O pioneiro João Simonetti

Pioneiro e fundador da TV Bauru

De origem italiana, João Simonetti se transformou em brasileiro para fazer
história como pai da televisão no interior de São Paulo

Registros mostram que João Simonetti teria nascido no dia 30 de maio de 1886, em  Dois Córregos. Mas, na verdade ele era italiano, a família não sabe de qual região do país. A origem exata do fundador da TV Bauru se perdeu no passar dos anos e na falta de documentos, queimados para esconder sua verdadeira nacionalidade. Tudo isso porque, para ser dono de uma rádio e uma futura emissora de televisão era preciso ser brasileiro, como determinava a Constituição.

Italiano do norte ou do sul, Simonetti chegou à Bauru em 1916, já com planos ousados que o transformariam no pai da televisão no interior paulista. O primeiro negócio foi uma fábrica de móveis na Rua Batista de Carvalho. Deste primeiro empreendimento até a TV Bauru, foram várias apostas em negócios de diferentes setores. Com espírito pioneiro, ele foi o primeiro a instalar na cidade uma indústria de pasteurização de leite e derivados, na época em que Bauru se transformava em sede da Estrada de Ferro Noroeste, na década de 20. Mesmo sendo uma novidade, a iniciativa não resistiu ao velho hábito da compra de leite cru, oferecido de porta em porta.

Mas isso não desanimou Simonetti. No final da década de 20, ele arrendou o prédio da Loja Maçônica e o reformou para transformá-lo no Cine Brasil, concorrente do Teatro São Paulo na época do cinema mudo. E mais uma vez o pioneirismo esteve presente. No local, uma multidão de bauruenses assistiu ao primeiro filme sonoro exibido na cidade. O prédio onde funcionava o Cine Brasil, mais tarde Cine Cristóvão, foi destruído por um incêndio na década de 30.

No início dos anos 30 veio a ideia de fundar uma rádio. Em janeiro de 1934 formou a diretoria da futura emissora, com amigos e representantes da Sociedade Dante Alighieri, uma entidade italiana. No mês seguinte, a documentação e os estatutos da Bauru Rádio Clube já estavam prontos. Com agilidade de dar inveja no trâmite burocrático, em 8 de março de 1934, a rádio já estava no ar, em caráter experimental primeiramente. Um ano depois, o governo concedeu o prefixo PRG-8, um marco na história do rádio bauruense.

Antes de mergulhar no projeto de uma emissora de TV, Simonetti tentou por duas vezes entrar na política da cidade, concorrendo ao cargo de prefeito em 1947 e 1951. Foi derrotado primeiramente por Octávio Pinheiro Brisolla, prefeito entre os anos de 1947 e 51, e depois por Nuno de Assis. Mas, as investidas sem sucesso na política não desanimaram o empresário, que ainda sobreviveu ao um acidente de percurso: a queda de um avião que o trazia de São Paulo de volta a Bauru.

Superados os contratempos, ele passou a se dedicar à instalação da TV Bauru. A emissora ficou em suas mãos do início de 1959, ainda em fase experimental, até outubro de 1960, quando passou a ser administrada pelas Organizações Victor Costa.  A falta de capital para manter uma emissora de TV com produção inteiramente local, em uma cidade do interior, foi a justificativa para vida curta da TV Bauru – Canal 2 – fundada por Simonetti. Na época, o número de receptores na cidade chegava, com muito esforço, a mil unidades.

Apesar de fantástico, o empreendimento custou ao empresário 7,5 milhões de cruzeiros apenas em equipamentos, o que colaborou também para atrasos no pagamento do salário dos funcionários. Problema também frequente quando as Organizações Victor Costa assumiram as ações da emissora. Embora os salários fossem baixos, muitos funcionários, como Clorinda Resta, que dirigia programas e chegou a escrever uma novela, levava para casa um valor mínimo e quase sempre depois da data de vencimento.

A trajetória de Simonetti mostrou que para tocar um projeto do porte de uma emissora de TV nos anos 50, o espírito empreendedor foi importante, mas era preciso mais. Já naquela época, o capital era imprescindível. No caso da TV Bauru, profissionais não faltavam, muitos que vieram do rádio se adaptaram e fizeram fama no novo meio, o que faltou mesmo foi o dinheiro.

* (Baseado no texto do jornalista Márcio ABC, no livro “Um Modelo de Televisão”).

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