho Cássio deu na condução dos destinos da herança deixada pelo pai.

O empresário Itacolomy de Carvalho teve ativa participação no clube de serviço Lions e foi atuante em muitas causas filantrópicas e sociais de Bauru. Uma das figuras mais expressivas de nosso comércio, tendo sido árduo defensor do comércio na área central, embora tenha tido visão para se expandir para o Bauru Shopping e depois, por iniciativa do filho Cássio, para a vizinha Botucatu.

Itacolomy de Carvalho foi o entrevistado da semana do Jornal da Cidade, espaço aberto para personalidades da cidade, cujo teor vai a seguir:

Jornal da Cidade – O senhor veio para Bauru muito novo. Qual razão trouxe seus pais para cá?

Itacolomy de Carvalho – Eu nasci em São Simão (perto de Ribeirão Preto) e vim para Bauru com seis meses de vida. Não sei por que razão meu pai decidiu vir para cá. Ele era profissional de alfaiataria e quando chegou, a cidade tinha só um alfaiate, que era o Luiz Salas. Meu pai fez de tudo na vida. Ele chegou a ser até caixeiro viajante.

JC – Foi dele a idéia de abrir a Casa Carvalho?

Carvalho – Graças à venda de tecidos e chapéus da Souza Machado, uma fábrica do Rio de Janeiro, a alfaiataria do meu pai foi crescendo até se transformar em loja, a Casa Carvalho. O nome da firma naquele tempo era Carvalho e Irmãos. Era meu pai e os seis filhos.

JC – E todos os irmãos ajudavam na loja?

Carvalho – Todos trabalhavam na loja, menos eu. Fui o único que não aprendeu o ofício. Não deu tempo.

JC – Por que não deu tempo?

Carvalho – Porque quando meu pai morreu, em 1943, eu tinha 17 anos. Era o caçula da família. Não deu tempo de aprender.

JC – Foram seus irmãos, então, que cuidaram da loja?

Carvalho – Nós tínhamos duas lojas. Uma na quadra 2 da Batista de Carvalho e a Casa Carvalho, que ficava um pouco pra cima. Como eu era novo, acabei sendo empregado dos meus irmãos e continuei mesmo depois de casado. Nesse tempo, eu fui para o Rio de Janeiro, onde tentei ingressar no CPOR (Centro Preparatório de Oficiais da Reserva) da Aeronáutica. Aí começou uma conversa dizendo que quem fosse para a Aeronáutica iria para a Itália (lutar na Segunda Guerra). E todo mundo comentava que quem foi não voltou vivo, morreram todos. Então, eu pensei “Tô fora”! E voltei para Bauru.

JC – Voltou para trabalhar na loja?

Carvalho – Não. Quando eu voltei, por volta de 1945, montei um escritório de representações. Eu representava uma firma da Holanda, que vendia de arame farpado a bebidas. Nós vendíamos no Estado do Mato Grosso inteiro.

JC – O senhor também foi dono de uma fábrica de enfeites de Natal?

Carvalho – Eu não sei direito o que aconteceu. Só sei que eu montei essa fábrica na quadra 3 da rua Joaquim da Silva Martha. Eu ficava o ano inteiro trabalhando, fabricando e armazenando para começar a vender em novembro. Eu cheguei à conclusão de que era um péssimo negócio! Era muito esforço e pouca rentabilidade. Fiquei com a fábrica uns três anos e caí fora.

JC – Parece que o senhor trabalhou com calçados também. Como foi isso?

Carvalho – Eu trabalhei na Casa da Época, que vendia calçados masculinos e femininos. Bauru era muito visitada pelo povo da Bolívia, porque a cidade tinha escola de maquinista ferroviário. Então, eles aproveitavam para comprar aqui. Bauru era a capital para eles. Eles pagavam na hora e em dólar. Era uma importante fonte de renda para todos os comerciantes da cidade. Quando o transporte de passageiros pela ferrovia terminou foi um prejuízo muito grande para todos. Bauru perdeu muito.

JC – Falando agora da área social, que participação o senhor teve na fundação da Sorri?

Carvalho – Teve uma eleição em Bauru com quatro ou cinco candidatos. Eu procurei todos eles e perguntei, se fossem eleitos, se dariam um terreno para implantar a Sorri. Todos disseram que sim. Antes disso, o Thomas, que era da ONU (Organização das Nações Unidas) me procurou para falar da idéia de montar a Sorri em Bauru. Na época, eu era presidente da Associação Comercial. Eu concordei em ajudar, procurei os candidatos e todos se comprometeram a colaborar. Aí o Sbeghen (ex-prefeito Oswaldo Sbeghen, que governou o Município entre 1977 e 1983) ganhou a eleição. Depois de uma semana que ele havia assumido, eu voltei a procurá-lo. Ele disse que se lembrava da promessa que havia feito, mas não podia fazer nada, que dependia da Câmara a doação do terreno. Fui conversar com os vereadores e requisitei deles um terreno que ficava do lado de onde estava sendo construído o Ceasa. Eles aceitaram e o projeto de doação foi aprovada por unanimidade. E hoje a Sorri é um sucesso.

JC – Mas para que isso tornasse uma realidade, o senhor teve de cobrar o ex-prefeito.

Carvalho – Eu sempre fui amigo do Sbeghen. Não houve nenhum atrito com ele. O que houve foi uma cobrança, porque ele titubeou e eu não gosto disso. Se falou, está falado. Para mim, esse negócio de assinatura tem muito pouco valor, o que vale é a palavra. No fim, deu tudo certo e continuamos bons amigos.

JC – E a Sorri permanece até hoje no mesmo terreno que o senhor ajudou a conquistar.

Carvalho – Continua no mesmo terreno. Por várias vezes, conseguimos verba da Alemanha. Hoje, aquilo lá é uma beleza, um sucesso.

JC – Imagino que o senhor deva sentir muita satisfação ao ver hoje no que a Sorri se transformou.

Carvalho – Sem dúvida, é muita satisfação. Eu sinto que fiz a minha parte e muito bem feita. E fico feliz em ver que a Sorri está sendo muito bem administrada pelo João Bidu, que é um excelente presidente e vem fazendo um trabalho melhor do que nós realizamos.

JC – O senhor falou que na época que lutou pelo terreno para a Sorri, era presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib). Por quanto tempo ocupou esse cargo?

Carvalho – Oito anos.

JC – Embora tenha quase uma vida inteira ligada ao comércio, o senhor teve participação decisiva em outras áreas, como na instalação do sinal de televisão em Bauru. Como foi isso?

Carvalho – Foi uma luta que eu levei adiante com a ajuda de um grupo grande de amigos. Nós chegamos a instalar uma torre provisória perto de Garça para captar os sinais de São Paulo. Foi gostoso.

JC – E na área de telefonia, o que o senhor fez para melhorar o serviço na cidade?

Carvalho – Nós queríamos trazer o telefone automático para Bauru. Para isso, fomos até o Rio de Janeiro conversar com as pessoas que mandavam no setor e conseguimos trazer o telefone automático para cá. Antes disso, usar o telefone era um inferno. Demorava uma semana para completar uma ligação interurbana. Quando tinha um assunto para tratar em São Paulo, nós reuníamos um grupo de empresários, alugávamos um taxi e o motorista levava a mensagem e trazia a resposta. Era mais rápido do que ficar esperando a ligação. Hoje, você fala com a China em questão de segundos.

JC – Entrando agora na política, o senhor sempre foi atuante nessa área, mas nunca saiu candidato a nada. Por quê?

Carvalho – Eu sempre achei que se alguém não pode ajudar, não deve atrapalhar. O cargo político é muito massificante. A pessoa é muito agredida. A partir do momento em que ela de se identifica como candidato, começa a ser agredida pelos adversários. A família toda é agredida.

JC – Nunca foi candidato, mas foi chefe político da Arena?

Carvalho – Sim, fui chefe político. Todos os pedidos que entregavam para mim, eu encaminhava. Nunca deixei de atender um pedido. Para mim, todas as pessoas são seres humanos, nunca olhei partido político. Acho que quem pede deve ser atendido.

JC – Com que freqüência o senhor era atendido?

Carvalho – Quase 80% das vezes.

JC – Até em função disso, o senhor nunca pensou em se candidatar a algum cargo político?

Carvalho – Tem muita gente mais capaz do que eu para ocupar esses cargos. Eu sei qual é o meu lugar. Acho que o cargo político deve ser ocupado pelo político e eu não sou político. O bom político sempre vai exercer melhor a profissão. O bom médico é um bom profissional. Com o político, é assim também. Quando ele é bom, exerce a função com muito mais propriedade.

JC – O senhor representou o então governador Paulo Maluf por muito tempo em Bauru e na região. Onde nasceu essa amizade com o hoje deputado federal do PP?

Carvalho – Na Federação Comercial, em São Paulo. Ele era presidente e eu freqüentava como representante da Associação Comercial de Bauru. Eu o conheci no avião, quando ele era presidente da Caixa Econômica Federal. Eu não lembro se estava indo ou voltando de São Paulo. Foi meu primeiro contato com ele. Depois vieram outros. Na Federação Comercial, os encontros eram quase mensais. Um dia ele me procurou e perguntou se votaria nele para delegado da Arena. Eu disse que iria consultar alguns amigos e depois daria uma resposta. E a resposta foi meu apoio integral.

JC – Depois de tantos anos de amizade, o que o senhor pode dizer do Paulo Maluf, como pessoa e político?

Carvalho – Eu costumo dizer que amigo não tem defeito. E inimigo, se não tem a gente, inventa. O Paulo está preso no coração do povo. Uma prova disso foi a votação que ele obteve para deputado federal, que foi a maior do Estado de São Paulo.

JC – Depois que o senhor resolveu se aposentar, o que tem feito?

Carvalho – Hoje, eu gosto de ver TV, de montar um quebra-cabeça. Eu me cuido para não atrapalhar a vida dos outros. O velho, se bobear, atrapalha. Eu gosto muito de leitura. Acordo às 5h da manhã e leio bastante. Sou católico praticante. Vou à Igreja todos os dias, onde eu estiver. Foi uma promessa que eu fiz quando quebrei o pescoço.

JC – O senhor quebrou o pescoço como?

Carvalho – Dentro de casa. Numa madrugada, eu cai e quebrei a quarta e quinta cervical. Me levaram para o Hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde fui operado. Na manhã seguinte, eu queria ir para Aparecida (do Norte) agradecer. Porque quebrar o pescoço e continuar andando, tem de agradecer. Então, todos os dias, eu agradeço.

JC – O senhor também tem o costume de ir à loja todos os dias?

Carvalho – Todos os dias. Quando me disserem que não é para ir mais lá, eu não vou. Aí eu vou aborrecer as pessoas em outro lugar!

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Perfil

• Nome: Itacolomy de Carvalho

• Idade: 84 anos

• Local de nascimento: São Simão

• Mulher: Lúcia Marinho Nunes de Carvalho (falecida)

• Filhos: Livette, 56 anos; Itacolomy Júnior, 55 anos; Cássio, 54 anos; e Ricardo (falecido)

• Hobby: Quebra-cabeça e palavras cruzadas

• Livro de cabeceira: Todos

• Filme preferido: Todos

• Estilo musical predileto: Qualquer música suave

• Time: São Paulo e Noroeste

• Para quem dá nota 10: Para meu amigo Silvio Nunes (falecido)

• Para quem dá nota 0: Para ninguém