Um pouco da história de Bauru e muito sobre a USC (antiga FAFIL)

Entra descalça nesta terra de solidão… deixa que os mortos enterrem seus mortos; vai sozinha à terra dos viventes… Estas frases de uma carta de Clélia Merloni, destinadas às irmãs de sua Congregação que partiam em missão, ajustam-se ao espírito de homens como Felicíssimo Antônio Pereira e Antônio Teixeira do Espírito Santo, os primeiros desbravadores que, transpondo a Serra dos Agudos, em 1856, entraram numa terra de solidão, o sertão dos índios baurus – de ybá-uru, ou mbaé-uru, ou imbai-uru, de onde bauru, que significa cesto de frutas ou lagoa escura.

USC em pintura assinada por Sueli DabusClélia Merloni, Antônio Pereira e Teixeira do Espírito Santo. Pessoas diferentes, nascidas em épocas diferentes. Dela nasceu a Congregação das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus. Eles determinaram a fundação de Bauru. Vida e obra de pessoas tão afastadas e diversas viriam a se cruzar no futuro. Paralelas que se encontraram antes do infinito.

Vista da baixada do rio Bauru, no início do século que compreende a atual área do Corpo de Bombeiros. O casario ao fundo pertence à rua Araújo Leite. Os primeiros contornos da atual cidade delinearam-se em 1884, quando Teixeira do Espírito Santo fez doação de parte da sua Fazenda das Flores ao nascente arraial São Sebastião da Bauru. O pequeno povoado se localizava no que hoje são as sete primeiras quadras da rua Araújo Leite.

UMA COMARCA NASCE E CRESCE

Bauru recebeu sua primeira professora, Alzira Gomes Dutra, em 1901. Em 1905, foi iniciada a construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Em 1907, começou o primeiro serviço telefônico; em 1908, inaugurado o Cemitério da Saudade; em 1909, fundado o primeiro jornal, O Tempo. Em 1913, o prefeito derrubou a igreja matriz e construiu uma praça em seu lugar.

Em consequência disso, o povo bauruense foi excomungado pelo bispo de Botucatu, Don Lúcio Antunes. No Natal de 1915, com a abertura da nova igreja Matriz do Divino Espírito Santo, o bispo reconciliou-se com a população da cidade.Também em 1915 foi instalado o primeiro banco, o São Paulo – Mato Grosso.

Em 1916, Bauru tornou-se comarca. Era a porta de entrada para o centro do Brasil. Os trilhos da ferrovia, seguindo o rastro das fazendas de café, atraíram milhares de colonos e levavam o desenvolvimento a povoados como Araçatuba, Birigui e Penápolis, que se tornaram grandes centros pecuários, produtores de cereais e mesmos industriais. Graças à Noroeste, Campo Grande tornou-se a capital de Mato Grosso do Sul. Bauru, localizada no centro geográfico do estado, deu ainda acesso à Bolívia e, bem mais tarde ao Paraguai.

INESQUECÍVEL SOIRÉE – BLANCHE

Na década de 10 a 20, embora Bauru fosse sede de comarca, abrigasse três estradas de ferro importantes (Noroeste, Sorocaba e Paulista), tivesse bancos, clubes recreativos e uma população crescente, resultado da contínua migração, carecia de escolas.

Existia apenas o primeiro grupo escolar, inaugurado em 1913, que em 1938 seria denominado Rodrigues de Abreu, homenagem ao poeta nascido em Capivari, mas adotado por Bauru, onde produziu o melhor de sua pequena criação. Quem quisesse estudar e não encontrasse vaga tinha de viajar até Botucatu.

A estrutura do ensino na época era precária, com uma poucas escolas primárias, os grupos escolares, sob competência do estado.

As escolas públicas não conseguiam sequer combater o analfabetismo.

Em Janeiro de 1916, o jornal O Comércio de Bauru noticiava: ‘Acham-se na cidade vários padres missionários do Sagrado Coração de Jesus, que desejam fundar um ginásio, de acordo com o programa oferecido do Ensino, preparando jovens para matrículas nos cursos superiores da República.’ A intenção era criar uma escola, de cunho católico, que favorecesse a formação de jovens.

Os padres chegaram a publicar anúncios solicitando alunos. A mensalidade seria de duzentos mil-réis. As reações da população foram curiosas.

De irrestrita adesão ao combate feroz. Um articulista chegou a executar mirabolantes especulações em torno de o bauruense ‘ser cristão, mas não católico, um vez que o catolicismo é anticristão’.

Começam a correr aqui duas trajetórias paralelas. A do Padre Francisco Van der Mass, que lutou anos para implantar uma escola católica, e a de uma mulher chamada inicialmente Itália Sbrissia, pertencente a família numerosa e humilde, que nasceu a 14 de Junho de 1920, em Piraquara, Paraná, adotaria, mais tarde, o nome de Arminda Sbrissia, porque Arminda era o nome de sua mãe. Finalmente, em 1921, com o apoio do Centro Católico, que congregava personalidades da cidade, o padre iniciou a construção do Externato São José, na rua Gustavo Maciel, esquina com a Bandeirantes. Dali em diante, as reuniões do centro passaram a ser na escola, onde eram encenadas peças teatrais e realizados festivais e palestras. Rua Araújo Leite no início de século, em sua parte alta. A região pertencia à Fazenda das Flores e lá se delineou, em 1884, o arraial São Sebastião do Bauru.

Em Janeiro de 1922, como a inscrição de alunos tivesse superado o número previsto, foi pedido um auxílio a Câmara Municipal. Nove meses depois, ao meio-dia de 12 de Outubro, enquanto ainda se comemorava no país o Centenário da Independência, o Externato São José foi finalmente inaugurado. Havia nele um componente de pioneirismo que se reproduzia três décadas depois.

Entronizado o Coração de Jesus na sede do centro,o Padre Paulo Hartgrs discursou, as salas de aulas foram benzidas, foi oferecida abundante chopada e alunos executaram demonstrações de ginástica.

À noite, aconteceu um chá-concerto, costume da época. Moças e rapazes cantavam, declamavam e tocavam, sendo os convidados servidos pelo que havia de melhor entras as jovens da sociedade. Uma ‘inesquecível soirée-blanche’, escreveu-se nos jornais. Os primeiros professores foram Francisca Negreiros, Maria José Nogueira e Maria Honória D´Avila, além do padres Francisco e Paulo. O Padre Francisco Van der Mass dirigiu o externato até 1925. Transferido para Pouso Alegre, Minas Gerais, foi substítuido pelo Padre Marino Power.

CHEGA A CONGREGAÇÃO DE CLÉLIA MERLONI

Painel representativo da vocação missionária do Instituto das Apóstolas do Sagrado Coração, inspirado e apoiado pelo Bispo Scalabrini. Clélia Merloni continuava fora de sua congregação, na Itália, quando suas apóstolas chegaram a Bauru, em Janeiro de 1926. ‘A fim de que o Externato São José não sofresse solução de continuidade’, diz o historiador de Bauru, Gabriel Ruiz Pelegrina, ‘foi providenciada a vinda de um grupo de religiosas educadoras, pertencentes à Congregação das Ápostolas do Sagrado Coração. O grupo era constituído pelas freiras Aquilina Caprice, Teresinha Buzato, Otávia Tosin, Francisca Paulin e Melânia Galli, sendo esta a superiora provincial. O historiador Gabriel Ruiz Pellegrina, que se tornou nome do Núcleo de Documentação e Pesquisa Histórica da USC, mostra assim a sua preocupação em resgatar a memória da cidade e da região.

‘A missão das religiosas não se restringia a apenas à direção e administração do externato, já com estrutura estável’, prossegue o historiador. ‘Vinham com o dever de dar assistência e transmitir conhecimentos culturais e religiosos à população, muito em especial às crianças, objetivando, é claro, contribuir para a sua formação moral e intelectual. As cinco freiras, e outras que vieram posteriormente, estiveram instaladas, por dez anos, em uma antiga casa na praça Rui Barbosa, ao lado da rua Antônio Alves, onde, no início do século, o pioneiro Caetano Cariani instalara o Hotel dos Viajantes.’ ** É a casa onde hoje se localiza o Hotel Colonial.

O colégio era pequeno, uma construção simples, estreita, e os recursos, poucos. As Ápostolas se excediam para superar as deficiências do prédio e do ensino. Muitas sabiam que não tinham preparo para dar aulas, mas se desdobravam, estudavam, quase que aprendiam junto com os alunos; com frequência, improvisando o próprio material escolar. O interior do Brasil vivia isolado. Papelarias, livrarias, cadernos e livros, tintas, lápis, giz, tudo era escasso, complicado de se obter. Uma encomenda podia levar dois meses para chegar. Os pedidos eram feitos por meio de um correio lento, falho, e os despachos vinham por trem. -Irmã, me dá a bênção!
-Irmã, posso beijar a cruz?
As freiras despertavam curiosidades. Era comum vê-las, apressadas, em grupos de dez ou doze, descendo a rua Araújo Leite, rodeadas por crianças que corriam em torno, gritando, beijando sua mãos, beijando os crusifixos que elas traziam no peito. A cena fazia parte do cotidiano de Bauru. Elas iam à missa na acanhada Capela de Nossa Senhora Aparecida, hoje imponente igreja. Na capela, as crianças tinham aulas de catecismo, dadas por Vitória Vianello sob orientação das freiras.

O Brasil vivia uma espécie de período de mutação, com declínio da economia cafeeira – que explodira em 1929 -, a perda de influência das oligarquias tradicionais e uma industrialização incipiente que favorecia o fortalecimento de uma classe operária urbana, que demonstrava força. Momento em que a classe média se solidificava, formada por comerciantes, funcionários públicos, classes liberais e intelectuais e uma pequena burguesia. Uma classe que exigia ensino.

Nomeado presidente com a Revolução de 1930, Getúlio Vargas criou o Ministério da Educação e as secretarias estaduais de Educação. Em 1932, tinha sido lançado o Manifesto dos pioneiros da educação nova: a reconstrução educacional do Brasil, denunciando a ausência de um programa educacional amplo, uno e sequencial. A Constituição de 1934 inclui um capítulo sobre a educação. Foi a primeira a fazê-lo, determinando que era um direito de todos, e o ensino integral, obrigatório. Entre 1936 e 1951, o mundo passou por grandes mudanças. Nesse periodo, acontece transformação fundamental na economia brasileira, que abandona o modelo agrário, passando para o industrial.**

Enquanto isso, em Piraquara, a jovem Itália Sbrissa cursava o primário no Grupo Escolar Manuel Eufrásio, preparando-se para o secundário, que faria em Cafelândia, no Colégio do Sagrado Coração de Jesus. Lentamente, ela se aproximava das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, em cujo instituto ingressaria aos dezesseis anos, em 1936.

Naquele ano, foi construída a primeira parte do Externato São José, que dava frente a rua Antônio Alves. As freiras deixaram a casa da rua Rui Barbosa, instalando-se no colégio. A essa altura, o estabelecimento era dirigido pela irmã Clara Milani, que entre outras coisas incentivou a formação de uma Associação Atlética Feminina, um avanço na época.

Getúlio Vargas instalou o Estado Novo, em 1937, totalitário, cheio de ambiguidades. O ‘direito à educação’ desapareceu da Constituição. Reformou-se o ensino secundário, com aumento na carga de humanas, e introduziram-se nos currículos História do Brasil, Geografia do Brasil e Latim, regulamentando-se o ensino profissional e o normal. Em 1939, o mundo se viu mergulhado na Segunda Grande Guerra, na qual o Brasil se envolveu a partir de 1942. O conflito terminou em 1945, ano também do fim do governo Vargas, substituído por Eurico Gaspar Dutra, por meio de eleições. Na Itália, em 1945, Madre Clélia Merloni foi exumada. Seu corpo foi encontrado intacto.

O Externato São José evoluiu paralelamente ao progresso da cidade, até que, no ano de 1940, foi criado o curso ginasial, reconhecido pelo governo federal em Abril de 1946. A primeira turma que concluiu o curso era composta de 54 alunos. O curso pré-normal teve início em 1945. Em 1947, uma figura que viria a ser fundamental no futuro ingressava no curso de formação profissional da Escola Normal São José. Irmã Arminda Sbrissa. A jovem tinha atravessado um largo caminho em poucos anos. Chegava a Bauru, formada em Filosofia, Pedagogia, Psicologia e Letras, licenciada em Letras Neolatinas e com graduação em Ciências Religiosas pelo Sedes Sapientæ de São Paulo (hoje PUC).

UMA IDEIA PARA O FUTURO

A Constituição de 1946 estabeleceu o ensino ministrado pelo poder público e manteve o ensino religioso nas escolas. Em 1947 foi iniciada a Campanha pela Educação de Adultos, visando erradicar o analfabetismo. Quanto a Getúlio, após um ‘exílio’ em São Borja, Rio Grande do Sul, seria reconduzido ao poder a partir de 1951, dessa vez pelo voto popular.

Em Bauru, no São José, em 1951, seguindo a reforma de ensino do ministro Capanema, passaram a funcionar os cursos científicos, para aqueles que se destinavam às áreas de exatas, e o clássico, para os que se dirigiam às de humanas. E, no dia 15 de Agosto, a Congregação das Apóstolas do Sagrado Coração apresentou ao Conselho Nacional de Educação, no Rio de Janeiro, os primeiros documentos destinados a viabilizar a criação de uma Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras – concebida alguns anos antes por Don Henrique Golland Trindade, bispo da diocese de Botucatu, e encampada por Madre Melânia Galli, provincial da congragação, que em 1949 nomeou um grupo de estudos para colocar o plano em prática. Havia tanta determinação e confiança que a provincial iniciou imediatamente os contatos para conseguir instalações para a futura faculdade, de preferência nas imediações do colégio.

Transformando-se com determinação e empenho, tornava-se corpo o embrião da Fafil. Uma faculdade pioneira.

Alunos da Escola de Música, anexa ao Colégio São José, na década de 30. Mais tarde a escola tornou-se o Conservatório Musical Pio XII, que em 1963 incorporou-se à Fafil.

Alunos da Escola de Música, anexa ao Colégio São José, na década de 30. Mais tarde a escola tornou-se o Conservatório Musical Pio XII, que em 1963 incorporou-se à Fafil.

A FAFIL ERGUE-SE TIJOLO A TIJOLO

Ao entrar no Colégio São José, naquela tarde de 4 de Janeiro de 1954, Marilda Maria não podia imaginar que estava ao mesmo tempo, penetrando na história. Ela cumpria um ritual dos mais comuns: inscrever-se para os vestibulares de uma faculadade recém-fundada. Claro que se via dominada pela exitação, afinal era a primeira Faculdade de Filosofia de Bauru, da região, do interior do estado. Era uma grande mudança, num momento em que o mundo via muitas delas acontecerem. Os anos 50 marcaram uma série de transformações, algumas das quais afetaram diretamente a juventude. Uma delas, a explosão do rock, um gênero de música vibrante, diferente, contestatório. A linguagem de tudo começava a sofrer mutação. Falava-se em juventude transviada, em nova moral, a televisão tinha chegado ao Brasil, divulgava-se o nacionalismo como ideologia, São Paulo completava quatrocentos anos, iniciava-se a era do plástico, do long-play. O Brasil agitava-se politicamente, com a oposição combatendo intransigente o governo de Getúlio Vargas, luta que terminaria em agosto com o suicídio do presidente.

Aquela jovem, Marilda, que assinava a ficha para o vestibular, era a resposta a um trabalho iniciado três anos antes. Ou, se pensarmos no embrião da idéia, cinco anos antes. Retornemos, por um breve instante, a setembro de 1951. Há um clima de mistura de ansiedade e alegria. As irmãs pensam na reunião que vai acontecer para deliberar sobre uma decisão essencial. Todos sabem. A partir dessa decisão a vida vai mudar no Colégio São José. Algumas se indagam, porque a dúvida é peculiar ao ser humano, se o passo a ser dado não ultrapassa a capacidade das pernas. A inquietação desaparece rapidamente, sufocada por um olhar dirigido ao futuro, alimentado pelo sonho, sustentado por uma idéia. Nãu uma vaga idéia, um pensamanto volátil, desses que surgem espontaneamente. O que se tinha em mente era sólido, pioneiro e praticamente revolucionário para aquele momento, numa cidade do interior: fundar uma faculdade de filosofia. Partia-se da ‘angustiante realidade sociocultural de Bauru e região: o ensino médio oficial e particular do interior, em contínua ascensão; a situação precária do magistério, em número e qualidade’, segundo registraram, mais tarde, os anais do Jubileu de Prata da Fafil. Paradoxalmente, enquanto as escolas superiores exigiam profissionais de nível para o corpo docente, as instituições que os formavam eram poucas e deficientes. Havia, além de tudo, um conceito: o de ‘oferecer aos jovens um foco de cultura humana, impregnado de espírito cristão, tendo em vista seu próprio aperfeiçoamento para melhorar o desempenho de sua missão na sociedade’.

A posição geográfica de Bauru favorecia a criação de uma faculdade destinada a servir vasta região. Desde o início pensou-se grande. A idéia extrapolava os limites da cidade. O que tinha sido uma sugestão para estudos, feita pelo Bispo Don Trindade, em 1949, desenvolveu-se nas mãos da irmã Clara Milani, diretora do Colégio São José em 1950, e explodiu nas mãos da Irmã Arminda Sbrissa, que na época residia em São Paulo e era secretária provincial, depois de ter passado, como professora, pela Escola Normal do Sagrado Coração de Jesus de Cafelândia. Foi ela quem começou a unir as peças jogo, que era mais do que um quebra-cabeça. Não se tratava de simples encaixe de peças. Muitas delas teriam de ser desenhadas, criadas, inventadas. Era necessário, antes de tudo, obter o máximo de informações sobre estruturas e funcionamento, papéis e andamento das questões burocráticas de uma faculdade de filosofia, ciências e letras.

SE A LUTA É DURA, MAIS BELA SERÁ A VITÓRIA

Em 1952, Irmã Arminda passou uma temporada na Itália, onde frequentou cursos no Instituto Superior de Magistério Maria Assunta, na Universidade Cattolica Del Sacro Cuore e na Scuola Magistrale Parrificata Giovannin Sameria. Adquiria know-how junto a instituições internacionais, sempre pensando de que modo dar contorno às melhores coisas dentro de um ambiente brasileiro. Depois, no Brasil, ela gastou milhares de horas de um gabinete pra outro, de secretarias para antigo Conselho Nacional de Educação, bateu em portas, sentou-se interminavelmente em salas de espera, escreveu cartas, ofícios, telefonou, pediu, consultou, solicitou, ajuda de políticos, autoridades eclesiásticas. Moveu, literalmente, terra e céus, amparada pelas palavras de Madré Clélia Merloni: ‘Coragem, a luta é dura, mas será tanto mais bela e consoladora a vitória. Confiem plenamente em Deus, convencidas de que sem Ele nada podem fazer…’. Irmã Arminda Sbrissa ‘assemelhava-se ao homem prudente que editificou sua casa sobre a rocha’, definiu-a o Professor Aníbal Campi.

Ao mesmo tempo, em Bauru, Irmã Clara Milani fazia gestões complexas que geraram debates na imprensa, dividindo a população. O melhor local para a futura faculdade seria o prédio do Grupo Escolar Rodrigues de Abreu, que ocupava metade da quadra onde se localizava o São José. Um ponto central, de fácil acesso. As negociações teriam de ser feitas com o estado, por meio da Secretaria de Educação. Ofícios, sugestões, negativas, entraves burocraticos, papéis parados em gabinetes, assinaturas, pareceres.

E assim, com todos os dados necessários, informações e questões a serem discutidas, reuniram-se em Bauru, no dia 5 de setembro de 1951 as Apóstolas do Sagrado Coração que já trabalhavam no colégio e elementos do governo provincial da ordem. Decidiu-se que a faculdade seria anexa ao colégio. Confiava-se na solução da questão do Rodrigues de Abreu. Todavia, ao lado dos entraves oficiais, corria na sociedade bauruense uma divisão maniqueísta: os que estavam a favor e os que estavam contra a instalação da faculdade, pensando na questão argumentos ideológicos, religiosos e financeiros e até mesmo políticos. O assunto empolgava as conversas de cafés e bares, ganhava a imprensa, penetrava nas casas, a cidade se agitava. O pedido de abertura da faculdade (nº 83.425/51) foi encaminhado ao Conselho Nacional de Educação. Finalmente, a decisão quanto ao prédio. Seria efetuada uma permuta. O estado cederia e instalações, o colégio construiria um outro grupo escolar. O que foi feito na rua Duque de Caxias. Nesse meio tempo, em 1952, Irmã Clara Milani foi transferida, vindo para o seu lugar Irmã Ângela Miqueletto. E a espera continuou, mas os preparativos não. A confiança era total. De São Paulo, Irmã Arminda, incansável, não apenas batalhava nos bastidores, como ainda enviava palavras de estímulo, amparando, aconselhando, recomendando.

Finalmente, 1953, no dia 23 de Março, 31 anos depois da fundação do Colégio São José, uma notícia trouxe injeção de ânimo que movimentou toda a comunidade. O inspetor verificador José Alves da Silva, visitou Bauru para analisar instalações e equipamentos. Mesmo sendo tudo ainda muito simples, quase humilde, estava dentro das exigências legais. O verificador aprovou, só que agora era preciso que um elemento da mantenedora fosse nomeado para acompanhar os trâmites do precesso, apressando o andamento.

Os fatos apontaram naturalmente para Irmã Arminda Sbrissa, que possuía experiência, conhecia o caminho das pedras, tinhas os contatos, sabia quem era quem. E, a 8 de Maio daquele ano, ela foi nomeada diretora da faculdade, mudando-se para Bauru. Onde, todavia, não parou. Foram incontáveis viagens de trem para São Paulo e Rio de Janeiro. Noites insones nos leitos chacoalhantes ou nos bancos duros (ainda que da primeira classe) dos vagões da Paulista e da Central (esta, célebre pelos atrasos monumentais). Muitas vezes, era chegar, olhar o andamento, consultar, receber instruções, apanhar novos papéis e retornar.

VITÓRIA DA PACIÊNCIA E PERSEVERANÇA

Enfim, a 20 de Outubro de 1953, todos respiraram aliviados. Sabendo que era breve pausa de repouso, a tarefa seria imensa dali pra frente. Pelo decreto nº34.291, o presidente Getúlio Vargas, por intermédio do Ministro da Educação Antônio Balbino, autorizou o ‘funcionamento dos cursos de Geografia e História, Letras Neolatinas e Pedagogia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Sagrado Coração de Jesus’. Publicado no Diário Oficial de 4 de Novembro, página 7.056, o decreto faz parte da história da cidade. Era, no segmento, a primeira faculdade ‘caipira’ do estado de São Paulo. Dois memes depois, entre 1º e 20 de Janeiro de 1954, foram abertas as inscrições para os exames vestibulares, realizados, sob inspeção do Professor Antônio Serralvo Sobrinho, entre os dias 18 e 24 de Fevereiro, com uma segunda convocação para completar vagas entre os dias 10 e 12 de Março. Concorreram 85 candidatos, 74 se apresentaram e foram aprovados 59.

Ponto culminante, assim descrito pelo Padre Leopoldo Van Liempt: ‘Durante três anos, foram as irmãs que não esmoreceram debaixo do peso das démarches sem resultado visível, das esperas enervantes, sem fim, dos contratempos sem conta que marcaram com o sina-da-cruz e empreendimento que sobre si quiseram tomar. O reconhecimento oficial da faculdade e a autorização governamental para o seu funcionamento são legítimas vitórias da paciência e perseverança dessas nossas abnegadas irmãs. A elas o mérito de ter realizado a obra de Deus.’

Irmã Arminda Sbrissia convocou a primeira reunião do Conselho Técnico Administrativo(CTA) para o dia 2 de Março de 1954. Nove e meia da manhã começaram as discussões sobre a segunda chamada para o vestibular, os horários de funcionamento, a programação da inauguração, os programas para os cursos, a remuneração para os professores (Cr$ 200,00 por aula) e a decisão de publicar anúncios em todos os jornais da cidade, informando que a Fafil seria para ambos os sexos. Até então, numa sociedade de limites estreitos para a mulher, eram raras as alunas que deixavam a cidade para estudar fora. E as que permaneciam e desejavam continuar tinham a opção apenas do curso normal, poderiam ser professoras primárias. Desta maneira, a Fafil surgia numa década em que aconteceriam profundas alterações em relação ao papel da mulher na sociedade.

Antigo Campus da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Sagrado Coração de Jesus e o Colégio São José, década de 50.

Antigo Campus da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Sagrado Coração de Jesus e o Colégio São José, década de 50.

GENERALIZAR A ALTA CULTURA DO BRASIL

Portanto, quando da abertura oficial da Faculdade, na noite de 7 de Março de 1954, dia de Santo Tomás de Aquino, patrono dos filósofos, a instituição já estava funcionando. Aquela noite entrou para a história de Bauru, nas mesmas proporções e importância que teve a abertura da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, 48 anos antes. Se esta tivera (e tinha) o significado de impulsionadora do desenvolvimento econômico, a Fafil simbolizava o avanço intelectual e igualmente o pioneirismo. Iniciava-se as atividades de uma entidade que tinha como finalidade imediata e fundamental formar candidatos ao exercício dos magistérios secundários e normal.

Voltando-se para o presente, o Colégio São José continua sendo dirigido pelas Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus. Para as Irmãs, educar é crer no Evangelho como fundamento e no homem como ser criado à imagem e semelhança de Deus. Assim sendo, voltado ao princípio ‘do amor ao próximo’, o projeto educativo do colégio centra-se principalmente no incentivo à vivência de valores morais e éticos, como: cooperação, respeito e solidariedade. O Colégio tem por objetivo a realização plena do aluno como pessoa – Seja na iniciativa, na responsabilidade, na vida espiritual e, sobretudo, no compromisso com a comunidade.

Para os educadores do Colégio São José, mais importante que falar é permitir ao educando pronunciar-se. Por isso, o Colégio oferece um ensino de qualidade, dinâmico, com uma variada gama de oportunidades para que o aluno experimente as teorias na prática.

Enfim, forma o aluno em todas as suas dimensões: espiritual, moral, intelectual, afetiva, social e cívica, articulando essa formação às exigências do mundo atual, buscando o equilíbrio entre formação acadêmica (competência, conhecimento, polivalência, agilidade) e formação humana (características pessoais de hábitos, atitudes e valores como: disciplina, tolerância, solidariedade, respeito, cooperação, paz etc).

 

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