Você pensa que conhece Júlio Furtado. Aqui ele conta tudo.

O Vivendo Bauru, sempre abrindo espaço para nossos artistas, foi até Júlio Furtado, que tem exposição à disposição do público e indagou o que segue. As perguntas e respostas estão ilustradas por obras do entrevistado.

12871486_1269336933084484_4864071331416549850_nVivendo Bauru- Julio: como foi sua infância? Já menino percebeu sua vocação pela arte?
Júlio Furtado: Minha infância foi privilegiada, em minha cidade natal, Vera Cruz, interior, com os acontecimentos mais tranquilos, muita brincadeira de rua, muito verde, muitas flores e liberdade. Uma família numerosa, muitos primos para brincar. Sou o segundo de uma prole de cinco.
Comecei brincando com o lápis de cor já no grupo escolar, acredito que no segundo ano (8 anos). Me lembro da Cartilha “Caminho Suave”, que usávamos na escola, que era todinha impressa em preto e branco, mas tinha muitos desenhos, e me lembro que eu colori todos os desenhos, pintei a cartilha toda, gostava muito disso.
Também tinha muitos livros e coleções em casa que eu adorava ficar olhando, vendo os desenhos e fotografias. Meu pai tinha a coleção completa das revistas Manchete e O Cruzeiro, minha infância foi toda colorida com essas revistas.

julioarte1Vivendo Bauru – Quando ocorreu de promover sua primeira manifestação artística?
Júlio Furtado: Como disse já comecei pintando a cartilha do grupo escolar. Um pouco mais tarde, já no ginásio, eu participava dos eventos culturais e feiras que faziam na época como atividades da escola, sempre participando com desenhos. Adorava as aulas de desenho da prof. Vilma. Tive algumas aulas de desenho com a minha prima Leda Devito, uma canhoteira que desenha muito bem e que me ensinou muita coisa, principalmente o amor pelo desenho. Ela me dava aulas no porão da casa de minha tia Olinda.
Me lembro de uma passagem, no ginásio, foi em uma das feiras realizadas na escola. Isso foi 1969/1970 em plena ditadura militar. Eu pegava as fotos das revistas que tinham em casa e tentava desenhar os artistas das novelas e coisas que via nas reportagens. Foi nessa época que vi o famoso desenho do Che Guevara, com a boina, um desenho em alto contraste que achei lindo. Comprei uma folha de papel cartão, a maior que achei na papelaria e fiz o desenho bem grande, formato em torno de (1,80 x 0,90) cm ou qualquer coisa perto disso. Me lembro bem que fiz o desenho em preto, pintei a estrela da boina e o fundo num vermelho mais vivo que consegui achar. O trabalho ficou lindo. Levei para a escola todo contente e entreguei para os professores que estavam montando tudo. Depois fui para casa e voltei para a abertura da feira. Andei por todo o prédio do ginásio a procura do meu trabalho e não o encontrei. Fiquei perguntando para todo mundo e ninguém sabia do meu trabalho. Sumiram com o meu trabalho. Ninguém me explicou nada. Fiquei frustrado.
Imagine em 1969, com perseguições e tudo mais, um garoto chegando com o Che desenhado do tamanho de um grande cartaz e com o fundo vermelho, deve ter assustado bastante os professores.

artejulio2Vivendo Bauru – Foi na música ou na plástica? Ou percebeu que tudo ocorria ao mesmo tempo?
Júlio Furtado: Tudo acontece ao mesmo tempo para mim a Arte é uma coisa só. A maneira de manifestação é que pode variar ou ser diferente. O processo é um só e a coisa toda não tem limites definidos. A música também aconteceu junto. Mais uma vez volto para essa casa que foi minha segunda, que era de minha tia Olinda e o tio Mário Devito. Ela era irmã de minha mãe. Ela era uma cozinheira muito boa e fazia doces e pães maravilhosos. Eu não saía de lá. Ela tinha 6 filhos. Aquela casa era muito musical, sempre tinha cantoria, violão, ensaio de coral, e juntava muitos amigos que faziam uma farra muito legal. Dessa casa veio a música, o desenho com minha prima Leda e também o afloramento da sensibilidade com minha tia Olinda, a alma mais brilhante que pude ter por perto em toda minha vida. Tenho muito a agradecer a essa família linda. O mais novo dos Devitos, meu primo Lupércio (chamado de Petito), tocava violão e tinha uma turma que ficava muitas vezes tocando e cantando no jardim da cidade em frente de casa. Eu ia sempre lá e ficava maravilhado com a música e todo esse clima gostoso.
Com 12 para 13 anos ganhei o meu primeiro violão dos meus pais e tive duas aulas com um dos amigos do meu primo, o Djair Jaloto Pereira, que tocava muito violão e guitarra. Ele me ensinou as primeiras posições e acordes e também a primeira música. Logo depois me mudei para Bauru e fui me virando sozinho.
Não aprendi formalmente música, não sei ler uma nota sequer até hoje. Sou intuitivo e vou aprendendo na tentativa e erro, batendo cabeça.

julioarte3Vivendo Bauru – Seus estudos, desde o início, focaram a arte? Daí ter optado por qual curso universitário?
Júlio Furtado: Um pouco antes de minha família se mudar de Vera Cruz para Bauru eu causei um curto circuito na casa de minha avó Chiquita, brincando com arame enfiado nas tomadas e a partir daí fui eleito o Engenheiro Elétrico da família. Naquela época existiam poucas alternativas que eram consideradas boas: Medicina, Engenharia e o Banco do Brasil. As demais profissões não eram consideradas boas.
Então quando me mudei para Bauru fiz o vestibular para o CTI, e passei para a primeira turma de Eletrônica e telecomunicações, em 1972. Fiz colégio e no final de 1974 prestei vestibular para a Engenharia Elétrica e passei em 37º lugar, na Fundação Educacional de Bauru (FEB).

Vivendo Bauru – Foi bom aluno?
Júlio Furtado: No CTI eu não era o melhor aluno, ficava ali um pouco acima da média. Lógico que tinha algumas matérias em que ia melhor e outras nem tanto. Não gostava de química, me virava em física e tinha as dificuldades normais com as matemáticas da vida. Mas me virava, quando precisava de nota, dava uma “ralada” e tirava o que precisava.
Na engenharia eu fui relativamente bem nos dois primeiros anos, passava na maioria das disciplinas e tomei alguns “paus” em outras. Mas foi aí que começou a acontecer o meu processo de descoberta da arte, e foi através da música.
Logo que cheguei a Bauru, no colégio, com 15 anos, comecei a tocar violão nas festinhas com os amigos. Tocava sempre que podia e tinha oportunidade.
Depois, já na faculdade, com 18 anos comecei a cantar na noite de Bauru, nos bares e casas noturnas. Cantei com o Felício, na Stalos, na Rodrigues Alves, onde funcionou o cursos Brasília, cantava seresta no Clube do Choro, Postinho e festas com os amigos. A música foi muito importante.
Ao mesmo tempo participei da turma que tocava no Ciente (boate ligada aos cursos da FEB), ali fazendo mais a parte de cartazes, pintura da boate, os materiais das festas e coisas assim.

14089470_1351820148169495_2031924879_nVivendo Bauru – Na faculdade se destacava ou a parte teórica era um entrave? Qual professora percebeu sua vocação assim de pronto?
Júlio Furtado: Não fui um ótimo aluno, eu sempre me virei e fiz a força quando foi necessário. Mas não me preocupava muito com a escola. Depois de dois anos na faculdade, em que fui um aluno razoavelmente regular, comecei a me afastar desse universo. Participava dos jogos como atleta de vários esportes e esse era o calendário para o qual me dedicava. A escola participava de vários campeonatos universitários ao longo do ano: Barretos, Lins e São Carlos, e também dos Jogos Universitários (paulista e brasileiro). E essa foi a minha vida dentro da faculdade, participar dos jogos, das atividades do Ciente, tocar violão sempre que aparecia a chance.
Depois de 2 anos na engenharia fiquei mais 4 anos praticamente fazendo a matrícula e sumindo da escola, só voltava na outra matrícula. Era música, jogos, Ciente e viajar.
Na volta de uma dessas viagens, quando cheguei em casa, meu pai estava com uma papelada em cima da mesa da sala de jantar com toda a minha vida acadêmica. O resultado não era muito animador, pois entrei na engenharia em 1975 e deveria terminar o curso em 1979, só que eu ainda estava no quarto ano e faltava mais um ano. Porém eu não estava mais frequentando as aulas. Ali decidi que precisava fazer alguma coisa com minha vida.
Dois fatos marcantes.
O primeiro foi que desde 1976 eu já dava aulas no colégio industrial de Botucatu, no curso de eletrônica, aula de várias disciplinas, todas ligadas ao curso de eletrônica: circuitos, materiais e componentes, laboratório de eletrônica e coisas assim. Porém, apesar de dar aulas de circuitos elétricos, não consegui passar nessa disciplina na faculdade. Eu resolvia o mesmo exercício com os meus alunos de manhã e a tarde não conseguia fazer a mesma coisa na faculdade. Foi o professor de circuitos da época que me falou: “cara, você está na área errada”. E foi justamente um engenheiro que me falou isso.
Nesse mesmo período aconteceu o outro fato marcante: eu participava e assistia mais as aulas do curso de comunicação, onde conhecia muita gente. Assistia as aulas e cheguei até a participar de apresentação de trabalho em grupo. Quando o professor chamou o grupo e elogiou o trabalho e queria dar a nota viu que eu não estava na lista: eu não era nem aluno do curso. Nessa mesma época fui a uma festa de república de amigos lá, tocando violão como sempre, chegaram algumas amigas que faziam psicologia, algumas dessas meninas jogavam vôlei e a gente se conhecia dos jogos, e me pediram para ajudar com um trabalho do curso, da disciplina de Sociologia, já no último ano.

Elas sabiam que eu gostava de música e que também escrevia bem. O trabalho era fazer uma dissertação usando como base a música do Chico Buarque “Roda Viva”. Ali mesmo, na festa, embalado pela cerveja e o clima musical, eu sentei e escrevi um longo texto, intercalando as estrofes da música. Não me lembro de quase nada desse texto e infelizmente nem o tenho. Escrevi um monte do que entendia e principalmente do que sentia em relação a música e ao contexto que ela abordava e entreguei para elas. Foi tudo muito espontâneo e verdadeiro, um texto escrito num só fôlego, numa mesma sentada, de bate pronto, realmente escrevi tudo o que sentia.

O resumo da ópera é que elas tiraram uma bela nota 10 nesse trabalho. E aquilo me fez acreditar que essa era a minha área de atuação, esse era meu caminho. Nesse ano eu decidi abandonar o curso e transferi do quarto ano da engenharia elétrica para o curso de comunicação (só tinha habilitação em Relações Públicas – que eu não queria). Saí do quarto ano da engenharia para o segundo semestre do curso de Comunicação. Um grande baque na família. Mas fui em frente. Fiz 3 semestres e depois me transferi para a Unimed Piracicaba, para o curso de Publicidade e Propaganda.

14089422_1351820108169499_1591393386_nVivendo Bauru– E na faculdade, produziu algo que encheu os olhos, que encantou professores e colegas?
Júlio Furtado: Aí sim, fui muito bem. Está certo que já não era um aluno regular, na idade certa. Fui para Piracicaba com 25/26 anos, já tinha outra vivência. Fui bom aluno, fiz bons trabalhos, tanto em texto como nas artes. Em Piracicaba comecei a trabalhar com madeira e pirografo, fiz exposição, pintei camisetas, trabalhei com publicidade, fiz anúncios, material gráfico, poesia, comecei a fazer teatro e sempre tocando violão em todos os lugares.
Ali pude sim encantar e me encantar por esse universo. Ali descobri que era isso que gostaria de fazer e me dedicar. Também descobri que essas atividades são muito lindas mas que não proporcionam rentabilidade.

Virei artista e fui em frente. Fui presidente do diretório de comunicação, participei de revistas e jornais, feiras, festivais de música, apresentei trabalhos em teatro e música, escrevi muito e produzi muitas coisas tanto em texto e poemas como em exposições de artes plásticas.

Vivendo Bauru – Foi aí que tomou gosto pela coisa de verdade?
Júlio Furtado: Sim. Piracicaba foi um marco decisivo em minha vida de artista. Ali, mais sozinho, pude assumir esse lado e partir para tentar viver disso.

Vivendo Bauru – Fez a faculdade e já era arteiro, opsss, fazia arte e optou pela carreira de professor universitário, como foi isso?
Júlio Furtado: Depois que comecei a dar aulas no colégio em Botucatu, em 1976, não parei mais. Comecei um pouco por necessidade, pois queria ganhar o meu dinheiro. Em 1978/1979 ajudei meu pai nas aulas numa faculdade em Marília. Eu ia para dirigir e acabei ajudando nas aulas. Também participava de cursos que o meu pai dava de Matemática Financeira, resolvendo a parte de exercícios.
Quando fui para Piracicaba eu acabei virando sócio de um primo meu (Rogério Viana), numa agência de propaganda.
Mas quando faltava somente um ano para terminar o curso de Publicidade na Unimed eu voltei a Bauru. Me transferi da Publicidade para o curso de Comunicação Visual da Unesp.
Nessas transferências de cursos entre várias faculdades e escolas diferentes perde-se muitas disciplinas. Mas voltei para a Comunicação na Unesp e, finalmente, em 1988, terminei um curso universitário.

Desde 1985, quando voltei, um grande amigo de Piracicaba, o Bitenka, veio junto e montamos a Bandalha e tocamos na noite bauruense por vários anos. Ao mesmo tempo, na Unesp, tive aulas com a Cleide Biancardi (História da Arte), de Comunicação comparada e Semiótica com a Lúcia Helena Sant’Agostino, de Desenho e Arte com a Lair Barreira e pude descobrir muita coisa dentro da arte em geral e começar a produzir mais seriamente a minha arte. Um companheiro desse tempo, da música e da arte, foi o escultor e professor José Laranjeira.

14111592_1351820048169505_772990301_nVivendo Bauru – Foi um bom professor, Ou melhor, é um ótimo professor? Pelo fato de ser um artista, isso ajuda na missão?
Júlio Furtado: Ser artista ajuda muito na relação com as pessoas. Principalmente quem é ligado nas artes. Sempre tive um ótimo relacionamento com a maioria dos alunos. Lógico que encontrei alguns alunos que me detestaram. Mas geralmente tive bom relacionamento com alunos.
Os alunos adoram as minhas aulas e o meu jeito mais solto e brincalhão, não ligo muito para alguns padrões de comportamento ou normas, deixo sempre os alunos mais livres dentro do que devem fazer; cobro respeito e silêncio quando falo e passo teoria ou explicação e deixo solto para fazerem da forma que quiserem. Alguns alunos deixam de gostar de mim quando dou as notas; acho que sou exigente demais para notas, o que contraria um pouco o meu jeito mais solto nas aulas. Depois das notas alguns alunos passam a me detestar.

Vivendo Bauru – Que matéria leciona? Pode descrever a respeito?
Júlio Furtado: Quando voltei de Piracicaba para Bauru, trabalhei na unidade daqui da MPM Propaganda, em 1985 e cheguei a ganhar um Prêmio Colunistas (Medalha de Ouro), então o maior prêmio da publicidade brasileira, como redator publicitário.
Em 1990 fui para SP tentar a vida. Não tinha muito mais a fazer em Bauru. Trabalhei em algumas agências menores, indústrias gráficas (Unida Bozatelli, Salesianos e Albarus SA) e comecei a dar aulas na FAAP. Logo depois também no Senac-SP, no Centro de Comunicação e Artes.

Na FAAP dei aulas no curso de Comunicação Visual, dentro da faculdade de Artes Plásticas e depois dentro da faculdade de Publicidade e Propaganda: aulas de redação publicitária, projetos de final de curso, criação e várias disciplinas. Fiquei na FAAP por 10 anos.
No Senac dei curso de Produção gráfica, publicidade e criação, participei de uma equipe de palestrantes e também dei palestras pelo Sebrae-SP

Depois, aqui em Bauru, a partir do ano 2000, dei aulas na USC, de redação publicitária, publicidade, criação, marketing e depois fotografia e desenho artístico.

Vivendo Bauru – É querido e admirado pelos alunos? Como conduz essa coisa própria de artista, de ser meio desligado na condição de professor? Como mantém o ritmo, a sequência das aulas, como as prepara?
Júlio Furtado: Sei que tem muitos alunos que guardam uma boa lembrança de mim e digo que sempre fui verdadeiro em sala de aula. Acertando ou não, sempre fui exatamente o que eu sou. Eu disse muitas vezes, desde a FAAP, eu não falo isso somente para você aluno, eu VIVO isso todos os dias. Essa não é somente uma maneira de trabalhar, é uma maneira de viver.
Quanto a ser desligado não tenho alternativa. Tento ser organizado o suficiente para não me atrapalhar na vida, mas minha natureza é ser um tanto desligado. Digo também que sou responsável. Durante 10 anos de FAAP faltei somente uma vez e cheguei atrasado outra. Uma vez em cada 5 anos acredito que está bastante razoável, não é?
Mas já fui dar aulas com a camiseta do avesso.

Eu gosto de dar aulas, então essa atividade nunca foi um peso, ao contrário, foi sempre uma alegria.
Quanto a preparação, já disse que sou intuitivo. Assim, me preparava para as aulas com muito material mas sempre resolvi as coisas na hora, no sabor da onda. Como sempre dei disciplinas dentro das áreas que gosto, sempre estive preparado.
Minha primeira aula na FAAP foi assim: estava fazendo alguns trabalhos dentro de uma pequena agência de um amigo, Sérgio Akamatu, que era coordenador de cursos na Comunicação da FAAP, um professor foi embora e ele precisou de alguém assim de repente. Ele me convidou as 4 horas da tarde e as 7 da noite eu já estava na frente da sala com um pouco mais de 50 alunos. Falei um monte e fui em frente. E deu certo, fiquei lá 10 anos.
Me formei em Comunicação Visual pela Unesp, Bauru; fiz Especialização em Antropologia (USC – Bauru) e este ano terminei Arquitetura e Urbanismo (USC – Bauru).

14055666_1351820151502828_801555541_nVivendo Bauru – O seu lado desligado é de fato meio hilário e os amigos acham o máximo, um de seus diferenciais positivos. Como convive com ele nas salas de aula?
Júlio Furtado: Levo isso como um fator positivo, mais ligado à criação e ser mais solto com a vida. Isso não é exatamente um problema. Usar a camiseta do avesso, trocar a sala, trocar os nomes dos alunos e coisas assim são acontecimentos leves e mais risíveis do que propriamente um problema.
Coisas como colocar os sapatos trocados no filho não devem ser encarados como um problema, mas algo para ficar na história da família como um fato hilário, nada mais. Mesmo porque não é assim algo tão sério. Usar uma meia de cada cor ou uma camiseta furada está ligado ao fato da pessoa não observar isso, não acho isso tão importante, normalmente ocorre por estar pensando em outra coisa quando do ato de me vestir. Eu sempre adorei os alunos fora da casinha, acho-os mais interessantes, criativos e autênticos. Talvez por ser também um pouco fora da casinha.

Vivendo Bauru – Vamos falar de sua vida de artista mesmo? Sei que é cantor, músico, compositor e pintor, além de ótimo fotógrafo. Você se realiza em todas?
Júlio Furtado: Todas são parte do mesmo processo. Realizado sim em todas, procuro fazer o melhor, aprender mais e mais, e posso dizer que me dedico muito. Gosto de aprender, gosto de fazer o melhor possível. Adoro cantar, já compus letras de músicas, a Neusa Maria (Gota D’Água) gravou uma música minha e a Paula Veloso está gravando outra. Fiz muito material gráfico, ganhei prêmio, tenho um trabalho de artes plásticas que obteve o respeito de várias pessoas da área e de artistas consagrados e já tenho o respeito como artista e criador. Isso não se consegue em pouco tempo e fazendo uma só coisa. Esse respeito só vem com o tempo e com os resultados que apresenta.

Vivendo Bauru – Qual seu trabalho na música que ficou marcado em definitivo?
Júlio Furtado: O trabalho que ficou mais marcado na música, primeiro foi a Bandalha, de 1985 a 1990, uma banda que foi importante no cenário de Bauru e região e que deixou uma boa saudade. Mais recentemente, em 2010, foi a gravação da música “Aconteceu” (parceria minha com o músico e amigo o Flávio Araújo), pela ótima cantora e amiga Neusa Maria, em cujo CD eu fiz toda arte, capa e encarte, e o trabalho ficou muito bom. Ouça a música Aconteceu e outras do CD de Neusa Maria, clicando aqui.

Vivendo Bauru – Como se dá o seu processo de criação? Quando pinta uma super ideia e parte para a efetiva produção, ou composição?
Júlio Furtado: O processo de criarão é sempre solto e ocorre a qualquer hora e lugar. Já resolvi logotipo no saguão de espera de pronto socorro, assim como já acordei a noite desesperado para anotar algum estrofe que aconteceu de repente na cabeça. O que ajuda muito é estar sempre ligado e atento a esses acontecimentos dentro da cabeça, sempre montando um novo quebra cabeças, sempre tentando alguma conexão nova tanto de texto como de cores e formas. Daí vem o problema de ser considerado desatento ou desligado. É que estamos sempre ligados em outra coisa.
Estar sempre em contato com as tintas, deixando fluir os pensamentos e formas ajuda muito para que as coisas aconteçam. Mas é muita dedicação, muito tempo, leitura, ficar ligado de dia e de noite numa coisa até resolver a contento. Sonhar também faz parte do processo de criação.

Na música, desde o início com o amigo Flávio Araújo (Flávinho veio jogar basquete no Luso e estudar Direito) eu sempre começava com a letra e o início da melodia e o Flávio terminava a melodia e pronto. Até hoje acontece assim. Nessa Música “Aconteceu”, foi o seguinte: em 1978/1979 eu e o Flávio fizemos várias músicas, num tempo de festivais regionais, serenatas e coisas assim, e essa a gente fez a primeira parte. Eu escrevi a primeira estrofe e a melodia saiu certinha e muito boa. E não conseguimos terminar. A música ficou só com a primeira parte. Depois a vida levou cada um para um lado. Eu fui parar em Piracicaba e o Flávio foi para SP. Continuamos amigos mas agora mais distantes.

Em 2010 a Neusa, através da produtora musical e amiga Isabel Senna, estava à procura de um estúdio ou produtor para gravar um cd. Como não encontraram o que queriam em Bauru, numa festa a Isabel acabou falando sobre isso e indiquei o Flávio, que sabia estar com um estúdio e fazendo a produção musical. Com a minha intermediação eles chegaram no Flávio e começaram a gravação do cd. Eu fiquei na minha em Bauru, dando aulas e seguindo a vida. Um dia a Neusa me liga e fala: “O Flavinho mostrou uma música de vocês (Aconteceu) que achei linda, quero gravar essa música no meu cd.” Assim, depois de mais de 30 anos, lá fui eu para SP me encontrar com o Flávio para terminar a música que havíamos começado em 1978. Fiquei um pouco temerário com o resultado, mas foi muito surpreendente. Mesmo após muitos anos, o Flávio conseguiu achar uma segunda parte que casou certinho com a primeira parte da música de vários anos atrás e eu continuei a história da letra, que era o pano de fundo de uma briga de amor. A música realmente aconteceu e ficou muito legal, gostei do resultado da letra e melodia. E a gravação ficou perfeita, na voz e maneira de cantar da Neusa, ficou do jeito que tinha que ficar.

Vivendo Bauru – Como é ser professor? Pode dizer se tem todo amparo, todo apoio e condição para promover aulas de qualidade?
Júlio Furtado: Fui professor na FAAP e depois na USC. Já fui mais otimista mas hoje não sou tanto. Professor desceu muito na importância tanto dentro da sociedade como dentro das escolas. Professor hoje é encarado como um mal necessário dentro das instituições escolares, principalmente superiores. É que ainda não encontraram um jeito de dar cursos sem professores. Mas estão tentando.
Hoje não se cobra mais conhecimento do professor, saber dar aulas bem, ser conhecedor do assunto; o que cobram do professor hoje é ter diplomas, pontualidade, ter as aulas em power point, falar sobre todos os tópicos que estão no programa e manter a plataforma online em dia e atualizada. O professor que faz isso é considerado ótimo. Se a aula é uma merda, não interessa. Se o professor não sabe se comunicar ou fala mal, não interessa. Se o professor acabou de se formar, tem um mestrado e nunca deu aulas, também não interessa. Se professor não gosta de dar aulas ou não gosta de alunos, também não interessa. E, para coroar, deve aceitar um salário de fome. Hoje aqui em Bauru estão pagando de R$ 18,00 a R$ 25,00 por hora-aula para professores de faculdades e universidades (em alguns lugares nem isso). As públicas pagam mais, mas vivem em greve e os professores estão sempre lutando por melhores salários.

Com esse nível de pagamento pelas aulas é só fazer uma conta básica para se saber, após os descontos de folha e tudo mais que incide sobre os salários, que deve-se ficar o dia todo em uma escola com aula todos os dias (ou todas as noites) para se ter uma remuneração minimamente razoável. Professor que pega uma disciplina ou duas recebe menos de R$ 1.000,00 por mês. Se tiver que pegar táxi ou pagar pelas impressões das provas, já está pagando para trabalhar. Alguns aguentam isso para ter o INPS recolhido para poder se aposentar.

Vivendo Bauru – Fala de sua exposição que se encerra no próximo dia 26.
Júlio Furtado: A exposição foi uma idéia para aproveitar as comemorações do aniversário da cidade, já que tenho o tenho urbano como foco. Também aproveitei para lançar o meu primeiro Caderno de Desenhos para colorir, série urbana.
Em exposição estão alguns trabalhos com tinta acrílica e alguns desenhos sobre papel. O local, apesar de não ter a estética ideal, é a Casa Ponce (Pinacoteca de Bauru), uma casa que faz parte da história da cidade, e dentro das atividades da Secretaria de Cultura do município. A divulgação foi boa e os trabalhos puderam chegar a muitas pessoas. Dentro de nossa cultura as atividades de artes plásticas não tem um grande afluxo de pessoas e não despertam as paixões da maioria das pessoas. Mas isso já é outra conversa.

Vivendo Bauru – Tem mais algo a dizer? Para quem mandaria um recado no sentido de incentivar jovens a se envolverem com a arte.
Júlio Furtado: Quem gosta de arte, gosta e pronto. Isso vem junto com o DNA. E não é programado.
Quem gosta deve cultivar principalmente para consumo próprio e se preparar para conseguir viver obtendo o seu sustento de outro lugar. Com arte não se ganha dinheiro, ao contrário, é preciso dinheiro para sustentar a arte.

Eu não me arrependo e nem abro mão de fazer os meus trabalhos, preciso disso para viver. Mas tenho plena consciência que viver disso dentro de nossa cultura é impossível. Quem optar por fazer uma arte mais comercial até pode vislumbrar um meio de vida. Mas é produzir muito e vender barato. Dentro de nossa cultura de hoje, uma pessoa paga tranquilamente R$ 2.500,00 em um celular novo, mas não paga R$ 800,00 / 600,00 / 400,00 em um quadro para sua casa. Quadro para vender deve custar abaixo de R$ 200,00. E olhe lá. Eu tenho molduras que custaram isso. Arte, trabalho, dificuldade, técnica, beleza estética, pesquisa ao longo da vida, desenvolvimento de um caminho próprio dentro das artes e linguagens estéticas e plásticas não tem valor algum.
Então, cultue a arte que te é importante, desenvolva os seus trabalhos e arrume um emprego para pagar as contas. Assim poderá cultivar a arte e viver em paz. Viver de arte é muito difícil. Ser artista é sinônimo de quem está desocupado, que não está fazendo nada.

Os meus trabalhos são sempre muito bem aceitos pelas pessoas, todos gostam; tem um grande impacto sobre as pessoas e impressionam pela técnica e precisão das formas e cores. Porém poucos sãos que decidem comprar e pagar pelos trabalhos. As pessoas querem presentear com arte mas querem o preço de produto produzido de forma industrial, no atacado. Ou seja, a arte tem um valor emocional reconhecido, mas as pessoas querem comprar por preço de commodities. Ou trabalhe com produtos de primeira necessidade, como alimentos ou higiene. Esse tipo de produto não olha valor, mas sim preço. Assim, se tiver algo similar mais barato, as pessoas trocam. E a arte tem um valor diferenciado, um valor agregado que deve ser entendido pelo comprador. Se o comprador entender e enxergar a arte ele sabe que vale. Mas o que acontece é que as pessoas, num geral, olham a arte como produto industrial e atribuem a ela um valor comum e não o valor especial que a arte tem. E arte sem valor, continua sendo arte, mas não vai dar condições do artista sobreviver dela.

Então, caro candidato a artista, se prepare para bancar a sua arte. Senão arrume um bom emprego e vá viver a vida. Arte é para quem precisa dela. Quem é artista e gosta de Arte vai fazer isso para poder viver em paz, para manter a sanidade. E vai ter que pagar por ela. Faça isso e viva em paz.

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