120 anos de Bauru

Quando eu era menino pequeno lá em Piratininga, ficava pensando em conhecer Bauru. Ouvia muita gente falar do sundae da Americanas e dava aquela água na boca.
Minha mãe dizia: “mas você conhece Bauru. Quantas vezes não foi até lá visitar Tia Iracema, Tio Zezé Ramos e os primos?”.
Dizia que sim, mas queria era mesmo me ousar a pegar um trem, descer na estação ferroviária, passar pela Praça Machado de Mello e subir a Batista de Carvalho, como faziam meus amigos mais velhos. Queria tomar o sundae da Lojas Americanas, que à época era o máximo.

Um dia minha mãe disse: “filho, toma aqui cinco réis e faça sua aventura”.
Peguei um Ita no Norte, opssss, o trem, e rigorosamente cai na estação. Aí já era fácil, porque era descer do trem, passar por debaixo daquele trilho que ficava ao lado, passar por aquele imenso saguão e pronto, lá estava eu na Praça Machado de Mello.
Fiquei encantado com o homem gritando no trem: “jornaleiro”. E outro que dizia “Bauru… Bauru… Bauru… próxima parada”.
Quando a máquina apitou, foi aquela emoção.

Vencido o primeiro desafio só me restava subir a Batista de Carvalho e foi aí que entendi o verbo “Batistar”. Tinha gente de tudo quanto é lado, com carros no meio, lojas abertas, aquele movimento, Passei pela Casa Sampaio e dei uma olhada. Uau, que grande! Gozado, vende de pregos a máquinas. Que ousadia.
E fui subindo, até que me deparei com sapatos de todos os tipos, bico largo, bico fino, cano alto, cano baixo e todos lustrando. Ah, era a Casa Burgo e que elegância naqueles homens de branco atendendo com muita dedicação e respeito.

E fui subindo, até que vi meio à distância a tal da Lojas Americanas. Pronto, realizei meu sonho, pensei.
Entrei e quase me perdi de tantas ruelas naquela imensa loja que tinha uma lanchonete ao final. Claro que não ficou difícil concluir que o tal do sundae ficava na lanchonete.
E foi aí que aprendi que para entrar tinha que pegar um papel onde a garçonete anotava tudo que consumíamos.

Mas eu só quero um sundae, disse eu, no que a moça respondeu: “Vai lá menino, peça sundae (é com u que escreve mas se pronuncia com a, tendeu?).
Acenei que sim com a cabeça e fui até o balcão, estufei o peito e ao primeiro que veio me atender disse: SANDAE moço, mas só que se escreve SUNDAE. O moço foi até meio grosso dizendo “não precisa explicar moleque pois aqui não é sala de aula”.
Tá bom, tá aqui o papel e me dê o tal do sundae e repetia baixinho: sundae, sandae, sundae.
Aí veio aquele delicia e nem sabia por onde começar. Aliás, até que comecei bem, mas não queria que aquele momento acabasse. SUNDAE, olha eu aqui tomando um SANDAE. Mil felicidades pois meu dia foi de glória.
Fiz tudo direitinho: tomei o sundae, paguei no caixa, limpei a boca com guardanapo de papel (imagine,… guardanapo de papel!).

Aí dei uma volta, olhei tudo que tinha e pensei comigo: agora já dei o primeiro passo, da próxima vez será mais fácil.
Achei estranho e até me perdi quando olhei para uma rua de saída que não era a Batista de Carvalho. Era uma rua que subia e que tinha ao lado um bar muito chique chamado Molina. Ué, não foi por aqui que entrei, acho que estou perdido.

Mas como bom piratiningano não me deixei ficar tipo “caipira”, andei por aquelas ruelas da loja até que saí na Batista. Uia, eu na Batista de Carvalho de novo. Tô ficando chique.
Olhei em frente e vi uma loja cheia de panos, panos de todas as cores e dois meninos a atender os clientes. Foi ali que conheci Binha e Duka Gebara e depois então ficamos muito amigos.

Assim foi minha primeira aventura, quando Binha falou: ” agora você precisa ir mais acima e conhecer a Lalai, onde ficam os bacanas”. Só preocupei com uma coisa e fiz a pergunta fatal: é caro?.
Binha disse, sendo amigo desde a primeira hora: “depende do que gastar, mas lá também tem o tal do sundae que você tanto amou, mas é um pouco mais sofisticado.” So fis ti ca do?

Sabendo de minha timidez foi elegante: “Piratininga: mais chique, tem mais coisa além do sorvete, calda de morango e alguns pedaços de amendoim”. Pensei então, já sei, vou à Lalai, mas primeiro vou pedir para minha mãe mandar fazer uma calça de linho e camisa com aquele tecido que minha Tia Iracema traz do sul (só ela tinha).

E não deu outra, pois aí já era um piratininga/bauruense, meio sem RG definido, ou exclusivo.
Não deu outra, fui à aventura e tomei o sundae da Lalai. Só menina bonita lá e meus olhos esticaram na, na, naquela que, uma linda e na… Carpira como eu, fui perguntar o nome de uma morena pro Patelli (depois ficou muito amigo) e ele foi elegante: “para menino, pois é namorada do Jim Daniel”. Vai saber quem é esse Jim Daniel, que mais lembra nome de wiskei.

Assim fui levando e avançando, tal qual os bandeirantes no desbravar a “Boca do Sertão”. Aí cheguei à Gustavo Maciel, fiquei na saída das meninas do Colégio São José e cheguei ao Bauru Tênis Clube.
Um de minha turma (aí eu já tinha turma aqui em Bauru) disse: esqueça cara, no BTC só bacanas. Você tem sobrenome Duarte? Apréa, Rino, Martins, Machado?

Desolado pensei em mudar meu nome por inteiro só pra ficar sócio do Tênis. Acho que vou dizer que sou filho do Dr. Oquendo (ele era o máximo na época). Não precisou e pela amizade e por tocar bem violão e cantar, indispensável nas serenatas, logo me vi sócio e colei no peito a carteirinha só pra mostrar pros meus amigos de Piratininga.
Foi quando me dividi entre Piratininga/Bauru. Piratininga/Trem/Bauru/Trem/Piratininga.

Essa história faz mais de cinquenta anos e seu eu contar o que veio pela frente, sei que não irá acreditar.
Daquela ousadia surgiu minha família, com três filhos aqui nascidos. Aqui terminei os estudos, toquei minha vida e até que fui longe demais. De trem, de ônibus, de navio, de avião, de carro. Que fui fui.

Ah., esqueci de dizer que tudo isso conto por conta dos 120 anos de Bauru, dos quais, quase metade comigo aqui, aprontando das minhas.

(*) Renato Cardoso, o autor, é jornalista, publicitário e bacharel em direito.

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