Entrevista com Leivinha, do Festival de Águas Claras

Vivendo Bauru: Leivinha, qual seu nome verdadeiro apenas para constar, já que você é mais conhecido que o Raul Seixas por conta do festival (risos).
Leivinha: Meu nome é Antonio Checchin Junior, provinha foi por conta da semelhança física e esse apelido nasceu em Lins, logo após o Leivinha ir para a Portuguesa. Eu treinei no Linense.
Foto do festival, vendo-se Raul Seixas, Wanderléa e LeivinhaVivendo Bauru: Você é de Iacanga ou caiu por acaso, daí a oportunidade de promover o festival que ficou para a história?
Leivinha: Minha família é de Iacanga, mas eu nasci em Bauru (Beneficência). A fazenda era de meu pai.

Vivendo Bauru: Conta qual foi sua maior dificuldade na promoção do evento. Esperava tanta gente participando?
Leivinha: A maior dificuldade era patrocínio, as pessoas não entendiam a proposta. E também a autorização para realizar o evento.

Vivendo Bauru: E durante o festival, mais trabalhava ou curtia com a moçada aqueles momentos únicos?
Leivinha: Nem assistia o festival mas curtia mesmo assim.

Vivendo Bauru: Como foi o contato com os artistas? Eles aceitaram de pronto o convite ou teve essa coisa de contratos de compromisso e mais garantias que exigem tanto hoje em dia?
Leivinha: A aceitação era ótima, tínhamos contratos sim mas também não admitíamos exigências absurdas, foi tudo numa muito boa.

Vivendo Bauru: Qual foi o momento mais emocionante ao ver a diversidade de pessoas e todos num único clima de festa e animação?
Leivinha: Na verdade a gente já esperava o astral, a equipe toda era alto astral. Assim era uma questão só de transferência de clima

Vivendo Bauru:
Acha alguma lembrança do festival com o Rock In Rio. Algo semelhante em algum aspecto?
Leivinha:
O Rock in Rio é um evento bom e necessário, mas nada tem a ver com Águas Claras. Primeiro porque Águas Claras foi realizado em uma fazenda distante mais de 400 km de um grande centro e principalmente porque Águas Claras foi realizado , como você já disse, num momento especialíssimo da vida brasileira e depois o “cast” era todo nacional e da melhor estirpe.

Vivendo Bauru: Fala como foi conduzir o Raul Seixas com sua irreverência, tendo que cumprir a agenda. Foi o que mais deu trabalho (no bom sentido)?
Leivinha: Pois é, você perguntou sobre “Palhaço” de Egberto em festival de rock e eu lhe respondi dizendo que ele não era exceção. Tem umas coisas sobre o comportamento dos artista que acredito não serem muito éticas falar. Raul nunca me deu trabalho. Coisas aconteciam mas eram solucionadas rapidamente.

Vivendo Bauru: E o João Gilberto? Que foi que deu para concordar em cantar no tempo e olha que a noite não estava para lua cheia não?
Leivinha: Na verdade João foi uma coisa de energia, ele topou na primeira e veja que para gravar o comercial com a Band ele deu um baile por causa da brisa da madrugada eheh.

Vivendo Bauru:  Egberto Gismonte, como foi sua presença executando uma música calma (Palhaço), num ambiente de muito rock?
Leivinha: Momento lindo, porque o pessoal que agitava no festival e ajudava na segurança vestidos de palhaços, improvisou uma coreografia que emocionou muito o Egberto. Ao final, com lágrimas nos olhos, ele disse ter sido um dos momentos mágicos da vida dele

Vivendo Bauru: Ainda na organização, quais as dificuldades políticas e policiais diante do momento em que vivíamos? Falaí do Erasmo Dias.
Leivinha: Quando o delegado de Iacanga disse não, eu falei, faço de qualquer jeito. 22 anos , quem segura? Fui a SSP/SP e lá estava o Erasmo Dias, fiquei indo todos os dias das 8 até as 18, sentado numa daquelas cadeiras fantásticas, não saia nem pra almoçar. Depois de mais ou menos uns 10 dias , o cidadão mandou um policial vir falar comigo, porque eu não saia e ia lá todo dia e aí eu disse: vou repetir: eu quero falar com o secretário que é quem manda, pra liberar uma festinha que estou fazendo e o delegado da cidade disse não, é coisa assim pra duas mil pessoas . Ai ele foi falar com o Erasmo e voltou mandando eu retornar no dia seguinte. Cheguei lá me levaram pra uma sala, estava Erasmo, tuma, Tácito de Melo (superintendente da federal) – o Tuma era subordinado a ele, Fleury. Aí ele me fez perguntas às quais respondi evasivamente, e me mandou ao DEOPS. Lá chegando me deram um documento para assinar, o qual prontamente assinei. Aí o delegado Silvio Pereira perguntou: você assinou sem ler, eu respondi, se ler eu não assino e não faço o festival e se tudo que era ai acontecer mesmo que eu não assine. Eu vou preso mesmo, então já estamos resolvidos e vamos fazer esse festa.

Vivendo Bauru: E a nudez, como conseguia conduzir aquilo tudo ou ficou como coisa natural?
Leivinha: A nudez da grande maioria era espontânea e natural. Somente alguns excessos na frente do palco é que procurávamos contornar, mas a nudez dava- se praticamente nos banhos.

Vivendo BauruComo se dava a alimentação para o pessoal? Havia barracas com pessoas comercializando ou tudo era feito de forma compartilhada e um querendo paz e amor junto aos demais?
Leivinha: A alimentação era feita das duas formas: tínhamos barracas comercializando bebidas, comidas e outros e tinha também o sistema compartilhado, um ajudando o outro.

Vivendo Bauru– Conta como está hoje, onde mora, o que faz e o que mais todos queremos saber a seu respeito.
Leivinha: Hoje sou advogado, dono de um restaurante e uma pousada em Chapada dos Guimarães , MT. Tenho 4 filhos e sou avo de 6 netos. Continuo um grande sonhador e incentivador da cultura. Por conta disso fui agraciado com um Título de Cidadão Cuiabano.

Vivendo Bauru: Vamos para mais um festival? Em Brotas um povo lá ensaiou mas não deu em nada. Hoje seria bem mais difícil realizar um igual ao realizado em Iacanga?
Leivinha: Cada tempo é seu tempo. Não consigo imaginar voltando no tempo e vivendo outra vida. Olhando pra trás, faria sim porque Águas Claras foi e é importante para muita gente . Agora, hoje, não sei se teria pique para repetir. O pessoal esteve falando comigo, insisti para que fizessem em Iacanga mas queriam Brotas por uma questão de logística, mas percebi que não seria fácil. O festival para acontecer não pode esperar para começar, de apoio estatal. O cara que quiser fazer tem primeiro que por a cara a tapa, ai ele vende a ideia. Agora, igual nunca mais, como disse a vc , cada tempo tem seu tempo.

Vivendo Bauru: Algo mais a dizer?
Leivinha: Hoje sou advogado, dono de um restaurante e uma pousada em Chapada dos Guimarães , MT., tenho 3 filhos e sou avo de 6 netos.continuo um grande sonhador e incentivador da cultura. Por conta disso fui agraciado com um Título de Cidadão Cuiabano.

* Entrevista concedida a Renato Cardoso, que é jornalista.

* Quer um resgate do Festival de Águas Claras? Clique aqui.

One Comment