A inquietude de Sörensen (Carlos Haraldo Sörensen)

O bauruense mais famoso no mundo, depois de Pelé.

O desafio é falar de um artista múltiplo, aluno de Di Cavalcanti, André Lhote e Albert Gleizescom, com mais de 3.000 quadros espalhados pelo mundo.

– Primeiro cenógrafo do Fantástico, o show da vida, campeão do carnaval do Rio de Janeiro pela Portela.
– Pintou ao lado de Tarcila do Amaral.
– Foi pintor, arquiteto, gravador, ilustrador, tapeceiro, poeta, ator, figurinista, cenógrafo e ceramista.

Biografia.

Carlos Haraldo Sórensen, nascido em Bauru, em o3 de novembro de 1.928. Formou-se em arquitetura, mas nunca tenha exerceu a profissão.
Mas sua inquietude como artista fez com que se expressasse através da pintura, como ceramista, escultor, tapeceiro, gravador, ilustrador, poeta, ator, cenógrafo, figurinista, carnavalesco e em todas as manifestações mais em que se inseriu ao longo de sua carreira, dos doze anos até 29 de fevereiro de 2.008, faleceu na cidade do Rio de Janeiro, onde viveu a maior parte de sua vida e lá fazendo verdadeiramente a sua arte, ou melhor, sua carreira artística de muito sucesso.

Filho de mãe de ascendência italiana e pai dinamarquesa , Sörensen é considerado um artista-fenômeno, utilizando suas raízes europeias para aprofundar-se na cultura moderna do Brasil. Teve seu trabalho descoberto por Oswald de Andrade, em 1938, quando foi encaminhado a trabalhar com gênios, como Portinari, Di Cavalcanti e Pancetti. Em 1952, ele foi um dos articuladores para a realização do 1.º Salão Brasileiro de Arte Moderna.

Na década de 50 viveu durante dois anos em Paris como bolsista do governo francês, onde freqüentou os ateliers de André Lhote e Albert Gleizes e Fernand Léger. Na sua volta ao Brasil expõe as obras produzidas nesses ateliers no Ministério da Educação, no Rio de Janeiro.

Sorensen ingressa, a convite de Assis Chateaubriand, como diretor de arte na recém-inaugurada televisão Tupi, que funcionava nessa época no antigo Cassino da Urca, indo posteriormente trabalhar nas televisões Record, Bandeirantes e Rede Globo, isso por 34 anos.

Na Rede Globo, dentre seus últimos trabalhos , foi criador do visual do “Fantástico” por 11 anos. Em 1975 sua arte envolve o Carnaval carioca, com a criação do desfile da Escola de Samba da Portela, que lá homenageou o personagem Macunaíma.

O trabalho de Sörensen tem grifado sempre o predomínio do humano sobre o tecnológico. Suas criações, vibrantes e coloridas, demonstram sua própria inquietude artística (daí o título do livro), nos temas tipicamente brasileiros de suas obras.

A sua energia visceral inesgotável e a sua inquietude em relação à vida, fizeram com que trafegasse ao longo das décadas por entre as mais diversas formas de expressão artísticas no Brasil e na França.

Difícil traçar o perfil do artista em razão de sua trajetória nada linear, que fez com que produzisse cerâmicas, tapetes, cartazes, xilogravuras, serigrafias, box-forms e, sobretudo, mais de três mil quadros a óleo, fruto de uma apurada técnica aprendida nos ateliers brasileiros (Di Cavalcanti) e parisiense (André Lhote e Albert Gleizes). Tudo se unindo a um explosivo autodidatismo, sem contar que atuou no teatro, produziu ilustrações diárias para livros, revistas e jornais e também experimentou o gosto por escrever poemas.

Em sua permanência no Rio de Janeiro criou figurinos para teatros, cinemas, balés, óperas e principalmente televisão, ganhando então vários prêmios nacionais.

Sua inquietude levou-o a fazer inúmeras exposições individuais e coletivas no Brasil, além de Nova York, Seatle, Las Vegas, Lagos (Nigéria), Buenos Ayres, Tókio, Londres, Milão e Paris.
Sua arte contribuiu significativamente para a distinção da arte brasileira e outros movimentos da época fazendo valer as cores vibrantes, formas sinuosas e temas tipicamente brasileiros, como carnaval, mulatas e tropicalismo em geral, além dos já citados.

O artista

Carlos Haraldo Sörensen, ou simplesmente Sörensen, era tido como um inquieto, conforme descreve seu sobrinho Axel Sörensen Breslau, que com ele conviveu bastante tempo, em São Paulo. O sobrinho o define como uma pessoa agitada, perfil muito apropriado a quem tinha a explosão da arte próxima a ocorrer a cada instante, daí tanta diversidade nas manifestações, indo da pintura à poesia e passando pelas ilustrações (que foram muitas), cenografia em teatro e televisão, ceramista e outras manifestações.

Em tudo que se lê e ouve a respeito do artista, o que menos se pode deduzir é que ele tinha preguiça. Sua inquietude fazia com que ficasse a criar e produzir arte o tempo todo, daí a riqueza que nos deixa.

Sua obra no mundo todo sempre a merecer exposições nos mais importantes centros artísticos. Talvez seja pela pintura por onde mais se projetou. Pudera, estudou com Lhote e Gleizes, na França, e no Brasil trabalhou com Di Cavalcanti. em seu atelier, tendo sido próximo de Tarcilla do Amaral e de Silvia Chalreo.

Sua marca na pintura se dá pelas cores quentes, merecendo de Lohte a referência de se dar em razão da origem de um país de clima tropical, tendo por fim a qualificação de um artista “colorista”, pois maioria de suas obras exibem nitidamente sua inquietude.
O que vemos com nitidez é sua marca inserida na produção por pinceladas generosas, porém rápidas e nervosas, deixando para a história que de fato conhecia o ofício de um bom pintor, retratando uma arte figurativa, cheia de paisagens, marinhas, casarios e naturezas mortas, sendo muitas delas carregadas de flores multicoloridas dentro de um ambiente artístico onde a abstração era (e ainda é) a “coqueluche” da intelectualidade.

Os que admiram sua obra têm sua arte como densa, cheia de vida e calor. Sua irmã mais nova (Maria), comenta sobre o irmão: “Sörensen era exatamente o que nos exibe sua obra, que foi além, pois também experimentou a geometrização, talvez resquício da convivência com o mestre Lhote, mas sem abrir mão daquilo que mais prezava em seus quadros, ou seja: a cor, fazendo valer, e aí com certeza, sua profissão e formação de arquiteto.

Seu port-fólio vai além, pois produziu murais (junto a Di Cavalcanti) tapetes, cerâmicas e assemblages, estas últimas inclusive com um “sotaque” de vanguarda de quem preza a liberdade e busca novas formas de expressão e aí de novo a presença marcante de sua inquietude.

Artista com presença indispensável em exposições individuais e coletivas, destacou-se na sala paralela da Bienal de São Paulo de 1963.
Suas obras estão presentes em museus e coleções brasileiras importantes.

Cedo descobriu que a “arte pela arte” não era, para ele, uma opção, daí parar para a profissionalização que começou cedo e já com 20 anos já pintava inúmeros painéis com Di Cavalcanti, no Rio de Janeiro, e dois anos depois ilustrava revistas e jornais junto a Eugênio de Proença Sigaud e Cândido Portinari.

Por conta do governo Francês, em 1952 começa a frequentar o atelier de André Lhote, em Paris, conhecendo Pablo Picasso, Roualt, Fernand Léger e Sonia Delaunay. Durante alguns anos bebe dos Impressionistas, Cubistas, e dos Fauvistas, unindo a isto à sua intensidade tropical.

Como Diretor de Arte na Televisão Tupi, por convite de Assis Chateaubriand, durante mais de 20 anos produziu diariamente cenários e figurinos para inúmeros programas e telenovelas. Na Rede Globo, deixaq sua marca como criador visual do programa “Fantástico – o Show da Vida”.

Fez cenários e figurinos para inúmeras peças de teatro, trabalhando com Tereza Rachel, Nathalia Timberg, Fernanda Montenegro, Paulo Goulart, Aracy Cardoso, Mário Lago, Sérgio Brito entre muitos outros.

Cronologia

– 1928. Carlos Haraldo Sörensen nasceu no dia 3 de Novembro de 1928 em Bauru (SP, Brasil).

– 1943. Em sua primeira exposição em Bauru, com 15 anos, o seu talento é reconhecido por Oswald de Andrade. Conhece também Pola Rezende, Quirino da Silva e Victor Brecheret.

-1948. Se mudou para o Rio de Janeiro, para estudar Arquitetura na Universidade do Brasil. Convive com Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Aldo Bonadei e Anita Malfatti.

– 1946. Salão de Artes do Interior do Estado de São Paulo, Medalha de Bronze.

– 1948. Começa a trabalhar com Cândido Portinari, José Pancetti, e Di Cavalcanti, pintando com este inúmeros painéis.
– 1949. Primeira exposição individual na Cooperativa dos Artistas Plásticos, São Paulo.

– 1949-1956. Ilustra inúmeras revistas semanais e jornais (Diário de Notícias) com Tomás Santa Rosa, Yllen Ker, Sigaud e Cândido Portinari.

– 1950. Convocado para a Academia Militar do Brasil. Formou-se como oficial em 1951.

– 1950. Coletiva no IV Salão do Clube Militar do Rio de Janeiro. Medalha de Bronze e Prata.

– 1950. Articula o 1° Salão do Art-Clube do Rio de Janeiro com Di Cavalcanti, Djanira da Motta e Silva, Oscar Niemeyer, Jorge Amado, Candido Portinari, José Pancetti, Roberto Burle Marx, Ado Malagoli, Flávio de Aquino e Mário Barata.

– 1950. Inicia a sua vida como cenógrafo e figurinista no teatro (Filha da Feiticera, Teatro de Bolso).

– 1951. Coletiva no V Salão do Clube Militar do Rio de Janeiro.
– 1951. Participa do LVI Salão de Belas-Artes: Divisão Moderna, Rio de Janeiro.

– 1951. Participa do Ballet Negro Surrealista, Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

– 1951. Participa da “Antologia de Poetas Novos do Brasil” com prefácio de Aníbal Machado.

– 1952. Articula o 1° Salão Brasileiro de arte Moderna, sob a orientação de Lúcio Costa e Jorge Amado.

– 1952. Através de uma bolsa do governo francês, estuda durante dois anos no atelier de en:André Lhote, em Paris, onde conhece Pablo Picasso, Georges Rouault, Fernand Léger e Sonia Delaunay. Conhece Henri Matisse e Jean-Paul Sartre.

– 1953. Exposição de cerâmicas, desenhos e óleos no Palácio do Ministério da Educação e Cultura – MEC.

– 1953. Formado pela École Nationale Supérieure de Beaux Arts, Paris, estudando com en:Albert Gleizes.

– 1953. Duas exposições de Cerâmica e Nanquin, na Galeria Dina Verri, Paris.
– 1953. Faz ilustrações para poemas de Oscar Wilde e Somerset Maugham.

1953. Cerâmicas no atelier Yves Tardy-Maurice Utrillo, Paris.

– 1954. Salão Nacional de Arte Moderna, Rio de Janeiro.

– 1954. Prêmio Melhor Cenógrafo do Ano (Brasil). Onde está marcada a cruz (Teatro Dulcina).

– 1955. Exposição individual: Trabalhos de 1945 à 1955, na Galeria Exclusividades (RJ).

– 1955. É capa da revista Manchete junto com a Miss Universo Miriam Stevenson.

– 1956. Salão Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.

– 1956. Exposição coletiva de tapeçaria na Tate Gallery, Londres.

– 1956. Expõe na Galeria Ruth Cohen, Nova York.

– 1956. Expõe cerâmicas, monotipias e desenhos, Milão.

– 1956. Retrospectiva Pintura Brasileira, Escola Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.

– 1956. Ingressa como Diretor de Arte da TV Tupi, permanecendo 14 anos.

– 1957. Exposição Le Tapis Brésilien, Paris.

– 1958. Forma-se em arquitetura pela Universidade do Brasil (RJ).

– 1958. Exposição no Salão do Mar, Rio de Janeiro.

– 1958. Prêmio Melhor Figurinista do Ano.

– 1961. Prêmio Melhor Diretor de Arte – Crítica Especializada.

– 1961. Prêmio Melhor Cenógrafo do Ano – Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Peças “Belo Indiferente” e “Felisberto do Café”.

– 1962. Prêmio Melhor Figurinista do Ano – Rede Globo de Televisão.

– 1963. Exposição na VII Bienal de São Paulo.

– 1963. Montagem e figurinos nas peças “Os Fuzis da Senhora Carrar” de Bertold Brecht e “Canção dentro do pão” de R. Magalhães Junior apresentadas na VII Bienal de São Paulo.

– 1963. Exposição de Tapeçarias na Galeria Bonino (RJ).

– 1963. Exposição no Museu Nacional da Nigéria, em Lagos, Nigéria.

– 1964. Exposição de Tapeçaria na Galeria Guignard, em Belo Horizonte (MG), alguns desenvolvidos com as bordadeiras de Madeleine Colaço.

– 1965. Exposição na VIII Bienal de São Paulo.

– 1967. Começa a trabalhar com o Diretor de Televisão Walter Avancini, com quem faz cerca de 30 grandes produções, incluindo as telenovelas Irmãos Coragem e Gabriela Cravo e Canela.

– 1970. Utiliza seus conhecimentos de arquitetura para criar um magnífico atelier de vidro e madeira rústica na restinga da Barra da Tijuca (RJ), junto com José Zanine Caldas.

– 1970-1981. Criação visual do Programa Fantástico da Rede Globo de Televisão.

– 1975. Como Vice-Presidente do Departamento Cultural, fez os figurinos da Escola de Samba Portela com o tema “Macunaíma, Herói de Nossa Gente”.
– 1975. Salão do Carnaval, Prêmio Aquisição, Ministério da Educação e Cultura.

– 1975. VII Salão de Arte Nacional, Belo Horizonte.

– 1976. Retrospectiva de 35 anos no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

– 1976. Exposição na Real Galeria de Arte, Rio de Janeiro.

– 1976. Ministério da Educação e Cultura, recebendo o Prêmio Aquisição entregue por Walmir Ayala.

– 1982. Exposição Itinerante. Pintura Brasileira Hoje, Ministério das Relações Exteriores.

– 1983. Coletiva no Museu da Imagem e do Som, São Paulo.

– 1986. Exposição de inauguração do São Conrado Studio de Arte, Rio de Janeiro.

1986. Exposição na I Exposição Brasil / Itália.
– 1986. Exposição na Entreartes em São José dos Campos.
– 1987. Exposição individual em Buenos Aires (Argentina).
– 1987. Exposição na Choma Galeria de Arte (SP).
– 1987. Exposição na Galeria Basílio (RJ).
– 1987. Exposição na Galeria Valoart (SP).

– 1986 – 2008. Dedica-se quase que exclusivamente a pintura a óleo, tendo produzido segundo seu próprio relato mais de 3000 obras de arte ao longo de sua carreira.

– 1991. Prêmio Destaque do Ano – Revista Atenção.
– 1992. Retrospectiva 50 anos de artes – Secretaria de Cultura de São Paulo.

– 1993. Lançamento do livro Sörensen com exposições em Las Vegas, Nova York e Seatle (Estados Unidos).

– 1994. Expõe colagens e serigrafias na Galeria Documenta, São Paulo.

– 2000. Cria os figurinos do Ballet Daphine et Cloé para o Ballet da Ópera de Paris, apresentado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

No dia 28 de Fevereiro de 2008, Sörensen falece devido a problemas coronários no Rio de Janeiro. – 1986 – 2008. Dedica-se quase que exclusivamente a pintura a óleo, tendo produzido segundo seu próprio relato mais de 3.000 obras de arte ao longo de sua carreira.

Citações a Sörensen

“Artista Total, Sörensen arquiteto, Sörensen poeta, Sörensen meu pintor, Sörensen cidadão do mundo… É sem dúvida um dos mais significativos artistas plásticos brasileiros.”
Carlos Drummond de Andrade, 1976

“Sörensen é precisamente um colorista. O que não significa que precise usar muitas cores, pois seus desenhos em branco e preto são plenos de cor e sensibilidade.”
en:André Lhote

“A primeira vez que vi um dos seus quadros em Paris, sem o conhecer, tinha certeza de estar diante de um quadro ou mexicano ou brasileiro. Só um ou outro poderiam ter a audácia de aliar um tão alto significado a um desenho tão depurado. O que vale em Sörensen é que ele já descobriu que não é necessário dizer muito para dizer. Seus marrons e cinzas são esplêndidos.”
en:Gleizes – 1953.”

“Raros são os artistas da geração do pós-guerra que tão vivamente me impressionaram como Sörensen.”
J. M. Zervos, Nova Iorque, 1956.

“Os trabalhos de Sörensen não tem arte. Têm muita arte. E tanta originalidade, beleza e sensibilidade que a gente se espanta. O poder da criação e uma técnica apurada fizeram de Sörensen um dos nossos melhores artistas plásticos.”
Alvim Barbosa, 1957.

“Os brilhantes figurinos de Sörensen para os vídeo-arts, ora apresentados em Londres, com seus efeitos metálicos deslumbrantes, faz com que o melhor que se faz em Londres no gênero pareça pálido e antiquado.”
-en:Sylvia Sims, Londres, 1975

“Nas relações entre pintura/tapeçaria, três artistas se destacam, porque a tratam como arte de linguagem própria, inserida no trabalho que desenvolvem, como expressão criadora maior: Sörensen, Roberto Burle Marx e Francisco Brennand.”
Geraldo Edson de Andrade/Clarival Valadares.

“Sörensen esteve presente,nesses anos em todos os movimentos pioneiros da cultura brasileira, do cinema `a tapeçaria, passando pelo jornalismo, pelo teatro e pela gravura.”
Ibrahim Sued (1976).

(*) O autor, Renato Cardoso, é bacharel em direito de formação, porém optou pela carreira voltada à comunicação, começando em rádio, com passagem por jornal, televisão e participação ativa na implantação de teve por assinatura no Brasil. Trabalhou na Rede Globo e Multicanal, hoje Net.

* Ilustrando com obras de Sörensen.