Bumba meu idioma

Língua não se inventa, é criada e até reinventada por cérebros virgens, as crianças, garantem os semioticistas. Língua inventada por marmanjos, ensinam eles, não dá certo. Pode se tornar, sim, língua nova, língua viva, mas só quando posta em uso por crianças, que a reinventam para valer. O governo da Nicarágua inventou há tempos uma língua de sinais para surdos-mudos que não ia para a frente e só se tornou língua mesmo, viva, nova, quando as crianças se apoderaram dela e a amoldaram do seu jeito, com a criatividade de que são capazes cérebros virgens. Não sei como ainda não derrubaram as muralhas e o comunismo da China, com tantas crianças que tem por lá.

Vejam o pidgin, língua provisória inventada às pressas e usada por algum tempo para comunicação de urgência até que se forme outra, de verdade. Por exemplo, um punhado de trabalhadores de várias partes do mundo, acotovelando-se num mesmo espaço, no tempo das colônias, na América Central, falando idiomas diferentes, chinês, japonês,  indonésio, e precisando se entender. Comunicavam-se usando por empréstimo palavras-chave do idioma falado pelo patrão.Com o passar do tempo, o diamante bruto foi lapidado e tornou-se língua nova.

Sem qualquer pretensão de comemorar o Dia da Língua Portuguesa, 10 de junho, um punhado de burocratas nossos está falando pidgin caboclo para se entenderem. Reciclam palavras para explicar assuntos relacionados a novo modelo de coleta seletiva de lixo de São Paulo. Vai ver, daqui a pouco vira língua nova.

Está lá, no jornal. Um burocrata diz que a prefeitura pode ajudar na “eficientização” da coleta. Seu colega de pidgin afirma que os catadores já fizeram a “fidelização” da clientela. Outro está convencendo as empresas, condomínios, shopings e supermercados a colocarem em seu prédios contêineres e agentes das cooperativas de lixo para fazer a reciclagem “internalizada”. Caramba. Alguém me ajuda a “procuralizar” e “tecnicizar”  palavras “inventalizadas?”.

Caramba nada. É sério. Por acaso não permaneceu o pidgin “imexível”, do antigo ministro do Trabalho de Collor, de triste lembrança? Imexível era o governo. Mexível, a Língua. Chegaram, a palavra e o ministro, pisando no calo dos filólogos. E entre muitas outras  “carambalizadas” ela permaneceu, por alguns instantes, como piada, mas logo pegou a fila para “entralizar” no dicionário,  já fora da fase da “pidginzação”.

Quanto à recente reforma ortográfica da Língua Portuguesa o que a motivou foio mercado! Grandes negócios e tratados exigem contratos internacionais padronizados, escritos com as mesmas vírgulas, mesmos acentos ou não acentos, para evitar ambigüidades e prejuízos comerciais em suas interpretações.

A reforma aparou algumas arestas que incomodavam o sistema capitalista nos países de Língua Portuguesa. Fora isso, que os idiomas morrem é uma fatalidade inexorável de tudo o que existe . Há centenas de línguas mortas no mundo, hoje. Não são mais faladas. Morreram. Foi o que aconteceu com o Latim vulgar, restos mortais do Latim clássico. O Latim vulgar, falado na região do Lácio, na Itália, originou os idiomas latinos, o português, o italiano, o romeno.  O Português, hoje, é o cascalho do Latim vulgar. Vai morrer, v ai virar cascalho, língua nova, num tempo futuro. Em regiões conquistadas pelos portugueses, na África e Ásia, alguns povos ainda falam o Português arcaico. Falam mia fil (meu filho), mia señor (minha senhora). Não há mais jeito para reformas ortográficas e evitar, lá, essa encruzilhada de morte do idioma.

Percebam neste soneto de 1918, de Olavo Bilac, como ele se refere ao ouro garimpado no cascalho de uma língua morta, o Latim Vulgar, falado pelo povo do Lácio, na Itália, que se tornou Língua Portuguesa.

LÍNGUA PORTUGUESA

Última flor do Lácio, inculta e bela

és a um tempo esplendor e sepultura

ouro nativo que na ganga impura

a bruta mina entre os cascalhos vela
Amo-te assim, desconhecida e osbsura,

tuba de alto clangor, lira singela,

que tens o trom e o silvo da procela

e o arrolo da saudade e da ternura

Amo o teu viço agreste e o teu aroma

de virgens selvas e de oceanos largos

Amo-te, ó rude e doloroso idioma!

Em que da voz materna ouvi: “meu filho”!

e em que Camões chorou, no exílio amargo,

o gênio sem ventura e o amor sem brilho

(*) Apollo Natali, o autor, é jornalista e articulista do Vivendo Bauru.

botao-voltar

Envie um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.