O Automóvel Clube de Bauru: passado certo e futuro incerto

O Automóvel Clube de Bauru é uma das dez maravilhas de Bauru, conforme o Vivendo Bauru quer eleger dentre todas as demais da cidade.

O Automóvel Clube sem dúvida está na lista e há motivos para isso.

Tendo como um de seus objetivos resgatar a história de Bauru e todos seus equipamentos, especialmente os tradicionais, aqueles que os próprios bauruenses consideram como parte de sua história, a editoria do Vivendo Bauru quer saber quais são as 10 maravilhas de Bauru e sugere o Automóvel Clube, como uma delas.

Nesse contexto, entra o Automóvel Clube de Bauru que, ao que se tem conhecimento, foi fundado em 1938 e com objetivo de servir de espaço para reunião da alta classe bauruense. A conclusão da obra se deu em 1.940, quando ficou à disposição dos então associados.

Suas grandes colunas, a arquitetura no estilo romano e a fachada branca tornaram-no um dos prédios mais belos e admirados da cidade, tanto que chegou a ser chamado de Palácio Encantado.

O Automóvel clube foi palco de acontecimentos importantes, como recepções aos presidentes do Paraguai, da Bolívia e do Brasil (Geisel). Além disso, o prédio recebeu muitas festas promovidas para debutantes, para a alta sociedade e até mesmo eventos carnavalescos.

O Palácio Encantado foi tombado como patrimônio histórico municipal em 28 de agosto de 2001.

fc52 (1)Seu funcionamento se deu a partir da década de 1.941, em tempos em que a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil dava movimentação não só à nossa cidade, como a toda uma ampla região que ia de Bauru até a Bolívia.

Naqueles tempos, era a autoridade máxima em toda a ampla região, o General Américo Marinho Lutz, homem de confiança de Getúlio Vargas, que teve a missão de promover a difícil obra que tinha como objetivo final completar a estrutura férrea já existente e juntar-se às outras duas, Companhia Paulista de Estrada de Ferro e Sorocabana do Brasil e, com as duas dar aos brasileiros a transposição leste/oeste, unindo por fim os oceanos Pacífico e Atlântico.

Sabe-se que, diante de muita gente nova chegando à nossa cidade, transitando pelas ruas que se ampliavam em número e extensão à cada dia e que, diante de tamanha pujança, houve a percepção de que equipamentos que proporcionassem lazer aos que aqui estavam eram necessários, surgiu o Automóvel Clube, que foi o clube social e de lazer dos engenheiros e de outros profissionais da chamada classe A, que atuavam a partir de nossa Estrada de Ferro e outras atividades na cidade.

Desde sua inauguração até meados dos anos 1.975, nossa equipe de xadrez treinava e jogava campeonatos no Automóvel Clube. As mais requintadas festas eram lá realizadas, quando o Bauru Tênis Clube estrava em segundo plano e só ocupando a condição de clube mais “chic” de Bauru, com o fim do Automóvel Clube.

paisagem5

Na década de 1.930, surgiram então o Rotary Club (1.938), porque havia a necessidade de elo com clubes do mundo todo, o Aeroclube de Bauru (1.939), porque pistas de pouso e decolagem eram imprescindíveis para o transporte de passageiros e de carga de forma rápida, o Hospital dos Ferroviários, para atender aquele grande número de pessoas que trabalham na companhia (construção na Bela Vista e hoje demolida), o campo de futebol do Esporte Clube Noroeste, fundado em 1.910, mas com campo definitivo a partir de 1.930, vindo o anterior a terra em razão de um incêndio e surgindo o que temos hoje, com inauguração em 23 de novembro de 1958.

Isso e muito mais que a cidade tinha necessidade e que podia contar como estrutura, quer material quer pessoal da Noroeste do Brasil, para sua construção.

fc3 (1)Foi quando e em razão de que surgiu o Automóvel Clube de Bauru (aqui com grades de proteção e já em condições de como está sendo usado hoje).

Sua edificação é de autor desconhecido, mas se enquadra perfeitamente nos estilos arquitetônicos da época. Parte das edificações do movimento eclético retrata bem o desenvolvimento da cidade devido às estações férreas e a produção do café.

Esta importante construção data das primeiras décadas do século passado; sua magnitude apresenta-se na fachada por quatro colunas em estilo neoclássico e nas estruturas ao centro. É um dos poucos edifícios que tenta preservar tanto a parte exterior quanto a interior que se adéqua quanto às atividades lúdicas que o refletem, como a prática e treinos de instrumentos musicais da Orquestra e Banda Municipal.

automovel_clube_fica_na_praca_rui_barbosa_no_centro_de_bauru_1O que se tem conhecimento, de fato, é que o prédio é imponente, situado em frente à Praça Rui Barbosa e de cuja sacada (conforme foto), tem-se toda vista, chegando à Catedral do Divino Espírito Santo.

O clube sofreu algumas mutações na década de 1.970, quando foi palco de festas memoráveis, quando estava presidente o economista Antonio Eufrásio de Toledo Filho e junto a um grupo de entusiastas, promovendo a reforma necessária (o clube estava em vias de ruir – estaqueado por eucaliptos) e com acompanhamento pelo arquiteto Jurandyr Bueno Filho promoveu algumas modificações e algumas adequações que estão até hoje servindo a quem dele faz uso.

O time assumiu o clube depois de perder uma eleição no Bauru Tênis Club, de diretorias tradicionais e de um conselho diretor que não queria mudanças no comando.

Algumas mudanças foram promovidas em seu espaço interno, entrando no cardápio de ofertas aos frequentadores um sofisticado restaurante, uma boate e o clube de jogos, aos fundos, que reunia os adeptos do carteado.

Mas era no salão de festas que ocorriam os principais eventos e a procura por mesas (não havia venda de convites) – eram super concorridos.

Uma nova alta sociedade surgiu a partir do Automóvel Clube e pelo menos por um período, era naquele espaço requintado que as festas inesquecíveis ocorriam.

Não poucas vezes foram promovidos desfiles de moda, sob a batuta de Paulo Medina, para atender proposta de Christine Youfon, que mantinha presença constante em nossa cidade e onde promovia cursos de etiqueta, conjugando com moda, dado o alto conhecimento de Medina na área e seu relacionamento com os grandes nomes da moda em nível nacional.

O carnaval de rua de Bauru transcorria de forma muito participada e a diretoria do clube ousou em colocar seu bloco no desfile, saindo com um carro alegórico altamente sofisticado, tendo em sua parte mais alta a miss (inesquecível), Maria Aparecida Santana, que e sem medo de errar, foi quando o glamour mais elogiado desfilou em nosso carnaval popular.

A animar os sócios do clube, quando então já contava com número considerável, entrou uma bateria composta por verdadeiros adeptos do samba, que frequentavam a badalava boate (sob as escadas), espaço onde se curtia o samba de roda, que então surgia com muita força.

1807_banda_municipal1Hoje o nosso Automóvel Clube de Bauru abriga a nossas Orquestra Sinfônica e Banda Municipal, depois que teve papel marcante na história social de Bauru.

É preciso ter uma narrativa de como se davam as festas nos idos de 1.940, 50 e mesmo no início dos anos 60, quando o clube entrava na vida social de Bauru como palco de memoráveis encontros, que contaram com os que chegavam para a construção de nossa estrada de ferro, muitos vindos do Rio de Janeiro e misturando-se aos bauruenses tradicionais, que se dividiam, então, entre o Bauru Tênis Clube e o glamouroso Automóvel Clube, para sua intensa vida social.

Sua imponência está aí para que jamais seja esquecida sua importância na história de festas e cultura de nossa Bauru.

(*) Renato Cardoso, o autor, é jornalista, publicitário e bacharel em direito.