Festival de Águas Claras: eu fui!

Quando menos se espera já se foram dez anos. Quando se olha pra trás, passaram-se 20 anos e, quando a gente se dá conta, já se foram mais de 40 anos e tudo está vivo em nossa memória.

Embalados pelo que se teve notícia a partir de Woodstock, nos Estados Unidos, jovens à frente de seu tempo decidiram promover uma edição genuinamente brasileira de um festival de rock, proposta arrojada para aqueles anos quando o chumbo imperava, em razão da revolução político-militar em curso.

O ano era de 1.975 e por muita determinação foi levada à primeira edição. Depois vieram outras, em 1981, 1983 e 1985, na fazenda Águas Claras, em Iacanga/SP.

O primeiro foi considerado “o maior festival de música brasileira a céu aberto”. Foram verdadeiros woodstocks tupiniquins, e até hoje os jovens cinquentões, sessentões e até mesmo setentões querem de novo viver aquela emoção, aliás fortes emoções com mescla de quebra de comportamento considerado politicamente correto.

A forte inspiração que chegou, vinda de Woodstock, provocou em uma nostálgica legião de jovens a aventurar-se nos festivais de Águas Claras, sendo alguns hippies e outros nem tanto. E ouviram de Raul Seixas a João Gilberto, numa comunhão movida a música e liberdade. Raul Seixas de fato simbolizava o movimento e mais por sua irreverência, enquanto João Gilberto merecia respeito, pois foi lá que, por uma única vez, se permitiu cantar a céu aberto e não se importando com a temperatura que podia promover uma quebra de tom em sua interpretação.

Woodstock

Pelos meios de comunicação da época, jovens ficaram sabendo que, entre 15 e 18 de agosto de 1.969, 500 mil jovens se reuniram numa fazenda do estado de Nova York, nos Estados Unidos. O rock tinha então pouco mais de dez anos e foi o ritmo, o gênero que motivou o Festival de Woodstock.

Aquele festival jamais igualado, simbolizava mais que a adolescência de uma vertente musical contestadora por natureza e era sim uma verdadeira comunhão. Ainda que acompanhado de perto pelo olho gordo da indústria cultural – do disco, do cinema, da literatura, da moda, da arte e do comportamento –, aquele palco entrou para a história como uma grande celebração de “paz e amor”, ao juntar estilos de Joan Baez a Santana, Ravi Shankar a The Who, Credence a Janis Joplin, Neil Young a Jimi Hendrix.

Woodstock não foi o primeiro, mas foi o maior, mais eclético e inspirador, promovendo iniciativas semelhantes pelo mundo nos anos seguintes e iriam, mesmo que não intencionalmente, remeter ao festival brasileiro, o maior de todos que se tem notícia, mesmo que hoje, com os recursos, tenhamos o Rock in Rio, que felizmente ganha proporções e se expande até mesmo para Portugal, que a cada dois anos recebe uma edição, com a marca brasileira de promover direito um evento do gênero.

O nosso festival

O Festival de Águas Claras teve uma magia, pois foi promovido no tempo exato, quando os jovens queriam aquilo mesmo, daí ser o mais lembrado. Sua primeira versão, em 1975, ocorreu na Fazenda Santa Virgínia, no município de Iacanga (SP). “Eu havia escrito uma peça de teatro e juntei um grupo musical para fazer a trilha sonora. Surgiu a ideia de encenar ao ar livre e começaram a aparecer algumas pessoas interessadas em tocar com a gente”, conta o organizador Antônio Checchin Júnior, o Leivinha. “Aí fizemos o Festival de Águas Claras, que nunca teve a intenção de ser parecido com Woodstock, mas haveria essa associação com qualquer evento que fosse feito daquele jeito.”

Leivinha, um jovem de apenas 22 anos, utilizou a fazenda do pai como ponto de encontro de 30 mil jovens do Brasil e de outros países da América do Sul para ver grupos como O Terço, Som Nosso de Cada Dia, Mutantes, já sem Rita Lee, e Moto Perpétuo, do qual fez parte Guilherme Arantes.

Hoje se pergunta: por que tanta saudade? “O público foi maravilhoso. Não tivemos uma briga nem nada que pudesse desprestigiar o festival”, lembra Leivinha. “A história do nu do pessoal acontecia na hora do banho. Só um ou outro é que tirava a roupa no meio do público, talvez por querer aparecer. Aproveitávamos o ambiente para apanhar laranja e milho, e o pessoal da fazenda fazia comida para distribuirmos.”
“Foi uma catarse coletiva e um exercício muito bonito de liberdade, numa época em que havia um anseio enorme de participação entre as pessoas e em que se provou que a causa de paz e amor bem que poderia ter dado certo”…
Ideias subversivas

Vivíamos um ambiente de ditadura, que dificultava qualquer evento que promovesse grandes reuniões. “Durante um mês e meio, eu ia praticamente todos os dias à Secretaria de Segurança tentar liberar o festival. Só consegui quando o secretário na época, o Erasmo Dias, me mandou para o Departamento de Ordem Política e Social (Dops) para assinar um termo de responsabilidade pelos atos de subversão que acontecessem”, lembra o organizador. “Depois me proibiram de fazê-lo novamente durante seis anos. Eles queriam nos prender de qualquer jeito, mas não tinham motivos, porque não era uma reunião política. Mesmo assim, levavam para o camburão quem estava andando pelado, mas a gente virava o camburão e todo mundo saía”, acrescenta Celsão, figura marcante daquela edição.

Armando Falcão, então Ministro da Justiça, emitiu um documento, guardado por Leivinha até hoje, no qual relata a visão do regime militar para a ocasião: “Durante a realização (do Festival de Iacanga), o uso de entorpecentes, bebidas alcoólicas e atos imorais foram abertamente praticados; aproveitando-se do ambiente próprio, propagadores de ideias subversivas vinculavam propagandas com as seguintes frases: ‘Viva a Mocidade Socialista’, ‘Viva Che Guevara’, ‘Viva a liberdade estudantil”.
Em setembro de 1981 aconteceu a segunda edição do evento, realizada com estrutura mais profissional, cobertura de TV e ingressos vendidos nas agências do Unibanco. Presenças de Gilberto Gil, Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, Alceu Valença, A Cor do Som, 14 Bis e Moraes Moreira. “O show do Hermeto Pascoal varou a noite toda e o Egberto Gismonti tocou Palhaço, com um grupo de palhaços fazendo a segurança e dançando na frente do palco”, destaca Leivinha.

O Brasil estava anos atrás dos movimentos mais libertários e de contracultura europeus e americanos. Fazendo um parâmetro, o romance On The Road, de Jack Kerouac, inspirador do ideário hippie, só chegou por aqui no início dos anos 80, com quase três décadas de atraso, daí ter que considerar hoje que o festival mantinha um espírito hippie tardio.
Nem por isso o nosso festival perde em magnitude e deixa de ser um marco na história daqueles jovens que curtiram o festival apenas porque tinham sede de vida, queriam experimentar o sabor da ousadia daqueles anos saudosos.

O cinegrafista bauruense Adauto Nascimento preparou um documentário com material inédito, registrado em 16 milímetros, do evento de 81, realizado em Iacanga. “O festival reuniu grandes nomes da música brasileira e as pessoas iam para viver dias de harmonia e liberdade. A maioria se emociona ao falar dele. Todos querem ver essa história contada”, disse a respeito Nascimento, um dos grandes nomes da televisão de todo o interior (veja em goo.gl/xZK5zQ):

Um documentário foi produzido por Thiago Mattar, com apoio de Leivinha. “Tem muita gente que nunca ouviu falar desses festivais, queremos mostrar que foi possível termos um festival de música nos moldes de Woodstock em plena ditadura militar”, diz o diretor. Veja o que ele comenta:

A terceira edição

Em junho de 1983 ocorreu a terceira edição, também muito eclética, contando com grandes nomes artísticos no palco, como Armandinho, Dodô e Osmar, Arthur Moreira Lima, Egberto Gismonti, Fagner, Premê (ainda Premeditando o Breque), Sandra Sá (ainda sem o “de”), Paulinho da Viola, Sá & Guarabyra, Erasmo Carlos e Wanderléa. “O Erasmo Carlos queria um Landau para chegar à fazenda. Mas ele e a Wanderléa subiram atrás de um trator e foram assim até o palco. Anos depois ele me disse: ‘Guardei aquela lama milagrosa numa caixa de fósforos’ ”, conta Leivinha.

Raul Seixas, no segundo dia de show, promoveu uma entrada que foi uma grande frustração. “Chapado”, seu show teve de ser em playback, fazendo com que parte do público ficasse irada, passando a gritar por “rock” o tempo todo e ofuscava outras apresentações. Walter Franco foi quem acalmou a moçada, entoando “tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo” como um mantra até ser seguido por toda a multidão (no link goo.gl/xZK5zQ):
O apogeu dessa edição sem dúvida foi a participação de João Gilberto: “Ele subindo num palco às 6 da manhã, com o sol nascendo, e 70 mil pessoas molhadas de chuva, na lama, cantando junto ‘isso aqui é um pouquinho de Brasil’ foi de arrepiar”, comentou o organizador Leivinha (veja como foi):

A edição de 1.984

A quarta edição, realizada em pleno carnaval de 1984, foi o de menor expressão, conforme explica o próprio organizador. “Fui meio obrigado a fazer por questão de patrocínio. Eu sabia que aquela não era a época certa para esse tipo de coisa. Depois, achei melhor parar com tudo”, lamenta.

O hoje advogado Leivinha toca flauta, pinta e planeja construir uma pousada na Chapada dos Guimarães (MT) – a fazenda Santa Virgínia foi vendida após a morte do seu pai.

(*) Renato Cardoso, o autor, é jornalista e publicitário.

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