inscrever e-mail: Posts | Comentários
busca no site
Lairana
Um artista deixa de ser um simples pintor quando não precisa mais aplicar rigorosamente as regras e respeitar religiosamente as tradições. Lairana adquiriu tal familiaridade com sua arte, que pode transformá-la num projeto vivo de deslocamento das fronteiras do seu mundo, gerando novas regras e novos sentidos.
Lairana é uma artista nascida em Bauru ( Estado de São Paulo), mas que conseguiu ser – ao mesmo tempo – representante de uma cultura local e construir uma obra cosmopolita; fazer-se compreender por seus vizinhos e por habitantes de países longínquos. Lairana é uma intelectual, é uma doutora em artes pela prestigiada Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, mas suas impressões – transformadas em milhares de obras – fazem dela aquilo que os antropólogos chamam de “observadora participante”. Sua carreira de sucesso a fez dezenas de vezes premiada em salões oficiais e levou seus quadros a lugares tão distantes e surpreendentes como o Japão e República Sul-Africana (além de vários países da América e da Europa Ocidental).
Suas bananeiras de cores tropicais, criadas em acrílica sobre tela, multiplicam texturas. As folhas, que de certa forma lembram as teclas de um vasto piano, completam a melodia visual.
Ney Vilela – Historiador
Entrevista ao site Arte atual.
Transpirando arte
Artista bauruense conta como é impossível desvencilhar a arte de sua vida
laismontagnana@hotmail.com
Laís Montagnana
“Qualquer objeto é objeto de estudo para um artista, depende da comunhão entre forma e espírito.” – Lairana
A luz da manhã atravessava a janela e dava outros tons para os quadros espalhados pelo ateliê da artista que confessa “não usar esboços para pintar”. Foi nessa manhã que conheci um pouco das várias facetas de Lairana. Nascida Lair Ana Barreira, a artista plástica, professora aposentada, mulher, esposa, mãe e acima de tudo incansável exploradora e apreciadora do mundo conversou comigo sobre arte e outras banalidades que acabam perdendo seu caráter trivial perante a visão da artista.
Em 2006 Lairana participou da Casa Cor interior – uma das maiores mostras de arquitetura, decoração e paisagismo do país – onde apresentou uma obra inusitada: deu cores ao ambiente de banheiros públicos. Recentemente a artista também teve trabalhos expostos na Mostra Interior Decor desse ano que pela primeira vez aconteceu em Bauru.
Os olhos esverdeados da artista não escondem a ousadia ainda flamejante de quem sente que tem muito o que explorar e desconstruir, e suas origens não negam: “Quando comecei a dar aulas eu era meio hiponga, dava aulas descalças!”. E parece que existem certas coisas que não mudam: quando olho para o chão vejo os pés da artista passeando livremente despidos de sapatos por seu ateliê.
Laís Montagnana
“Vivo inspirada.” – Lairana
Como e quando você descobriu seu dom para a arte?
Aos quatorze anos matriculei-me na Escola de Belas Artes de Bauru onde me dediquei intensamente à pintura e ao desenho. Também aprendi escultura e gravura, mas meu corpo e alma estavam apaixonados pelo desenho e pela pintura. Com 8 anos de idade eu já coloria os livros infantis com lápis de cor e tinta guache.
De onde vem sua inspiração?
Primeiro da inquietação de meu interior que somada a uma percepção contínua e profunda de tudo o que me cerca, resulta em uma vontade intensa de expressão. Vivo inspirada.
Muitas de suas obras têm como inspiração coisas do cotidiano, como os trabalhos que você fez sobre varal com roupas e prendedores de roupa, defina o que é arte para você e comente sobre esse trabalho.
Arte é criação/expressão. Na década de setenta, quando tive as minhas três filhas, o varal repleto de fraldas branquinhas chamava muito a minha atenção. Eram configurações sugestivas e com muito contraste de transparência, luz e sombra. A partir daí passei a observar melhor as roupas nos varais e passei a representar/expressar a partir dessa percepção. Os prendedores de roupa, enquanto soltos e esquecidos pendurados, ora solitários e ora em conjunto, também ganharam a minha atenção. Fiz aquarelas, pinturas com tinta acrílica sobre tela e gravuras. Ganhei prêmios importantes com a temática “Varal e prendedores de roupa”, que abordava desde a ingenuidade de roupinhas cor de rosa de minhas pequenas filhas, como também a natureza sensual/erótica. Foi o meu período de arte conceitual.
Laís Montagnana
“(…) eu prefiro inspirar-me naqueles que além de serem arte de anjos, já se curvaram por inúmeras vezes, mas não quebraram.” – Laraina
Papoulas, folhas de bananeiras e varas de bambu marcam constante presença em suas obras. Explique o que motiva sua fascinação por esses objetos e como a arte pode ser encontrada em simples objetos.
Qualquer objeto é objeto de estudo para um artista, depende da comunhão entre forma e espírito. Tenho fascínio pela flor papoula. Sua forma, leveza, cor, textura e movimento são elementos plásticos intensos. Mergulhei em campos de papoulas mundo afora e passei horas percebendo papoulas ao vento. Fotografei-as na Escócia, Itália, França, Portugal, Áustria, Inglaterra, África do Sul, USA, Chile, Bolívia, Peru e Argentina. Plantei sementes que trouxe desses países e as flores que nasceram propiciaram-me prazer estético incomparável. Pude desenhar observando-as in natura. Além dos muitos bauruenses que têm em suas casas telas que surgiram dessa inspiração, essas telas estão espalhadas por diferentes cidades do Brasil e mundo afora.
As folhas de bananeira e bambus são para mim belezas apaixonantes. Essas folhas são teclas de piano, às vezes beirando o mar, às vezes em descuidados jardins. Quando encontradas em fazendas elas ganham uma plenitude própria de quem já adquiriu a sabedoria por intensos anos vividos. Os bambus são flautas, às vezes suportes para inspirados anjos que os pintam de verde/amarelo na calada da noite. Mas, como as marcas do tempo levam à sabedoria, aqui também eu prefiro inspirar-me naqueles que além de serem arte de anjos, já se curvaram por inúmeras vezes, mas não quebraram. Suas variadas manchas e texturas provocam-me, fazendo com que eu sinta também vontade de criar.
Seu trabalho é muito pessoal, o artista não tem medo de se expor demais? Como é lidar com essa ligação tão forte entre trabalho e vida pessoal?
É uma questão complexa. Não tem como não se expor e às vezes isso é angustiante. Mas se você se preocupa em não se expor você não cria. Não dá para separar a sua criação de sua vida pessoal. Você cria por inteiro, aliás, para mim não existe separação.
Como é o seu processo criativo?
Tenho sempre muito material. Muita tinta, muito papel e muita tela. Geralmente decido o que e como fazer no momento de iniciar o trabalho. Não faço estudos. Quando na tela, pego o carvão vegetal e desenho direto na tela. Aquilo que no momento está me provocando, seja lá como for, eu expresso com formas, cores e texturas. A provocação é perceptual, mas ao expressar eu me coloco por inteiro e daí entra todo o meu ser, incluindo todo o conhecimento prático e teórico, além do psicológico e etc.
Recentemente você expôs trabalhos na Mostra Interior Decor, em Bauru. Comente sobre seus trabalhos apresentados na exposição e qual a importância desse evento.
No Interior Decor foram expostas três telas na temática bananeira. São telas com mais de dois metros na horizontal, ricas em texturas e cores e que já despertaram o interesse de um arquiteto português que solicitou que fossem enviadas a Portugal duas aquarelas na mesma temática.
A importância desse evento é mostrar a qualidade dos profissionais bauruenses e dos produtos que temos em nosso mercado ligados à Arquitetura, Design e Decoração de interiores, como também Jardinagem. Alguns profissionais dessas áreas dão oportunidade a artistas bauruenses mostrarem a sua obra.
Laís Montagnana
“Muitos têm possibilidade econômica para comprar, mas não sabem diferenciar uma estampa vulgar de uma obra de arte.” – Laraine
Bauru oferece espaço para os artistas plásticos?
Temos sim alguns espaços, na maioria das vezes sem iluminação adequada, mas somos gratos pela oportunidade de expor. Mas, profissionalmente seria ótimo se tivéssemos uma galeria de arte.
Como é o interesse do público nessa área? Eles sabem valorizar uma obra de arte?
Uma minoria sabe valorizar uma obra de arte. Muitos têm possibilidade econômica para comprar, mas não sabem diferenciar uma estampa vulgar de uma obra de arte. Digo estampa vulgar para imagens que são impressas aos milhares, sem assinatura ou com assinatura impressa. Uma gravura (essa sim uma obra de arte) diferencia-se por ter assinatura, geralmente feita a lápis. As mais conhecidas são litografias, serigrafias, gravura em metal e xilogravuras. Por favor, não confundam esse meio de expressão artística com as estampas vulgares que mencionei. Basta perguntar ao lojista que ele irá dizer o que seja um e o que seja outra. Também temos aquarelas, que são arte sobre papel e Bauru tem bons aquarelistas, alguns premiadíssimos, como eu.
“Minhas pinturas são criadas a partir de uma imagética em contínuo processo de transformação, pelo fato de estar sempre passando por experiências perceptuais diferenciadas”.
“Florestas, matas e jardins em diferentes regiões do Brasil e exterior têm provocado meu fazer artístico no sentido de observar/representar/expressar nichos ecológicos/estéticos”.
“Utilizo a tinta acrílica de qualidade profissional, variando as ferramentas de acordo com o próprio desenvolvimento da pintura: espátulas, pincéis, pedaços de metal e madeira pontiagudos ou não, as próprias mãos, etc“.
Algumas pesquisas perceptuais: muitos lugares nos Estados Unidos, florestas e matas na África do Sul, Mata Atlântica do Brasil, fazendas e plantações do litoral e do interior do Estado de São Paulo, jardins da Escócia, Inglaterra e França”.
LAIRANA
















