Mais do que justo inserir entre Personalidades de Bauru, o batalhador incansável Edmundo Muniz Chaves, aqui em foto do Jornal da Cidade, o entrevistado do domingo por sua dedicação há mais de 40 anos em prol do Esquadrão da Vida.

Fundador e atual diretor do Esquadrão da Vida, chega aos 40 anos frente a  instituição Esquadrão da Vida, importante instituição voltada ao resgate de jovens e adultos do mundo das drogas.

O Esquadrão da Vida® é uma obra social que nasceu no coração de Deus e foi por Ele implantada nos corações do Pr. Francisco de Assis Bahia Bolais e sua esposa, Dra. Betty de Bolais, que trouxeram este plano à realidade fundando, em 1983, a Comunidade de Libertação Esquadrão da Vida®, que vem sendo uma das portas de solução para que centenas de jovens e seus familiares possam vencer o problema das drogas e do alcoolismo.

O Esquadrão da Vida® é, portanto, uma entidade beneficente, sem fins lucrativos, que atua incessantemente na recuperação de drogadependentes e alcoólatras buscando restaurá-los e reintegrá-los à família e à sociedade, alcançando uma eficácia de 95% através de um tratamento não medicamentoso realizado num aconchegante ambiente familiar-cristão.

Edmundo Chaves é o fundador do grupo Esquadrão da Vida em Bauru e lá está desde quando teve que  escolher entre a faculdade de engenharia e o “Esquadrão da Vida”, que começava a dar os primeiros passos,  quando ele ainda era um jovem obstinado pelas causas sociais.

Fundador e atual diretor executivo da entidade que acabou de completar 40 anos, Edmundo falou ao JC sobre como tudo começou e sobre o que já viu e viveu no resgate de jovens e adultos do mundo das drogas.

Professor de administração, ele foi presidente da Federação Nacional das Comunidades Terapêuticas e, entre seus trabalhos de destaque, ajudou a estruturar a Política Nacional Antidrogas, em Brasília. “O período em que atuei na Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) foi um dos mais ricos e decepcionantes da minha vida”, conta.

O porquê de tal afirmação, além de suas lembranças de infância em Duartina e a participação do Esquadrão na festa “Viva Bauru” são algumas das passagens que você confere na entrevista, a seguir, levada aos leitores do Jornal da Cidade em sua edição de 22 de julho de 2.012.

Jornal da Cidade – Pode-se dizer que sua história se funde com a do Esquadrão da Vida?
Edmundo Muniz Chaves – Fui fundador e presidente por muitos anos.Hoje sou diretor executivo e posso dizer que ainda usava fraldas quando o Esquadrão nasceu (risos).

JC – E como ele “nasceu”?
Edmundo – Eu devia ter uns 21 anos na época. Sou de Duartina e vim para Bauru fazer faculdade de engenharia na antiga Fundação Educacional de Bauru, hoje Universidade Estadual Paulista (Unesp). Eu tinha um grupo de amigos e uma menina do grupo estava namorando um rapaz “viciado”. A gente falava para ela largar daquele e tudo mais. Mas você sabe como é a paixão, e ela estava apaixonada. Então nós começamos a ajudá-lo, e ele parou de usar drogas. Entretanto, como era muito conhecido, ele começou a trazer outros dependentes para serem ajudados. E começamos a ajudar as pessoas que ele trazia. Nessa época éramos cinco. E um advogado muito conhecido na época, Paulo Valle, nos cedeu uma casinha que ele tinha no Higienópolis.

JC – E foi onde tudo começou?
Edmundo – Sim, na rua Anhanguera. Era uma casinha simples de madeira, onde recebíamos as pessoas que procuravam nossa ajuda. Alguém deu um dinheiro e compramos uma mesa, umas cadeiras e outras coisinhas. Depois fomos arrumando umas camas, porque sempre um ou outro precisava dormir… E as pessoas foram aparecendo, só que nós não tínhamos referências. Foi quando caiu em minhas mãos um livro chamado “A Cruz e o Punhal”, de um pastor americano, David Wilkerson, que tinha iniciado um trabalho com gangues em Nova Iorque. Vendi meu carro, comprei uma passagem e fui para os Estados Unidos conhecer esse trabalho. Fiquei lá por três meses.

JC – E deve ter trazido muito aprendizado na bagagem.
Edmundo – Sim. O pastor me ajudou muito e me mandou para conhecer o trabalho com recuperação de drogados de diversos lugares, como Texas, Pensilvânia, Califórnia… Depois esse pastor pegou toda a literatura que ele tinha sobre o trabalho com dependentes químicos e me mandou por navio, porque era muita coisa. Quando cheguei, descobrimos um grupo que estava iniciando o trabalho com viciados em Goiânia. Foi um pessoal para lá e começamos a sistematizar o trabalho.

JC – Então o Esquadrão foi um dos primeiros grupos com esse perfil no Brasil?
Edmundo – Sim, começamos em 1972. Vimos que a necessidade era muito grande e que precisávamos fazer alguma coisa. Quando começamos, tínhamos notícia apenas desse grupo de Goiânia, o “Movimento Jovens Livres”, que existe até hoje e nos ajudou muito. Foi um trabalho que nós aprendemos a fazer, fazendo.

JC – Acredito que esse é um aprendizado contínuo, certo?
Edmundo – Exatamente. No início tínhamos um perfil diferente do drogado e da droga. Quem usava droga eram apenas as pessoas da periferia, normalmente gente de vinte e pouco anos, e a droga de prevalência era o álcool e a “bolinha”. Não havia adolescentes ou crianças usando drogas. Esse drogado tinha uma família e, normalmente, um emprego. Ele tinha um grupo social que não usava entorpecentes e se afastava dele. Quando ajudado, conversávamos com o chefe para que ele (paciente) pudesse ter o emprego de volta e ele também voltava para os amigos que não usavam drogas.

JC – Já hoje…
Edmundo – Hoje, o menino começa a usar drogas, como a cocaína e o crack, aos 10, 12, 14 anos, nunca fez nada na vida e só sabe, muitas vezes, roubar. Ele tem família disfuncional e, às vezes, mora na rua. A gente ajuda e ele não tem um círculo social com pessoas que não usam drogas para voltar. Ele também não volta para o emprego, porque nunca trabalhou e não sabe fazer nada. Então, não basta apenas você ajudar o cara a parar de usar drogas. A comunidade terapêutica tem que ser um lugar de treinamento profissionalizante. Esse é o nosso desafio para os próximos anos, porque eles precisam saber fazer alguma coisa para fazer depois de livres das drogas, senão eles voltam para o vício. Esse projeto já está em estudo.

JC – Como você analisa essa evolução maléfica das drogas?
Edmundo – Um fato que pouca gente sabe, nunca vi um historiador falar sobre o assunto, é que, na década de 1980, houve um jogo econômico de marketing feito pelos grandes traficantes. A maconha começou a ficar cara e a cocaína, barata. Era vergonhoso usar maconha, o barato era usar cocaína. Eles se sentiam na “crista da onda” com a cocaína e, de repente, o preço dessa droga foi elevado. Mas os pobres já estavam viciados e, então, houve uma mudança sociológica. Esse pobre, para manter o vício, começou a mudar e a assaltar. O crime mudou. Toda essa mudança que você vê hoje nas ruas, com o aumento gigantesco de roubo, furto e latrocínio, é devido a essa jogada dos traficantes com a maconha e a cocaína. Uma coisa diabólica mesmo.

JC – O que você pensa sobre o movimento a favor da descriminalização da maconha?
Edmundo – Eu tenho contato com o diretor do Cebrid, um centro brasileiro de informações sobre drogas, e ele me disse que há 50 anos muita maconha analisada tinha zero de THC, substância responsável pelo efeito alucinógeno da planta. Com o desenvolvimento da genética, hoje, a maconha que o pessoal da geração paz e amor da década de 1960 conheceu, e que às vezes defende o uso, é outra droga, não é mais aquela “inofensiva”. E para viciar ainda mais, o traficante está colocando um pouquinho de pó de crack junto, o que causa dependência rápida. As pessoas não sabem com o que estão mexendo.

JC – Quantas pessoas já foram atendidas pelo Esquadrão nesses 40 anos?
Edmundo – Ah, mais de cinco mil pessoas. E posso dizer que mais da metade, bem mais, está bem. Temos retorno dessas pessoas. Muitas nos escrevem, principalmente agora com as redes sociais. Temos muitas histórias marcantes ao longo desses anos. Na década de 1970, por exemplo, ajudamos um jogador de futebol do Palmeiras e da Seleção, o Liminha. Isso foi um marco na vida do Esquadrão, porque éramos meninos e não conhecíamos ninguém em Bauru. Um dia eu fui ao Fórum e vi que no gabinete de um juiz de direito, Reynaldo Galli, havia uma flâmula do Palmeiras. Vi que ele era palmeirense roxo e levei o Liminha para ele conhecer. Ele ficou muito feliz e nos ajudou. Disse que eu tinha concedido uma de suas maiores alegrias e me apresentou para muitas pessoas que puderam ajudar o projeto.

JC – Quando seu trabalho contra as drogas ultrapassa as fronteiras do Esquadrão?
Edmundo – Fui presidente da Federação Nacional das Comunidades Terapêuticas. Uma época muito rica. Em 1999 fui convidado a participar de um grupo de apenas 12 pessoas no Brasil para ajudar a estruturar algumas coisas, entre elas, participei do grupo que escreveu a Política Nacional Antidrogas, em Brasília. Eu ia toda semana para lá. Depois escrevemos as normas mínimas para o funcionamento das comunidades terapêuticas. Fiquei até o final de 2004. Foi um dos períodos mais ricos e decepcionantes da minha vida.

JC – Por que diz isso?
Edmundo – Rico porque convivi com voluntários que, como eu, ajudaram a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) por idealismo. Eu dei a “nota zero” à corrupção porque pude ver e sentir como o dinheiro público é mal usado. Se a Senad usasse o dinheiro que ela arrecada da forma como deveria, o problema da drogadição seria bem menor. Todo carro, navio, avião, fazenda com plantação… Por lei, deve ser arrestado, vendido pelo Estado e o dinheiro aplicado na prevenção e tratamento. Mas isso não é feito, até mesmo pela lentidão do Judiciário. Essa foi a causa da minha saída da Senad. Eu me indispus, denunciei a situação na Câmara dos Deputados e fui expulso de lá. Não saiu uma letra sequer nos jornais. Recebi uma comenda do Planalto que não representa nada para mim, mas representaria se as coisas tivessem sido diferentes.

JC – Qual é a sua história na festa “Viva Bauru”?
Edmundo – Organizei a festa no passado e, hoje, o Esquadrão cuida da barraca mais importante da festa, a da preparação do sanduíche. Para vender até 25 mil unidades, a gente precisava de uma equipe boa e já tivemos muitos problemas. Mas pegamos uma equipe, que hoje tem mais de vinte pessoas, e a treinamos. São quatro linhas de produção, e cada linha faz um sanduíche a cada quatro segundos. Desde então não tivemos mais problemas na festa do sanduíche, e eu me orgulho dessa equipe.

JC – Você nasceu em Duartina. Quais são as lembranças daquela época?
Edmundo – Eu tenho muito orgulho de ter sido criado até os 20 anos em Duartina. Tem coisas que são mais importantes do que tudo, como a amizade. E conservo amigos por lá desde os tempos de menino. Meu avô, aposentado da Noroeste, sempre me ensinou muito, principalmente sobre perseverança. Ele ia para Duartina e, com seu carisma, chamava meus amigos e nós íamos explorar a cidade, suas matas e rios. Quando estávamos cansados, ele olhava para a gente e dizia: “Repitam: sou forte, sou corajoso. Sou firme, sou valentão. Sou como onça no inverno e cascavel no verão”. E a gente se enchia de vontade de terminar o percurso (risos). Além da amizade, minha vida tem outros dois pilares: saúde e paz de espírito, onde entram a família e o relacionamento com Deus. Sou feliz também por viver em Bauru. Fui reconhecido com cidadão bauruense, me orgulho disso, assim como me orgulho da estrutura social da cidade no enfrentamento das políticas públicas.