A Casa da Eny (podia ser de Irene)

No inicio dos anos 1960 um compositor da musica popular italiana compôs uma canção com o titulo A casa da Irene. “Na casa da Irena, se canta se ri, é gente que entra, é gente que sai”.

Podia ser uma casa de família onde muita gente ia e voltava de visitas; quem sabe de uma família numerosa. Mas não, para quem ouvia, a letra se referia a um bordel.
Muitos anos antes dessa musica,  no estado de São Paulo, havia A Casa da Eny,  a maior casa do meretrício de São Paulo, quem sabe do Brasil.  Ficava na cidade de Bauru (350 quilômetros distante da capital).

10383945_970092476355288_6569274235951103220_n (1)
Foi a casa mais dita na imprensa ou em qualquer recinto onde o sexo era assunto principal (ou não).  Qual o time de futebol varzeano quando foi jogar em Bauru,  ou cidade próxima,  que não parou na porta do estabelecimento do “amor”  para fazer uma visita e conhecer belas mulheres que alugavam seus corpos por alguns minutos?

Madame Eny

A proprietária era:  Emy Cesarino (ou Sarino, segundo outras fontes), filha dos imigrantes José Cesarino, italiano,  e de Angelina Bassoti Cesarino,  francesa. Nasceu em 1916 no bairro da Aclimação em São Paulo,  morou em Uruguaiana e aportou aos 23 anos,  em 1940, para trabalhar como inquilina de Nair, na Pensão Imperial.

Passou a gerente, arrendou e finalmente comprou o “ponto” e a casa da antiga zona de meretrício,  na rua Rio Branco 5-50,  pouco acima da esquina com a Costa Ribeiro,  tendo logo se destacada dos demais,  pela sofisticação e luxo que seu bordel oferecia.

Em função da lei municipal que proibiu a permanência da zona do meretrício em área central da cidade,  no final dos anos 50,   Eny,  antes proprietária da Pensão Imperial, transferiu-se para fora do perímetro urbano,  construindo o Restaurante “Eny’s Bar”  em propriedade particular,  ao sul da cidade,  em área transacionada através da Prefeitura, diversamente das outras casas que foram confinadas no extremo leste da cidade, no “formigueiro” ou Novacap, a zona determinada pelo poder municipal para o baixo e médio meretrício, em terrenos de Edgar Bicudo.

A casa da Eny se situava junto ao trevo rodoviário que hoje leva seu nome,  que liga as rodovias Mal. Rondon, Cte. João Ribeiro de Barros e Eng. João Batista Cabral Rennó – nominado de Eny, pela fase áurea do seu luxuoso bordel se deu entre 1963 e 1983, e agora oficialmente com seu nome.

A casa da EnyO maior e mais luxuoso bordel do Brasil,  inigualável na América Latina,  tinha 5.000 m² de área construída, distribuídos em 12 conjuntos,  7.000 m² de jardins e alamedas floridas,  protegida por muros,  com a maior piscina particular da cidade,  sauna, restaurante e lanchonete,  além dos quarenta quartos e suítes  com cama redonda e poltronas Luís XV, além de uma suíte presidencial  com entrada privativa.  A pista de dança, ao ar livre,  tinha formato de violão,  cujo “braço” era a entrada para a churrascaria. Tudo de uma beleza e requinte inconcebíveis para um bordel, em 1963 (anos antes do La Licorne, na capital).

Contudo, os serviços mais destacados eram a qualidade das mulheres e o sigilo/discrição garantidos pela proprietária – na verdade, sua marca registrada. Vinham as lindas moças de toda a parte do Brasil e recrutadas até do Paraguai, Argentina e Uruguai.

Eny nelas investia,  antecipava-lhes dinheiro para roupas finas,  jóias caras e salões de beleza (o da Dirce era o melhor, também freqüentado por “senhoras da sociedade”);  tudo do bom e do melhor para a clientela constituída por gente muito rica,  famosa, políticos e afins.  “Segundo se diz, passaram pelos aposentos da Eny  dois terços de todas as assembleias legislativas do Estado de São Paulo nos últimos anos,  muitos governadores de Estado e prefeitos da região,  boa parte dos grandes plantadores de cana e os filhos deles e pelo menos um Presidente da República”, conforme comentava  um frequentador assíduo da casa.

A memória de quem trabalhou lá (garçons e novas donas de bordéis locais, iniciadas por Eny) evoca:  Chico Anísio,  Juca Chaves,  Clodovil,  Roberto Carlos,  Vinicius de Morais,  Jô Soares,  Laudo Natel,  Paulo Maluf,  José Sarney,  Orestes Quércia…,  para citar os mais conhecidos.

O fato é que Le Bordel fazia as vezes de “centro de convenções” do estado,  muito antes de terem sido criados os primeiros deles.  Bauru já era o lócus para fechamento de grandes acordos de empresas e indústrias de porte – como notícia a imprensa local, inúmeras vezes -,  pois a comemoração com chave-de-ouro na Eny era obrigatória.

A Bardahl e a Dedini,  ali promoviam suas convenções de final-de-ano para diretores e representantes,  além das reuniões para os delegados das convenções políticas,  no período da ditadura militar.

Ora,  nada mais previsível que essa hábil administradora (que, dizem,  deteve a maior fortuna de Bauru da época,  com 24 casas só no Parque Vista Alegre),  exercesse também grande força política, como  por exemplo, em menos de 24 horas fazer revogar a ordem do Delegado Regional de Polícia,  Francisco de Assis Moura,  que determinara o fechamento da sua Casa,  por não estar no local determinado ao meretrício,  na Novacap,  e elegeu, em 1963,  o vereador Marco Aurélio Brisolla.

Conta Nicola Avallone Jr., ex-prefeito, em entrevista à Revista Bauru e Região (Ano I nº 1, set/93) que um delegado de polícia – querendo agradar o Jânio Quadros, o grande derrotado em Bauru – fechou a Casa da Eny. O fechamento durou três horas. Reabriu com a presença do Juiz Otávio Stuchi – uma personalidade fantástica “Fizemos um comício em prol da Eny.  Provamos ao Juiz – que a Eny era um elemento agregador e não desagregador.  E essa mulher teve tanta visão que transformou-se na Dama da Caridade.  Porque queríamos tirar a zona da 5-50 da rua Rio Branco,  porque ficava a 50 metros do cinema,  na área central.  Nós ajudamos a transferência do bordel para a rodovia Bauru-Ipaussu. Quem decidiu o local fui eu.   Arrumei mais nove companheiros para ajudar.   O local estava abandonado.   Era um posto de gasolina.   A área foi comprada e transformou-se em coqueluche nacional.   Ela financiava escola,  creche,  entidades de freiras.   Mulher fantástica,  de marcante presença na vida fraterna de Bauru”.

Nicolinha conta também que até candidato era definido ali.  “Era o pólo mais importante de Bauru.  Os meus hóspedes assinavam o ponto na Casa da Eny.  Ela era anfitriã.  Até um príncipe austríaco que veio a Bauru instalar uma cervejaria – a Vienensse – visitou a Eny.  Ele e quatro engenheiros ficaram tão encantados que depois voltaram para visitar o bordel”, relata Nicolinha.

EnyCesarino2Eny era bastante conhecida na cidade e na região desde os anos 40,  quando se mudou para Bauru;  mas, de 1963 ao início dos anos 80,  sua fama cresceu e seu bordel tornou-se um dos mais notáveis do país até ser desativado em 1983 (a propriedade foi vendida a grande empresário de ônibus da região, Dolírio Silva, que a revendeu. Hoje pertence a herdeiros do médico psiquiatra,  ex-deputado estadual,  Fauzer Banuth, e permanece fechada, sem uso algum.

Mesmo não existindo mais, a  “Casa da Eny” é ainda referência para e sobre Bauru, citada, até hoje, em jornais e na TV.

Casa da Eny, parte dos fundos

O fundos da casa (acima),  e a piscina que ficava no amplo terreno.

Enypiscina
                                 Abaixo, o neon da casa sa Eny, ficou para a posteridade


Fonte: **site, Bauru Chic – bauruchic@uol.com.br*Texto – Mário Lopomo.* Jânio Quadros durante a campanha eleitoral de 1960 para a presidência da republica fez uma visita a Casa da Eny.  Jânio foi muito receoso de ser comentado como ter feito uma visita de para outros fins que não fosse para a captação de votos já que Eny era muito querida por lá, assim dizia Nicolau Avalone Jr, deputado e posteriormente prefeito, e nascido naquela cidade.

O livro

Quando o escritor Lucius Mello chegou, em 1,988, Bauru estava de luto, pois Eny tinha falecido, em 1.987.  “As pessoas falavam de Eny como muita admiração e com muito orgulho por ter tido uma cafetina como um símbolo da cidade.
E a partir daí veio a ideia de escrever um livro sobre sua vida. Percebi que o povo de Bauru queria que essa historia fosse contada. Em qualquer lugar que ia aos bares, nas festas sempre tinham pessoas que falavam dela. Daí saiu o livro sobre o grande bordel brasileiro“.

Lucius Mello (autor do livro)

Leia também:

ENY, SEU BORDEL FAMOSO E MENINAS

PAULO DE CAMARGO E A CASA DA ENY

ENY DO MÁRIO PRATA É TRIBALISTA

Vídeo sobre a Casa da Eny, de produção independente.

Você pode ver também:

Estudantes de jornalismo da Unesp promovem documentário para TCC (abaixo).

botao-voltar

One Comment

Envie um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.