Lucius de Mello lança livro em São Paulo em alto estilo

Beatriz Segall participa de leitura de passagens do livro de Lucius em evento cultural, realizado em São Paulo.

Foto de Luly ZontaA atriz Beatriz Segall, aos 90 anos, leu passagens do livro A Travessia da terra vermelha – uma saga dos refugiados judeus no Brasil – do pesquisador da USP e escritor Lucius de Mello. Beatriz Segall foi casada com Maurício Segall, filho do pintor judeu lituano Lassar Segall durante mais de cinquenta anos, com quem teve 3 filhos.

E foi justamente por sua ligação com a cultura judaica que ela aceitou ler trechos desse livro que resgata a história de famílias judias salvas do nazi-facismo por um plano espetacular:

A vinda das famílias judias para o Brasil só foi possível por causa da construção da Ferrovia São Paulo-Paraná – que ligava a capital paulista até Londrina. Os judeus compravam ferro alemão para a obra, na época, tocada pelos ingleses e aqui no Brasil eram ressarcidos dos valores com um vale-terra que lhes garantiam a posse de grandes glebas de terras no Paraná.

Mariane Khapan e Angelica Rosenthal – filhas de refugiados judeus que se abrigaram em Rolandia no Parana (foto de Luly Zonta)Os refugiados transformaram o sertão paranaense num sertão ilustrado. Trouxeram com eles acervos de valor inestimável, com bibliotecas inteiras, livros raros, obras de arte e instrumentos musicais. Eram cientistas, botânicos, agrônomos, médicos, cantores líricos, juristas e um ex-ministro da República de Weimar.
Muitas curiosidades e histórias intrigantes estão no livro da soprano que dava concertos líricos na fazenda; a física que se correspondia com um cientista da equipe de Albert Einstein; a família que se tornou amiga do pintor brasileiro Candido Portinari e ganhou do artista quatro óleos sobre a tela. O livro publica cartas trocadas entre o pintor e os amigos judeus de Rolândia.

E, por ironia do destino, as famílias judias acabaram vizinhas de alemães nazistas ali mesmo em Rolândia. O livro publica cartazes de propaganda antissemita e fotos até então inéditas em todo mundo das festas hitleristas realizadas em Rolândia.

O pesquisador Lucius de Mello dedicou quatro anos a essa história fascinante que conta a história de 80 famílias alemãs judias e cristãs que fugindo da perseguição nazista vieram parar no interior do Paraná.

Lucius de Mello é mestre em Letras pela USP e pesquisador e membro da equipe da professora Maria Luiza Tucci Carneiro, do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER) e do Arquivo Virtual sobre Holocausto e Antissemitismo (AROSHOAH), ambos da USP.

A pesquisa envolveu viagens pra Alemanha, visitas periódicas ao arquivo público do Estado do Paraná e dezenas de entrevistas com famílias de descendentes de judeus alemães na região.

Na apresentação do livro, feita por Tucci Carneiro, ela diz: “Nessa trama, o autor visualiza a tensão que marcou as múltiplas comunidades alemãs radicadas em Rolândia: nazistas versus católicos e judeus refugiados, protagonistas de uma mesma história”. Também estiveram no lançamento na livraria cultura na avenida Paulista – o diretor de cinema francês Philippe Costantini, o jornalista Paulo Henrique Amorim e esposa Geórgia Pinheiro (foto acima), a cantora Cida Moreira (foto ao lado) e os descendentes dos refugiados judeus de Rolândia.

Confira entrevista exclusiva com o autor e pesquisador:

Vivendo Bauru: Nessa nova vida em Rolândia, houve perseguição aos judeus alemães?
Lucius de Mello: Existia um clima de tensão no ar. A violência psicológica foi inevitável. Mas violência física contra os judeus não houve. Pelo menos não constatei na minha pesquisa. Além das festas nazistas com a suástica pendurada nas arvores brasileiras encontrei cartazes que diziam “morte aos judeus” que eram distribuídos naquela região do Paraná.

Vivendo Bauru: Qual foi a grande surpresa que você encontrou nessa pesquisa?
Lucius de Mello: Ao longo da minha pesquisa no Brasil e na Alemanha fui surpreendido várias vezes. As maiores surpresas foram as fotos das festas nazistas. São fotos inéditas. Consegui com descendentes dos pioneiros alemães em Rolândia. As histórias de vida dos judeus também me surpreenderam muito.

Especialmente a da física Agathe Flemig, que recebia cartas com notícias desenvolvidas pela equipe de Albert Einstein em Princeton, nos Estados Unidos; a história da cantora lírica que realizava concertos num teatro improvisado na mata; a amizade entre uma família judia e o pintor brasileiro Candido Portinari – o artista presenteou os amidos judeus com 4 óleos sobre tela ;e a grande operação comercial que acabou fazendo da ferrovia brasileira a salvadora desse grupo de judeus livrando-os dos campos de concentração e do extermínio criminosamente propagado pelos nazistas. Não podemos esquecer que o Holocausto foi um fenômeno político e um crime contra toda a humanidade.

Abaixo, Joao Paulo Schauff – neto de Yohannes Schauff – deputado da Republica de Weimar idealizador do plano de fuga dos judeus alemães para Rolândia. Foto de Luly Zonta.

Vivendo Bauru: Qual a relação que você pode fazer dessa história com a atual perseguição de refugiados no mundo?
Lucius de Mello: Hoje, para as autoridades dos países de destino, os refugiados são considerados como “grupos de risco”, pois colocam em perigo a economia, a composição étnica da população e a segurança nacional abaladas pelo terrorismo. Desta vez, os refugiados não são judeus como aconteceu em 1933-1945 sob a ocupação nazista, e sim cidadãos que fogem das violências perpetradas pelos regimes ditatoriais, principalmente, no caso dos sírios. Eles querem entrar na Europa; enquanto os judeus expulsos pelos hitleristas,queriam sair da Europa.

Como bem afirmou a pesquisadora Maria Luiza Tucci Carneiro, “tradicionais estereótipos racistas e de discriminação são ainda hoje acionados pelas autoridades, que não aprenderam a lidar com as diferenças e a expressar solidariedade, valores tão caros aos Direitos Humanos. Portanto, os estudos sobre a Diáspora Judaica no século 20 podem ajudar a encontrar novas formas institucionais (leia-se ações políticas humanitárias) que ofereçam soluções efetivas para estes “novos atores coletivos transnacionais num mundo globalizado”, como muito bem sugeriu Bernardo Sorj em seu artigo Diáspora, Judaísmo e Teoria Social. “

Ainda segundo Maria Luiza, “este cenário dramático repete políticas intolerantes, cenas e emoções (guardadas as suas dimensões) vivenciadas pelos judeus refugiados do nazismo que, entre 1933-1950, vagaram por vários países da Europa sem rumo certo, sem expectativas de vida e sem documentos. Essas duas situações – dos sobreviventes do Holocausto e dos refugiados hoje – nos preocupam tendo em vista as lições do passado. São fenômenos que guardam suas singularidades considerando-se as diferenças entre os regimes totalitários e os processos de globalização/transnacionalização que interferem nos movimentos de massa deste século 21.”

Vivendo Bauru: O Brasil ainda é um país acolhedor para os refugiados?
Lucius de Mello: Acredito que hoje, ao contrário do que na época da segunda guerra, o Brasil é bem mais aberto aos refugiados. O Governo Getulista barrou a entrada de milhares de refugiados judeus através das circulares secretas – cartas que determinavam que os embaixadores brasileiros na Europa negassem os vistos de entrada no Brasil às famílias judias.

Já atualmente, de acordo com o relatório de 2016 do Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), órgão ligado ao Ministério da Justiça, o Brasil tem recebido grande leva de famílias deslocadas a força de sua terra natal por conflitos e perseguições ; No ano passado, as solicitações de refúgio cresceram 2.868% nos últimos cinco anos . Passaram de 966, em 2010, para 28.670, em 2015. Até 2010, haviam sido reconhecidos 3.904 refugiados. Em abril deste ano, o total chegou a 8.863, o que representa aumento de 127% no acumulado de refugiados reconhecidos, incluindo reassentados.

O relatório mostra que os sírios formam a maior comunidade de refugiados reconhecidos no Brasil. Eles somam 2.298, e são seguidos pelos angolanos (1.420), colombianos (1.100), congoleses (968) e palestinos (376). Ao todo são 79 nacionalidades presentes no Brasil.

O evento de lançamento do livro em São Paulo

Serviço:
Livro: A Travessia da Terra Vermelha – Uma saga dos refugiados judeus no Brasil
Autor: Lucius de Mello
Companhia Editora Nacional
Páginas: 352
Preço: R$ 46,90

Mais informações na Assessoria de Imprensa da Companhia Editora Nacional com o jornalista Luís Fernando Guidi- MTB 55.723 / e-mail: press@ibep-nacional.com.br / Tel: (11) 2799-7799 ramal 1275 / Cel: (11) 9 9889-5831.

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