Paulo Keller estaria completando 66 anos hoje (21-04)

“Minha tarefa foi pegar o sonho das pessoas e transformá-los em realidade”, é o que consta de uma oportuna publicação no Facebook, que nos chamou a atenção e nos fez refletir pela falta que faz em todos os sentidos, do pessoal ao profissional e é claro que no artístico.

Paulo Keller, como faz falta! Hoje ele estaria completando 66 anos de idade e sentimos sua falta há quase oito anos.

Quem acompanhou sua trajetória sabe que era uma espécie de faz de tudo, “daqueles imprescindíveis a atuar nas onze posições, titular absoluto no time que leva o nome da cidade por esse mundão afora”, conforme definiu Henrique Perazzi de Aquino, em seu blog.

Paulo Keller demonstrou seu talento logo cedo, aos 16 anos de idade, quando começou a trabalhar como vitrinista da Tilibra. Depois, foi trabalhar em Jaú como desenhista de moda para uma loja, quando num belo dia, alguns organizadores do Carnaval daquela cidade pediram que ele desenhasse fantasias. Daí em diante, o Carnaval entrou de vez em sua vida.

Viu que tinha tudo com o carnaval e a partir de então não parou mais, passando a desfilar nas escolas de Jaú e Bauru e a participar ativamente da construção da festa destas cidades. Em Bauru, participou de pelo menos 30 carnavais, sendo carnavalesco das escolas: Mocidade Independente, Imperatriz, Camisa e Cartola. Fazia figurino, alegoria, desenhava toda a comissão de frente, a ala das baianas e ainda fazia enredo. Chegou a ganhar mais de 15 títulos do samba baurusense.

Era figurinista, decorador, artista plástico, carnavalesco, cantor, promoter e agitador cultural, além de colecionador de discos antigos. Cantava na noite bauruense, com um repertório dos mais refinados, com canções escolhidas a dedo, de New Yor New York aos sucessos do momento (era exigente no repertório).

Era pura animação nos verdadeiros bailes carnavalescos, emprestando sua voz e empolgação, cantando as marchinhas que tanto conhecemos e isso na condição de “crooner” ou dando uma canja que se estendia noite adentro.

Depois que ficou conhecido, passou a fazer arranjos em salões de festa, quer em clubes sociais, quer em eventos particulares. Viveu na noite. Bebericar algo num boteco qualquer era com ele mesmo, vivendo a vida da melhor maneira possível.

Política não era com ele e era alguém tocar num assunto polêmico e Paulinho saia com as suas que quase sempre deixava os incômodos da vida desconsertados. De resto, falava de tudo, com aquela pitada de humor usada sempre de forma oportuna.

Um de seus diferenciais mais marcantes era o de emprestar seu brilho, tanto para festas chiques quanto festas das mais simples, residindo aí o seu diferencial, deixando evidente que gostava muito mais de estar ao lado do povão, principalmente o da sua vila, a Falcão.

Figura marcante na escola Mocidade Independente, foi por anos o faz de tudo nas festas do Bauru Tênis Clube, assinando ele a única oportunidade em que o clube venceu o carnaval de rua, em tempos em que todas as agremiações da cidade faziam a festa popular, somando-se a blocos populares e depois as escolas, surgindo aí o carnaval de rua de verdade. Abusou do preto e espelho e fez o povo aplaudir de pé a apresentação, levando à vitória da rainha (Regina Belgo), ao carro alegórico e tudo mais. De sobra decorou o clube com as mesmas cores, fazendo elo na criação e desenvolvimento do tema.

Paulo foi uma dessas pessoas que veio ao mundo para trazer alegria. “Eu acho que vim para esse mundo para pôr sorriso no rosto dos outros. Sorriso por uma casa gostosa, com uma decoração bonita, uma música gostosa, uma roupa confortável. A minha tarefa é pegar o sonho de uma pessoa e transformá-lo em realidade”, disse em entrevista ao Jornal da Cidade.

Ricardo Carrijo, seu amigo e ex-presidente da Escola de Samba Mocidade Independente, disse em entrevista na época de seu passamento: “Tinha uma consideração muito grande pelo bom gosto, pela capacidade de fazer coisas bem feitas, elaboradas e bonitas. Fizemos muitos desfiles campeões na Mocidade. ‘Viagem à república das bananas’ e ‘Morená, o paraíso da criação’, em 89 e 88, foram alguns dos desfiles vencedores.”

Avelino de Souza, quando era presidente da Liga das Escolas de Samba e Entidades Carnavalescas de Bauru (Lesec) comentou: “O Paulo foi uma tremenda figura, um grande camarada. Vai deixar muita saudade”.

Na década de 70, Paulo Keller ajudou o Clube Nipo Brasileiro a fazer seu primeiro Carnaval de rua. “Ele levou a ideia de fazermos o Carnaval de rua, elaborou um carro alegórico inspirado na Praça das Cerejeiras e cerca de 80 pessoas desfilaram pelo clube na avenida Rodrigues Alves. Ele vai fazer muita falta”, lamenta Júlio Kosaka, quando presidente do clube.

“O Tênis vê com muita tristeza o falecimento do Paulinho porque ele foi um grande colaborar do clube em muitos eventos de forma graciosa e voluntária. Ele ocupava um espaço na cidade que vai ser muito difícil de preencher”, declarou Luiz Carlos Gonçalves Filho, presidente do BTC quando do falecimento do amigo e parceiro do BTC.

O artista fugia de homenagens (que mereceu e muito), mas chegou a receber uma de amigos no bar Dedo de Moça, no projeto Talentos Bauruenses. Durante três dias uma exposição mostrou todas suas facetas e Paulo ainda cantou acompanhado pelo pianista Wellington Escobar. “É uma perda irreparável. Fizemos essa homenagem para valorizar esse talento de Bauru. Ele gostava da cidade, brigava por ela e nunca se negou a ajudar ninguém quando o assunto era colaborar com a sociedade”, diz Roberto Guilherme Oliveira, então proprietário do bar.

Na época do seu falecimento era o secretário municipal de Cultura, Pedro Romualdo, que disse acreditar que a morte do decorador foi uma perda significativa para a cultura bauruense. “O Paulinho era uma figura extraordinária, sempre pra cima, participando das atividades culturais e artísticas de Bauru. A perda é lastimável, a cidade sente. É uma pessoa que vai fazer muita falta para nossa arte e nossa cultura.”

A amiga de infância, Vera Lúcia Kirchner Juliano, acredita que poucos conheceram a real personalidade do decorador. “Eu realmente perdi um amigo. Muito poucas pessoas o conheceram de verdade. Ele era extremamente tímido, introvertido, que jogava na defensiva. Muitas vezes se tornava arrogante para esconder a timidez. Mas quando ele considerava alguém amigo dele, ele não media esforços para agradar”, conta.

Paulo Keller não teve filhos, mas deixa saudosos seus irmãos Maristela, Mariângela e Oswaldo e seis sobrinhos.

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